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Estado de Minas COVID-19

Campeonato Mineiro completa um mês de paralisação pela COVID-19

Assim como ocorre agora com o coronavírus, em 1918, a gripe espanhola paralisou o futebol em Minas e em todo o país. Algumas partidas sequer foram disputadas


postado em 12/04/2020 04:00



Na terça-feira, a paralisação do Campeonato Mineiro em função da pandemia do coronavírus completa um mês. E se a Federação Mineira de Futebol (FMF) diz que a disputa terá continuidade, o cenário não é lá muito favorável, já que alguns clubes do interior, envolvidos em dificuldades financeiras ainda maiores, até já encerraram antecipadamente contratos de parte de seus atletas. Assim, o desfecho da competição é uma incógnita e pode repetir, ao menos parcialmente, o que ocorreu em 1918, quando a epidemia da chamada gripe espanhola forçou a paralisação do estadual por quase três meses, com algumas partidas sequer sendo disputadas.

É claro que o contexto há 102 anos era bem diferente. É preciso lembrar que o Estadual só começou a ser disputado em 1915 e, na verdade, sequer tinha esse nome. Na época, era chamado de Campeonato da Cidade, reunindo equipes de Belo Horizonte e alguns municípios mais próximos, como Nova Lima e Sabará.

Também é preciso ressaltar que o futebol dava seus “primeiros passos” por aqui, ainda em sua fase amadora, com os primeiros torneios sendo disputados sem observância de algumas regras da Fifa. Além disso, Atlético e Villa Nova haviam sido fundados apenas em 1908, o América em 1912 e o Palestra Itália, que depois daria origem ao Cruzeiro, sequer existia.

A competição de 1918 envolvia seis participantes: América, Atlético, Luzitano, Sete de Setembro, Villa Nova e Yale, com todas as equipes se enfrentando em dois turnos. O primeiro turno foi disputado normalmente entre abril e maio. Mas no início de junho já veio a primeira baixa.

GOLEADAS

Antes do início do returno, o Villa, que havia sapecado goleadas em Yale (10x1) e Luzitano (7x0), mas também não comparecido a duelos contra Sete de Setembro e Atlético, se retirou da competição alegando problemas financeiros. Para não gerar injustiças – em função até do saldo de gols – todos os resultados do time de Nova Lima foram desconsiderados.

As partidas do returno começaram a ser disputadas a partir de 28 de julho, mas outros W.O foram registrados. Essa era uma estratégia relativamente comum na época, quando uma equipe se considerava muito inferior à outra e preferia não jogar a levar uma goleada histórica (para efeito de tabela, constava derrota de ‘apenas’ 3 a 0). Mas o pior ainda estava por vir.

O vírus da gripe espanhola também chegou com força a Belo Horizonte, causando muito estrago. Na cidade, que na época contava com cerca de 50 mil habitantes, segundo dados oficiais, foram cerca de dois mil infectados (4% do total). Infelizmente, não há registros precisos sobre o número de mortes.

Com o agravamento da crise de saúde pública, não houve opção: o Estadual teve de ser adiado, também em função do risco de os atletas serem infectados. Afinal, a estrutura da jovem capital mineira não era suficiente para tamanha demanda. O Hospital de Isolamento Cícero Ferreira, que funcionava na região onde hoje é o Bairro Santa Efigênia, não suportou o grande número de vítimas. As aulas da Faculdade de Medicina tiveram de ser suspensas e o local foi usado como hospital. Neste momento de esforço coletivo, o futebol também deu sua colaboração: o América cedeu suas instalações para tratamentos de doentes.

Enquanto as autoridades de saúde lutavam para erradicar a doença, a paralisação do futebol mineiro durou quase três meses, para ser mais exato, 83 dias, entre os 5x0 do Atlético sobre o Luzitano em 29 de setembro e a retomada em 22 de dezembro. Mesmo que, diferentemente de hoje, as equipes não tivessem outras competições para disputar, em comum acordo entre os participantes ficou definido que três partidas que não teriam influência na definição do campeão sequer seriam realizadas.

Na verdade, só houve mais um único jogo: o empate em 2 a 2 entre Sete de Setembro e América, que acabou confirmando o título para o Coelho, o terceiro seguido no caminho do deca que marcaria a história do clube. O time ainda teve o artilheiro da competição, a “máquina” Britto, com 14 bolas nas redes (63,6% dos gols da equipe). Ele já havia sido o goleador da disputa nos dois anos anteriores e repetiria o feito em 1919 e 1920.


ENTENDA O CASO

O Mineiro’2020 foi iniciado em 21 de janeiro. A nona rodada (com portões fechados) teve jogos até 15 de março. A tabela original prevê mais duas rodadas na primeira fase e a disputa de semifinais e finais em jogos de ida de volta. A maioria das equipes deu férias a seus elencos até 20 de abril. Ainda não há definição por parte da CBF e das federações, mas nos bastidores há a possibilidade de que as competições sejam retomadas, ainda sem torcida, no fim de maio. Na sexta-feira, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, se mostrou cauteloso em relação ao possível reinício das competições, afirmando que “nenhuma partida merece colocar em risco uma vida”. “Seria totalmente irresponsável retomar caso a situação não esteja 100% segura”.

Jogadores entre as vítimas

Embora os registros dos primórdios do futebol mineiro não sejam tão precisos, os clubes que disputaram o campeonato de 1918 escaparam quase ilesos da gripe espanhola. Mas em outras partes do país, o mesmo não acorreu. Mesmo com histórico de atleta a favor, alguns jogadores faleceram.

Um dos casos mais emblemáticos foi o do meio-campista João Cantuária. Nascido em São João Del Rey em 1894, ele foi ainda jovem para o Rio de Janeiro. Lá acabaria se transformando em uma espécie de jogador símbolo do São Cristóvão, clube que defendeu desde a sua fundação, em 1909, quando tinha apenas 15 anos.

Descrito pela imprensa da época como um jogador com bom porte físico, ágil e de técnica refinada, Cantuária foi convocado para a Seleção Carioca várias vezes. Em março de 1918, aqui em BH, ajudou sua equipe a vencer o selecionado mineiro e ficar com o título da Taça Delfim Moreira (torneio entre seleções existente na época). No mesmo mês, ajudou o São Cristóvão a conquistar o Torneio Início do Carioca. Sete meses depois, em 25 de outubro, aos 24 anos, morreu vítima da gripe espanhola. Detalhe: havia atuado normalmente 12 dias antes no empate em 1 a 1 com o Bangu.

Outro caso também foi registrado no Rio de Janeiro: o do atacante Archibald French, do Fluminense. Nascido em Liverpool, Archie (como era chamado pelos colegas), veio com a família para o Brasil quando seu pai, William French, passou a exercer o cargo de mestre de oficinas e chefe das máquinas da Companhia Progresso Industrial do Brazil.

Da reunião dos operários da fábrica com os gringos que vieram da Terra da Rainha surgiu o Bangu. Archie jogou no clube de 1915 a 1917. Em 1918, se transferiu para o Fluminense, mas só fez 12 partidas pelo clube (seis gols). Quando começava a cavar seu lugar de titular, foi vítima da febre espanhola em 29 de outubro, aos 22 anos. Três semanas antes havia atuado normalmente nos 2 a 2 com o Flamengo.

Em São Paulo também houve ao menos um caso: o médio (hoje volante) Octávio Egídio, da Associação Atlética Palmeiras, que entrou para a história do nosso futebol como um dos integrantes do primeiro jogo da Seleção, em 20 de setembro de 1914 (derrota de 3 a 0 para a Argentina, em Buenos Aires).

De família influente (seu pai, Paulo Egydio, havia sido senador), conciliou, como muitos na época, o esporte com os estudos, se graduando em direito em 1916. Com carreira promissora pela frente, casou-se em março de 1918. Seis meses depois, com pouco mais de 26 anos, foi mais uma das vítimas da gripe espanhola no país.

DE NORTE A SUL

Em 1918, vários estados brasileiros sequer tinham um campeonato de futebol. Além do América, foram apenas outros 11 campeões naquele ano. E a maioria dos torneios foi prejudicada pela gripe espanhola. As situações foram mais críticas no Pernambucano (75 dias de suspensão), Paulista (62 dias) e Carioca (56 dias), locais em que as sedes de alguns clubes foram usadas como hospitais de campanha. As primeiras edições dos campeonatos Gaúcho e Potiguar, que seriam disputadas naquele ano, ficaram para 1919. Pará e Maranhão, por sua vez, conseguiram organizar seus torneios de estreia.


Os campeões de Norte a Sul

  • Carioca: Fluminense
  • Paulista: Paulistano
  • Pernambucano: América
  • Amazonense: Nacional
  • Paranaense: Britânia
  • Baiano: Ypiranga
  • Paraense: Remo
  • Maranhense: Luso-Brasileiro
  • Piauiense: Palmeiras
  • Paraibano: Cabo Branco
  • Capixaba: Rio Branco


ESTADUAL DE 1918 EM MEIO A PANDEMIA
Descartados após desistência do Villa
  • 21/4 – Villa Nova 10x1 Yale
  • 12/5 – Luzitano 0x7 Villa Nova
  • 2/6 – América 2x0 Villa Nova (W.0 no turno)
  • 16/6 – Yale x Luzitano
  • 23/6 – Sete de Setembro x Villa Nova
  • 30/6 – Atlético x Villa Nova (W.0 no returno)
  • 25/8 – América x Luzitano
Última partida disputada:
  • 29/9 – Atlético 5x0 Luzitano

Período sem jogos: 30 de setembro a 21 de dezembro (83 dias)

Retorno da competição:
  • 22/12 – América 2x2 Sete de Setembro
    Jogos que sequer foram realizados**
  • 20/10 – Luzitano x Yale
  • 27/10 – Sete de Setembro x Luzitano
  • 03/11 – Sete de Setembro x Yale
*Em negrito, equipes que não compareceram
** Não teriam influência na definição do campeão

CAMPANHA DO AMÉRICA – CAMPEÃO
  • 8 jogos, 6 vitórias, 2 empates, 22 gols a favor, 4 gols contra
  • Artilheiro: Britto, 14 gols
  • Outros gols: Ferraz (3), Honório (2), Geraldino, Gerson e Hermetto (um cada)

TURNO
  • 14/4 – América 4x0 Yale
  • 28/4 – América 4x0 Sete de Setembro
  • 19/5 – América 6x0 Luzitano
  • 26/5 – América 1x0 Atlético
  • 2/6 – América 2x0 Villa Nova*
*Jogo descartado após a retirada do Villa Nova

RETURNO
  • 28/07: América 4x1 Yale
  • 25/08: América × Luzitano (W.O)
  • 01/09: América 1×1 Atlético
  • 22/12: América 2×2 Sete de Setembro**
* Sete de Setembro escalou atletas irregulares. América declarado vencedor.

Os campeões
Lincoln Brandão, Mário Pena, Augusto Pena, Carlos Quadros, Otacílio Negrão de Lima, Celso Mascarenhas, Fausto Joviano Ferraz, João Britto de Castro, Camilo Mendes Pimentel, Geraldino de Carvalho, Gerson de Salles Coelho, Honório Otoni e Manoel Hermeto.


HISTÓRIA E PANDEMIA

Apesar do nome, a gripe “espanhola” teria se originado no Leste europeu. A epidemia só ganhou este nome porque a imprensa da Espanha foi a primeira a noticiar livremente o surgimento da doença (o país se manteve neutro na Primeira Guerra). No mundo, a gripe matou em quatro meses mais que toda a Primeira Guerra (20 milhões de vítimas em quatro anos). Estima-se que a gripe teria contaminado cerca de 500 milhões de pessoas e provocado entre 50 a 100 milhões de mortes. Nos EUA, por exemplo, 25% da população foi infectada e foram registradas 675 mil mortes.

No Brasil, o vírus chegou com tripulantes de navios de carga europeus e dos soldados que retornavam da Primeira Guerra. De acordo com o senso, em 1919, o Brasil tinha 30.055.986 habitantes. O número oficial de mortos foi estimado em 35 mil, mas certamente era muito maior, pois muitos óbitos não tiveram registro. Nas duas semanas mais críticas da epidemia, foram registradas cerca de mil mortes por dia. Capital federal na época, o Rio de Janeiro, então cidade mais populosa do país (1,2 mi de pessoas), foi castigado: foram 17 mil mortes. Os sintomas da doença eram muito parecidos com os de uma pneumonia. Cadáveres se amontoavam na calçada à espera de coveiros. Em São Paulo (então com 500 mil habitantes), foram oito mil mortes.

No Brasil, o falecimento do presidente eleito Rodrigues Alves, em janeiro de 1919, causou consternação, principalmente porque em seu primeiro mandato (1902/1906) ele se empenhou justamente em erradicar as doenças contagiosas. Seu vice, Delfim Moreira, mineiro de Santa Rita do Sapucaí, assumiu interinamente a presidência.


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