Pesquisa recente da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) eleva essa variedade da laranja ao posto de faxineira-mor das impurezas que circulam na corrente sanguínea do corpo humano — com maior poder de limpeza do que outras espécies, como a pêra, a baía ou a valência. Numa análise bioquímica que durou oito semanas, com 35 voluntários, a professora de nutrição da Unesp Cláudia Lima, sob a orientação da bióloga Thaís Borges César, concluiu que o suco dessa linhagem de laranja reduziu em 9% a taxa de colesterol total e em 11% a taxa de colesterol ruim.
Os voluntários, 19 homens e 16 mulheres, passaram dois meses com a missão de beber 750ml de suco da fruta — três copos de 250ml — por dia. “Pudemos observar que a dieta provocou uma diminuição de 5% no índice de proteínas relacionadas a riscos cardíacos (apolipoproteínas B), enquanto a proteína C reativa, um indicador de existência de inflamação aguda no organismo, baixou 49%”, explica a nutricionista. O trabalho de Cláudia, que resultou nesses indicadores de saúde, está disponível na íntegra no portal da Unesp, sob o título Atividade protetora cardiovascular do suco de laranja vermelha em indivíduos adultos — uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas, câmpus de Araraquara.
Para Thaís Borges, as outras laranjas também baixam o colesterol e são ricas em carboidratos, ácido fólico, potássio, vitamina C, mas a laranja de polpa vermelha do tipo falsa sanguínea tem algo mais. “O grande diferencial dessa para outras variedades da fruta é que ela possui maior quantidade de licopeno e de outros flavonoides, além de atuar diretamente nos marcadores que alertam para a presença de radicais livres no corpo, como a proteína C reativa. Quando o nível dessa substância está alto, significa risco de estresse oxidativo (desequilíbrio entre a formação e remoção de agentes oxidantes no organismo) e de doenças cardiovasculares.
De acordo com o engenheiro-agrônomo Rodrigo Latado, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) — que estuda espécies de laranja de polpa vermelha há mais de 20 anos e é pioneiro em plantios experimentais da fsal sanguínea no Brasil —, o licopeno e os carotenos que a laranja contém apresentam de fato funções nutricionais e medicinais. “Os principais carotenoides presentes na laranja, o licopeno e os carotenos, apresentam funções nutricionais e medicinais, com ação preventiva contra câncer e doenças cardiovasculares”, explica o agrônomo, que participou da pesquisa de Cláudia Lima.
O estudo
Segundo Cláudia, os participantes foram orientados a não mudar seus hábitos alimentares durante o período da pesquisa, devendo apenas acrescentar quase um litro de suco da laranja vermelha em suas dietas. Foram selecionados indivíduos saudáveis, com estilo de vida semelhante entre si, e que não faziam uso contínuo de medicamentos. “Outra condição era não ser portador de doenças crônicas”. Os homens tinham, em média, 37 anos, e as mulheres, 34.
No grupo, havia quem praticava atividades físicas, obesos e pré-obesos. A pesquisa tem o mérito também de destituir o caráter místico que circula sobre a laranja provocar aumento de peso, segundo Thaís. “Está mais do que provado que não engorda (o suco). Ao contrário, até passa uma sensação de saciedade e acaba por evitar as tentações com alimentos gordurosos. Nenhum dos pesquisados teve aumento de peso corporal”, atesta.
O fato de a falsa sanguínea se revelar uma fonte importante de proteína C reativa — substância presente em pequenas quantidades no sangue de pessoas normais, mas cuja concentração pode aumentar 100 ou mil vezes durante processos inflamatórios — estimulou Cláudia a levar o tema adiante em sua tese de doutorado. “Diante dessa evidência, o próximo passo é estudar essa proteína (C reativa) como marcador anti-inflamatório, entre outros, para portadores de doença crônica”, observa Cláudia.
Outras riquezas

Laranjas de polpa vermelha são bastante comuns no Mar Mediterrâneo, em particular na Itália e na Turquia. Registros científicos mostram que os cítricos dessa família eram cultivados desde tempos imemoriais na Sicília, com os plantios creditados aos árabes que ocuparam a Península Ibérica a partir do primeiro século da era cristã. Eram conhecidos como “frutos da saúde” e considerados símbolos da vida. A Sicília começou a exportar laranjas de polpas vermelhas ainda no século 15.
Segundo Cláudia, a presença na laranja do alfacaroteno e do betacaroteno a torna especial. “São enzimas essenciais para a absorção da vitanima A, uma das mais importantes para o organismo humano, presente em diversas frutas, legumes e outros alimentos, como ovos, queijos e seus derivados”, afirma. A laranja falsa sanguínea ainda não é plantada nop Brasil em larga escala, mas uma empresa de São Paulo faz suas primeiras investidas com o cítrico em Matão, interior paulista. O Instituto Agronômico de Capinas também mantém canteiros da fruta em Cordeirópolis e pretende expandir a experiência para outras regiões, segundo Rodrigo Latado.
Múltiplos poderes
Antocianinas são pigmentos pertencentes ao grupo dos flavonoides (compostos químicos antioxidantes), responsáveis por uma grande variedade de cores de frutas, flores e folhas que vão do vermelho-alaranjado ao vermelho-vivo, além de roxo e azul. Sua função é a proteção das plantas, de suas flores e seus frutos contra a luz ultravioleta (UV). Evitam, também, a produção de radicais livres. Aos flavonoides são atribuídos diversos efeitos biológicos, que incluem ação anti-inflamatória, hormonal, anti-hemorrágica, antialérgica e anticancerígena.
Ação precisa
Licopeno é uma substância carotenoide que dá a cor avermelhada ao tomate, à melancia e à goiaba, entre outros alimentos. É um antioxidante, que, quando absorvido pelo organismo, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres — produzidos durante funções normais do corpo humano, como respiração e atividade física. Também são formados como resultado do hábito de fumar, superexposição ao sol, poluição do ar e estresse. São altamente reativos e, se não controlados, podem danificar as moléculas importantes das células saudáveis do corpo humano.

