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Estado de Minas

Novo estudo resolve um dos mistérios da infertilidade masculina

Descoberto desarranjo celular que interfere na estrutura do DNA responsável pela entrada do espermatozoide no óvulo. Estudo abre boas perspectivas para homens que carregam clone do gene mutante


postado em 22/07/2011 08:44 / atualizado em 22/07/2011 08:57

Conheça os fatores relacionados à infertilidade masculina(foto: Arte D.A Press)
Conheça os fatores relacionados à infertilidade masculina (foto: Arte D.A Press)
Para mais de 10% da população do planeta, ter um filho natural é um sonho impossível. Problemas como a baixa qualidade do óvulo ou do espermatozoide deixam mulheres e homens inférteis e, muitas vezes, nem mesmo as mais avançadas técnicas in vitro conseguem alterar o quadro. Embora a infertilidade masculina esteja relacionada a diversos fatores, em 17% dos casos os médicos não fazem ideia sobre a origem da disfunção. Um novo estudo publicado esta semana na revista especializada Science Translational Medicine conseguiu resolver o mistério, aumentando a esperança do desenvolvimento de novas terapias.

Em uma entrevista transmitida pela internet para a imprensa mundial, os autores da pesquisa afirmaram que uma variante do gene DEFB126, responsável por codificar uma proteína que ajuda o esperma a entrar no muco cervical da mulher, está por trás de casos desconhecidos de infertilidade masculina. “Estávamos fazendo clones desse gene em estudos de rotina para pesquisar vacinas anticoncepcionais quando detectamos uma mutação que se mostrou notável por três fatores”, contou um dos autores, Chuck Bevans, professor de imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos.

“Primeiro, a mutação impedia a produção de qualquer tipo de proteína. Segundo, mutações como essas são raras porque deveriam ter se perdido no processo de seleção natural. Em terceiro lugar, já que detectamos a mutação em uma amostra muito pequena, suspeitamos que sua frequência genética em humanos deveria ser muito grande”, disse o cientista. “De fato, confirmamos que essa é uma variação comum, que causa impacto no sucesso reprodutivo.”

Variantes e pistas

Ted Tolman, professor de ginecologia da mesma instituição de pesquisa, diz que, quando submetidas ao exame de contagem de espermatozoides, uma técnica usada para avaliar o grau de fertilidade, as amostras de esperma de homens que carregam a variante são idênticas às normais. “Em outras palavras, ao olhar o esperma mutante e o normal pelos exames convencionais, você não tem como encontrar diferenças. Os médicos não têm razão para pensar que homens com a mutação têm funções reduzidas e problemas com fertilidade”, afirmou.

Com a ajuda de pesquisadores da Universidade Médica de Anhui, na China, a equipe de Bevans começou a analisar amostras de homens recém-casados, sem história de infertilidade na família e que tentavam gerar um filho por meios naturais logo depois do casamento. Eles sequenciaram o genoma de populações dos Estados Unidos, da Inglaterra, da China, do Japão e de alguns países da África. Nada menos que metade de todos os homens carregam uma cópia defeituosa do gene, e 25% têm as duas cópias mutantes, que dificultam a navegação do espermatozoide pelo muco cervical.

“Descobrimos que a taxa de nascimento entre os casais em que o marido tinha duas cópias da mutação era 30% mais baixa do que os outros investigados no estudo. Isso indica que a mutação genética reduz a fertilidade”, explicou Simon Fraser, professor de ciências da saúde e epidemiologia da Universidade do Canadá, que também participou da pesquisa.

Diagnóstico genético

Ter os dois genes defeituosos, destacou Fraser, não necessariamente torna um homem infértil, pois ele reconhece que há fatores ligados à fertilidade ainda desconhecidos pela ciência. “Se um homem tem essa mutação, mas, ao mesmo tempo, sua contagem de espermatozoides for alta e se eles forem de excelente qualidade, a deficiência da proteína pode não ser tão importante”, afirmou. “Mas, se sua contagem não for tão boa e ele também tiver a mutação, então isso pode ter um impacto dramático.”

Ted Tolman acredita que, baseado nas descobertas, será possível fazer diagnósticos relativamente baratos do gene DEFB126 e, dependendo dos resultados, resolver o problema com intervenções como inseminação intrauterina. “Talvez também seja possível desenvolver um creme ou gel para aplicar na vagina, que ajudaria o esperma a avançar até o muco cervical. Estamos bastante otimistas”, afirmou Tolman.

Em um artigo sobre o estudo publicado também na Science Translational Medicine, Steve Rozen, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Cingapura, afirma que o trabalho traz boas perspectivas clínicas para casais que sofrem com o problema da infertilidade. Mas ele também faz algumas ressalvas. “É muito cedo para dizer quando o conhecimento sobre a mutação poderá afetar as tecnologias de reprodução assistida. Está claro que essa informação genética ajudará a gerar métodos para tratar o esperma. Ao mesmo tempo, precisamos entender melhor a epidemiologia da variante do DEFB126.”

 


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