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Estado de Minas VEM DA BAHIA A ESPERANÇA

Autotransplante de células-tronco faz paciente paraplégico recuperar parte dos movimentos


postado em 17/06/2011 07:58

Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade — e para a ciência. Assim como a caminhada de Neil Armstrong na Lua serviu como um espetacular símbolo do avanço humano, os resultados de um transplante de células-tronco em um paciente vítima de trauma raquimedular em Salvador, na Bahia, representam um raio de esperança para os paraplégicos. Seis semanas após ser submetido a um tratamento experimental, ele recuperou a sensibilidade nos pés e nas pernas e já consegue movimentar os membros inferiores, mesmo que ainda não seja capaz de andar. O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular (CBTC), parceria entre o Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz (CPqGM/Fiocruz Bahia) e o Hospital São Rafael, da capital baiana. Pioneira no mundo, a terapia será experimentada em 10 ou 12 pacientes ainda neste ano.

O tratamento consiste no implante de células-tronco retiradas do paciente no local onde a coluna foi lesionada. Os pesquisadores coletam uma amostra de sangue extraída pelo osso ilíaco, que forma a bacia. Contendo células-tronco adultas da medula óssea, é encaminhada a um laboratório especializado no cultivo das células-tronco. Esse processo pode levar de três a cinco semanas e aumenta a concentração de células-tronco da amostra de 1% para até 99%. No Brasil, existem apenas oito laboratórios que usam esse método. Implantados pelo Ministério da Saúde, são os chamados centros de tecnologia celular. Depois de cultivada, a amostra concentrada é reinserida no organismo no local onde ocorreu a lesão. Terminados os procedimentos cirúrgicos, o paciente inicia um tratamento intensivo de sessões diárias de fisioterapia, que dura seis meses.

O primeiro a receber o novo tratamento foi um policial militar de 47 anos, vítima de um acidente que traumatizou a região lombar da coluna. Há nove anos em uma cadeira de rodas, o paciente voltou a ter sensibilidade nos membros inferiores um mês e meio após a cirurgia. Os pesquisadores estão animados, mas cautelosos. O paciente consegue pedalar e ficar de pé com a ajuda de um equipamento especial, chamado espaldar, mas não é possível prever se ele voltará a andar.
Para a coordenadora do projeto, a bióloga Milena Soares, isso depende da fisioterapia e dos resultados de longo prazo, já que a aplicação do estudo em seres humanos está no começo. Ela e a equipe acompanham o progresso do paciente na etapa fisioterápica, essencial, porque trabalha a recuperação da massa muscular. "A inatividade faz com que os membros atrofiem, fiquem pele e osso. As sessões ajudam a fortalecê-los e a dar ganho de massa muscular."

Otimismo


O estudo está centrado na melhoria da qualidade de vida dos voluntários. Mesmo com os movimentos limitados, o policial submetido ao tratamento já recuperou boa parte do controle dos esfíncteres e da bexiga, o que o deixará livre dos cateterismos para retirada da urina. "O procedimento ainda está no começo com seres humanos. Estamos avaliando tudo com muito cuidado, por questões de segurança", conta a bióloga. Uma equipe multidisciplinar, composta por neurocirurgião, neurologista, urologista, cardiologista e fisioterapeutas, acompanha e avalia os resultados.

Além do militar, dois pacientes fizeram a cirurgia de reimplante das células-tronco na semana passada e as características do pós-operatório foram tão positivas quanto as do primeiro. "Por enquanto, são poucos pacientes, mas ainda não tivemos nenhum efeito negativo”, afirma.

A pesquisa do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular começou há cinco anos. Os primeiros testes foram realizados em cães e gatos paraplégicos, que receberam quantidades variadas de células-tronco, dependendo do tamanho da lesão. Os animais demonstraram melhora significativa no controle dos esfíncteres, além de recuperarem a sensibilidade nas patas e alguns movimentos, em graus variados. Em camundongos, a aplicação ajudou a reduzir a fibrose, fenômeno que diminui a passagem dos impulsos cerebrais.

A previsão é de que o estudo seja concluído em dois anos, com a participação de 20 voluntários paraplégicos. Para participar, o paciente deve ter entre 18 e 50 anos e apresentar trauma raquimedular com lesão completa (dano neurológico no qual não existe nenhum grau de atividade motora voluntária ou sensitiva abaixo do nível da lesão) há pelo menos seis meses.

Ticiana Ferreira, médica que participa da seleção dos pacientes, explica que os candidatos têm que apresentar lesão fechada, na qual não há secção da medula. "Ela não pode ter sido exposta, a fratura não pode ser total, a coluna tem que estar apenas lesionada. Por isso, o estudo só é realizado com pacientes que sofreram queda de uma altura elevada, mergulho em águas rasas e acidentes desse gênero." A intervenção ainda não é aplicada a vítimas de lesão com arma de fogo ou arma branca. Este tipo é mais profundo, caracterizando a secção da medula.

Apesar do elevado número de cartas e e-mails de interessados em participar, o número de pacientes do estudo está limitado aos 20 voluntários já selecionados. No Brasil, cerca de 40 pessoas em cada milhão de habitantes são vítimas de traumatismo medular anualmente, resultando em um total de 6 mil a 8 mil casos por ano. As lesões são mais frequentes no sexo masculino, na faixa etária de 15 a 40 anos, e acidentes automotivos são responsáveis pela maioria dos casos. Métodos para restaurar a função medular ainda não estão disponíveis e, atualmente, o caminho para o tratamento é a reabilitação.

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