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Estado de Minas

Médico mineiro usa células-tronco do tecido adiposo contra incontinência urinária


postado em 14/03/2011 06:41

A comunidade científica e o universo da medicina passaram a falar em pesquisas com células-tronco na década de 1990. A descoberta de resultados extraordinários que poderiam amenizar ou acabar com o sofrimento causado por várias doenças e disfunções, como acidentes vasculares cerebrais, cardiovasculares, neurodegenerativas, traumas na medula espinhal entre outros, reacendeu a esperança em pacientes do mundo todo. A maioria ainda está em fase de testes. A novidade é o uso da célula-tronco derivada de tecido adiposo (gorduroso) no
tratamento de incontinência urinária por esforço, desenvolvida pelo urologista mineiro Bernardo Pace e sua equipe do PHD-Pace Hospital, em Belo Horizonte, depois de cinco anos de pesquisa.

Em 22 de novembro, Pace e seus companheiros receberam o aval para começar os testes em seres humanos com a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), que preenche todas as normas e resoluções do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde e das portarias aplicadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O interesse pelo tema veio em 2004, quando deram início ao estudo do uso de célula-tronco na medicina regenerativa. No ano seguinte, o urologista passou seis meses no Hospital Universitário de Innsbruck, na Áustria, para conhecer e se aprofundar no processo. Até então, ao se falar em célula-tronco a referência recaía sobre o mioblasto (músculo) e o fibroblasto (principais células envolvidas no processo de cicatrização ), que não derivam do tecido adiposo.

"Desde 2008, os austríacos pesquisavam o uso da célula-tronco de adulto na incontinência urinária. Na época, usavam mioblasto e fibroblasto. Trouxe a ideia para o Brasil e, com uma equipe de biólogos, comecei a desenvolver o cultivo, o isolamento e a caracterização das células para o tratamento da incontinência urinária por esforço", explica o médico. O grande salto ocorreu em 2009, quando Bernardo e equipe decidiram mudar o processo: "Durante a pesquisa, passamos a trabalhar com a célula-tronco derivada do tecido adiposo (gorduroso) por ser um processo mais simples e que não envolve o cultivo em laboratório".

A diferença entre a célula-tronco embrionária, fetal e a derivada do tecido adiposo (gorduroso) é que nesta não há envolvimento de questões religiosas e éticas, porque a célula é do próprio paciente. Ela está em seu tecido gorduroso. Outro ponto a favor é que, diferentemente do mioblasto, a célula-tronco de gordura não precisa de cultivo e, portanto, não há transformação. "Elimina-se o risco de produzirmos uma célula anômala. Aqui, vamos isolá-la e caracterizá-la para termos a certeza de que ela é realmente a célula-tronco que queremos, a derivada de gordura. A partir daí, é injetar onde for preciso", explica o urologista. Outro ponto positivo é que a aplicação da célula-tronco derivada de gordura é simples: "A retirada é rápida, são necessários de 200ml a 250ml que são aspirados do tecido de gordura. Daí, isolamos as células e já podemos injetá-las no paciente. Pegamos a célula que chamamos de autóloga, que não tem rejeição, e a reinjetamos no músculo responsável pela contenção da urina, que perdeu sua função", explica o médico.

Entre os diversos tratamentos que já usam células-tronco da gordura destacam-se a osteodistrofia (processo degenarativo no tecido subcutâneo) em pacientes HIV positivo com lesões degenerativas, na reconstrução da mama, na reutilização do tecido de pacientes com enfarto agudo do miocárdio e em feridas de diabéticos com lesões em membros inferiores (pernas). No caso do trabalho mineiro, o enfoque é no tratamento da incontinência urinária. Segundo Bernardo Pace, o problema já pode ser considerado de saúde pública no mundo. Ele revela ainda que 30% das mulheres da população adulta vão desenvolvê-lo. "A situação tem a mesma gravidade no Brasil", atesta Pace, contando que, entre as causas, estão o número de partos, as mulheres multíparas (que tiveram vários partos normais e têm maior chance de lesar o músculo que segura a urina), fatores genéticos e pacientes que passam por cirurgias prévias, que enfraquecem a musculatura pélvica: "A mulher é multifatorial e sabemos que, tanto a incontinência por esforço quanto a por urgência é prevalente na população adulta feminina".

No caso dos homens, eles basicamente enfrentam a incontinência por esforço. Há também quem desenvolva a disfunção em virtude das cirurgias de próstata: "De 10 a 15% dos homens ficam incontinentes devido a uma lesão no músculo que segura a urina, o esfíncter. Hoje, o que se tem para o tratamento de incontinência masculina, nos casos mais severos, são os esfíncteres artificiais e os slings, equipamentos muito caros. Nosso processo é uma forma de reconstrução mais natural e que tem tido bons resultados", acrescenta.

Potencial para vários usos

Com a autorização dos testes em humanos, a equipe coordenada pelo mineiro Bernardo Pace começará a cadastrar pacientes. "Há um protocolo rígido para incluirmos os nomes. São feitos diversos de exames laboratoriais, ultrassom, biodinâmica, exame endoscópico e, a partir daí, iniciamos o tratamento. É preciso certeza do quadro de incontinência por esforço para os bons resultados". Terminada essa etapa, a ideia do urologista é tratar todos os pacientes, inclusive os que não têm condição de pagar. "Depois de obtermos os resultados, queremos disseminar a técnica". Outra possibilidade é criar um banco de cultivo da célula-tronco derivada de gordura.

O processo de desenvolvimento da célula-tronco, que se transforma basicamente em qualquer tipo de célula da mesma linhagem embrionária – seja ela fetal, derivada dos tecidos adultos ou embrionária – é o mesmo: "A célula-tronco de gordura tem a mesma linhagem embrionária do músculo. Por isso que, quando você a injeta no local onde precisa, ela se transforma, com uma percentagem significativa, em músculo, promovendo o aumento das fibras musculares e melhora da incontinência urinária. No Japão, há ótimos resultados em pacientes de 80 anos que sofreram queimaduras em 1945, com a bomba de Nagasaki. Eles estavam esses anos todos com a lesão aberta, porque radiação não acaba. Com o uso da célula-tronco, o tecido começou a se regenerar. Então, é possível usá-la para uma lesão na perna que não cicatriza ou para pós-radioterapia, por exemplo", cita o urologista.

Publicação

A célula-tronco derivada da gordura começou a ser pesquisada e usada em 2008. Os primeiros trabalhos na literatura são de 2008, 2009 e 2010. "É muito recente. Então, realmente chegamos juntos, nós, Japão e alguns países europeus. Nossa pesquisa foi toda dentro do hospital, e os resultados preliminares vão ser publicados em periódicos científicos em seis meses", acrescenta. Pace, formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com residência em urologia, é médico assistente do Serviço de Urologia do Hospital Universitário São José da Faculdade de Ciências Médicas de Minas e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia.

Com este trabalho, ele confirma a importância de Minas Gerais na área de biotecnologia no Brasil. "Belo Horizonte, especificamente, é um centro de referência no país com ótimos resultados. Temos ótimas faculdades e centros de pesquisa que podem melhorar e têm potencial para crescer e evoluir. Somos um centro de ponta. O governo tem feito a parte dele, estimulando, mas é preciso ter cada vez mais acesso à linha de financiamento e reforçar a importância de caminhar para a área da pesquisa, que é um dos meios de desenvolver ainda mais a capital mineira e o Brasil."


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