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Estado de Minas

Pacientes com câncer são desnutridos

Estudo feito no Hospital das Clínicas da UFMG indica que problema afeta mais de 85% das pessoas atendidas em ambulatórios no Brasil, prejudicando sua recuperação


postado em 05/03/2012 13:05

Os princípios de uma alimentação balanceada e saudável são ainda mais importantes quando o assunto é câncer. Durante o processo de tratamento da doença, o acompanhamento nutricional tem sido cada vez mais apontado como o responsável pela qualidade de vida dos doentes e um grande aliado no enfrentamento do problema. Diferentemente de quando não tem esse acompanhamento, o paciente pode se ver envolvido em quadros graves de desnutrição, como constatou pesquisa inédita desenvolvida no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG).

De acordo com dados do estudo, a desnutrição pode afetar até 86% dos pacientes, 72,2% deles de forma grave. Nesse estado, costumam ter menos tempo de sobrevida e mais complicações durante o tratamento oncológico. Segundo Maria Isabel Correia, professora titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenadora da pesquisa, desde 2001 sabe-se que a desnutrição é altamente prevalente em hospitais brasileiros (mais de 50% dos pacientes hospitalizados são desnutridos).

O problema, segundo ela explica, está associado a maior tempo de internação, complicações, mortalidade e altos custos. “Quando avaliamos, naquela época, pacientes com câncer, vimos que essa marca subia para quase 70%”, lembra a especialista.

Com esse dado em mãos, ela resolveu investigar os impactos da desnutrição nos portadores dos mais diversos tipos de câncer em tratamento ambulatorial, antes de iniciarem a quimioterapia. Entre os que participaram do estudo estavam pacientes com câncer de estômago, esôfago e intestino, além de mulheres com câncer de mama, todos atendidos no serviço de oncologia do HC/UFMG.

Os estudos foram divididos em três dissertações, e em todos eles confirmou-se a alta prevalência de desnutrição grave, principalmente nos casos de tumores de aparelho digestivo. As mulheres com câncer de mama, ainda que muitas apresentassem sobrepeso e obesidade, também tinham alguma ausência de nutrientes no organismo.

O acompanhamento dos pacientes permitiu constatar que a baixa qualidade nutricional impacta negativamente no tratamento dos tumores, independentemente do estágio da doença. “Os desnutridos toleram pior o tratamento oncológico e, muitas vezes, ele tem que ser interrompido ou atrasado porque o doente não aguenta as intervenções”, ressalta a médica.

Ela lembra que a boa nutrição, por si só, não cura a doença. Contudo, ao proporcionar melhor adequação ao tratamento anticâncer, acaba contribuindo para maiores taxas de cura. Por isso, Maria Isabel afirma que, em geral, todos os pacientes com câncer deveriam ser acompanhados por equipe de terapia nutricional, para serem orientados em questões básicas como adaptação do paladar de acordo com a fase do tratamento, início do uso de suplementos nutricionais (quando necessário) e até mesmo nutrição artificial nos casos mais graves.

“Infelizmente, isso é pouco valorizado nas equipes médicas. Nosso objetivo é justamente alertar autoridades e médicos para a necessidade de um acompanhamento nutricional desses pacientes por uma equipe especializada. Os custos seriam apenas com o profissional e, além de melhorar o prognóstico do paciente, a presença das equipes significa menos gastos com o doente. Na nossa visão, isso deveria ser rotina nos hospitais”, defende.

Autora de um dos estudos, Jacqueline Braga, mestre em ciências de alimentos, acredita que, tendo em vista que o câncer de esôfago e estômago (os dois tipos avaliados por ela) evolui com grandes implicações metabólico-nutricionais associadas à diminuição da resposta ao tratamento, é de grande importância desenvolver estratégias eficientes e práticas para o diagnóstico nutricional, de forma que ele possa ser realizado facilmente pelas equipes assistentes. “Assim, é preciso que o estado nutricional desses doentes seja avaliado rotineiramente para as intervenções necessárias serem feitas no início, visando à evolução clínica mais favorável e melhor qualidade de vida da pessoa.”

O método usado por Jacqueline, o chamado escore prognóstico de Glasgow (EPG), que classifica o grau de inflamação, permite identificar os pacientes que têm menor sobrevida, aqueles que são ou estão suscetíveis a desenvolver a caquexia e aqueles que têm má resposta ao tratamento. O reconhecimento de que a inflamação sistêmica influencia o processo de desnutrição pode proporcionar o desenvolvimento de estratégias terapêuticas apropriadas para reduzir a perda de peso, tornando o paciente mais tolerante ao tratamento. “Portanto, o escore poderia ser também ferramenta útil na caracterização do estado nutricional, já que a inflamação é um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento da caquexia. Avaliando a presença da inflamação é possível fazer a triagem de pacientes que possam se beneficiar de intervenções precoces no estado nutricional.”

Resultados do experimento
Participaram da pesquisa 43 pacientes com câncer de esôfago e estômago. Eles foram avaliados em primeira consulta, antes de iniciarem qualquer tipo de tratamento antineoplásico. Nessa consulta avaliou-se o estado nutricional e foram solicitados o exame de sangue para determinação da gravidade da inflamação.

Depois da primeira consulta com a nutricionista, cada paciente foi acompanhado por 3 meses e durante o tratamento foram avaliadas a presença de complicações e o tempo de sobrevida.

A prevalência geral de desnutrição nessa população foi de 86,1%, sendo que 72,2% dos doentes apresentaram desnutrição grave. A inflamação, medida pelo escore prognóstico de Glasgow, também teve prevalência elevada, 58,3%.

Em relação às complicações, 75% dos pacientes desnutridos graves apresentaram pelo menos um tipo de complicação. Esse percentual aumenta para 100% naqueles pacientes classificados com o maior grau de inflamação.

O percentual de sobrevida em três meses foi de 40% naqueles pacientes com maior gravidade de inflamação. Esse percentual aumentou para 90% entre os pacientes que não apresentavam inflamação.

Mortalidade é maior
Pacientes desnutridos têm mais tempo de internação, o dobro das complicações e taxa de mortalidade três vezes maior. Eles também são mais caros para o sistema de saúde, seja o público ou privado. Comparando com pacientes com boa nutrição, os custos são entre 67% e 300% maiores.

Pacientes com câncer encontram-se em estado de inflamação crônica, o que provoca grande perda de peso, estabelecendo um quadro conhecido como caquexia

O termo caquexia é derivado do grego cacos (ruim) e xia (condição). A caquexia é definida como síndrome complexa caracterizada por perda de peso grave, crônica, involuntária e progressiva, que é pouco sensível à terapia nutricional usual, e pode estar associada com anorexia, astenia, saciedade precoce e imunodepressão. A caquexia causa diminuição da resposta ao tratamento oncológico, redução da qualidade de vida do paciente e prognóstico desfavorável.

A caquexia é resultado de causas complexas e multifatoriais, entre as quais se destacam a redução da ingestão (anorexia, náuseas e vômitos), efeito local do tumor (odinofagia, obstrução gástrica ou intestinal, má absorção, saciedade precoce), efeitos do tratamento contra o câncer, alterações do metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios, assim como liberação de substâncias (citocinas) por células inflamatórias. As citocinas são pequenas glicoproteínas, produzidas predominantemente por células inflamatórias.

A perda de peso e a presença de inflamação têm sido associadas ao desenvolvimento de complicações durante o tratamento oncológico e tempo de sobrevida. Com inflamação, o risco de desnutrição aumenta consideravelmente.

 

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