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Estado de Minas Na oposição

Mandetta tenta afastar seu partido de Bolsonaro: "Seria um desastre"

Em entrevista ao EM, ex-ministro da Saúde denuncia 'política de divisão' do governo e fala de articulações com outras forças


07/03/2021 04:00 - atualizado 07/03/2021 07:19

Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta na solenidade de posse do sucessor, Nelson Teich: depois de discurso ameno, lados opostos(foto: Marcos Correa/PR - 17/4/20)
Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta na solenidade de posse do sucessor, Nelson Teich: depois de discurso ameno, lados opostos (foto: Marcos Correa/PR - 17/4/20)

Com o racha da legenda explicitado na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, um eventual apoio do Democratas ao projeto de reeleição de Jair Bolsonaro (sem partido) será “desastroso”. A avaliação é do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Na visão dele, assim como outros regimes no mundo, a democracia brasileira é atacada por movimentos de extrema-direita de inspiração neonazista, com o uso de algoritmos para manipular e dividir a opinião pública, estratégia com a qual dialoga o gabinete presidencial do Palácio do Planalto.

“Seria um desastre se isso (o apoio a Bolsonaro) acontecesse”, afirma ele, em entrevista ao Estado de Minas.

 

A projeção dada pelo cargo de ministro da Saúde no início da pandemia e as críticas ao comportamento do presidente da República alçaram o médico ao posto de possível candidato ao Planalto em 2022.

Mandetta, que foi deputado federal por dois mandatos, tem intensificado sua agenda de comunicação. Com o agravamento da crise sanitária, ele concede entre cinco e sete entrevistas por dia. Também atende a ligações de prefeitos, governadores e representantes de associações de profissionais de saúde.

 

Ao ser demitido, em abril de 2020, o ex-parlamentar usou palavras amenas ao se dirigir ao presidente da República na transmissão do cargo a Nelson Teich (que depois pediria demissão).

Também foi tratado com cordialidade pelo presidente. Menos de um ano depois, eles estão em lados opostos. Bolsonaro, de forma sistemática, menciona o nome de seu antigo subordinado de forma irônica em suas lives semanais. Na mais recente, na última quinta-feira, criticou “as asneiras do Mandetta”.

 

O ex-ministro denuncia a “política de divisão absoluta” do presidente. “O que percebemos no Brasil, hoje, é uma liga social rota criada a partir dessa política da divisão absoluta. Ela não tem ética e moral. Se o preço disso for a morte das pessoas – e ela ver que isso dá algum tipo de apoio – banca isso”, afirma. Para Mandetta, o DEM não pode se furtar ao debate. “Não se pode, como partido, não ter visões de momento e de futuro”, afirma.

 

“Espero que o Democratas consiga fazer essa discussão. A conversa que tive com eles foi nesse sentido”, acrescenta, informando que tem a missão de coordenar e ampliar o diálogo por meio de um programa com vários eixos – como educação, liberdade de expressão, direitos humanos e políticas para a mulheres – que se contraponha ao projeto de Bolsonaro, considerado disruptivo.

 

Mandetta foi exonerado do Ministério da Saúde depois que se recusou a adotar a cloroquina indiscriminadamente e por defender o uso de máscaras e a necessidade de distanciamento social enquanto o presidente promovia aglomerações, recusava-se a usar a proteção facial e enaltecia o “tratamento precoce”. Ex-integrante do governo, parece ter conhecido os bastidores da estratégia de comunicação usada no Palácio do Planalto.

 

Por isso, garante que a retórica que seguiu na contramão do enfrentamento científico da pandemia e constantemente abre fogo contra as instituições democráticas não é casual.

“É algo fundamentado, que Trump fez nos Estados Unidos e Bolsonaro faz aqui. Teve o Brexit como pano de fundo e está na reemergência de movimentos neonazistas e extremos, que propõem a ruptura absoluta da sociedade e um desmanche do multilateralismo e da tentativa de a humanidade ter um caminhar mais sólido. Aproveita-se toda situação para minar toda e qualquer instituição, colocando tudo em descrédito”, afirma ele.

 

“A máxima de dividir para conquistar está sendo levada a uma coisa muito técnica: isso é feito via algoritmo e manipulação da mente das pessoas. Fala-se e repete-se milhões de vezes o que a pessoa quer escutar”, afirma.

“Em uma situação de gravidade, com uma doença que não é individual – e ataca a sociedade em todas as suas nuances –, uma parte da sociedade quer, primeiro, uma solução mágica, rápida. Então, se a ciência não a tem, divide-se a ciência: plantam-se fake news, repetidos milhões de vezes. Se a saída é via vacina e não se preparou para tal, aumenta-se o movimento antivacina. Faz-se uma ruptura, cria-se o cisma, planta-se o ódio e a treva, para poder estar com todos os setores fragmentados, pois se a sociedade estiver fragmentada em vários problemas, não se une para combater a raiz do problema, que é a condução política deste momento por que o país passa”, assinala.

 

(foto: Rafael Alves/EM/D.A Press/Reprodução)
(foto: Rafael Alves/EM/D.A Press/Reprodução)

"A máxima de dividir para conquistar está sendo levada a uma coisa muito técnica: isso é feito via algoritmo e manipulação da mente das pessoas. Fala-se e repete-se milhões de vezes o que a pessoa quer escutar"

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde

 

Para Mandetta, depois de Bolsonaro atacar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal, o alvo do Planalto nos últimos dias são os governadores e prefeitos que tomam medidas duras para conter a disseminação descontrolada da COVID-19.

“Primeiro, o Congresso Nacional era o grande problema; Rodrigo Maia era o demônio. Depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) era o grande problema. Incita-se toda a massa contra essas instituições e contra a democracia: ‘As urnas são falhas e, se eu não ganhar, o mundo vai acabar’. Isso não tem limites.”

 

Para o ex-ministro, a estratégia entrou em novo momento. “Agora que esgotou – conseguiu fazer os presidentes da Câmara e do Senado e está começando a nomear ministros do Supremo –, o próximo da lista passou a ser o pacto federativo. São os governadores e prefeitos. Ataca e joga a população contra eles. A imprensa brasileira é a mais espancada do mundo. Nunca houve volume tão grande para retirar (da imprensa) a credibilidade. E assim vai. Quem será o próximo?”, questiona.

 

Movimento para ampliar diálogo

 

Além de ampliar o debate interno em seu partido, Mandetta conta que tem buscado interlocução com outros partidos políticos e atores nos campos da direita, centro-direita e centro.

Ele faz elogios ao prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), pela condução do enfrentamento à pandemia, e revela manter contatos com Roberto Freire, do Cidadania, e José Luiz Penna, do PV.

“(Converso com) alguns parlamentares do PSB, como Júlio Delgado (MG), que sempre teve atuação muito destacada. Mas muito, ainda, no campo da troca de impressões, de que tipo de país está se desenhando, da gravidade do momento e da importância de as forças democráticas dialogarem”, revela ele, que desconversa quando perguntado sobre a existência de diálogos com o PT – Mandetta votou a favor do impeachment de Dilma Rousseff e exibiu no plenário do Câmara, no dia da votação do afastamento, uma placa escrito “Tchau, querida”.

 

Indagado sobre conversas recentes com o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro – que, após o vazamento de diálogos que expõem bastidores da Lava-Jato responde no Supremo Tribunal Federal (STF) por ação de suspeição – Mandetta também se esquiva: “Se cada conversa que a gente tiver na política for uma notícia, você vai ter que ter muita página no jornal. Está todo mundo falando com todo mundo”.

 

Em seguida, ele faz defesa do ex-aliado de governo, com quem, por vezes, é apontado como companheiro de chapa presidencial. “Moro é uma pessoa que tem trajetória marcante na história recente do país. Convivi com ele enquanto ministro. De tempos em tempos, a gente conversa sobre algumas coisas. Há uma distância de ser uma coisa política, organizada. É trocar impressões, assim como conversei com o (Luciano) Huck e com lideranças de Minas.”

 

 

 

Deputado vê divisão interna já superada

 

A eleição para a Câmara dos Deputados provocou um “racha” no partido de Mandetta. Parte defendeu apoio a Baleia Rossi (MDB), que tinha Rodrigo Maia, filiado ao DEM, como cabo eleitoral. Outra ala simpatizava com o vencedor, Arthur Lira (PP-AL), que tinha o aval de Bolsonaro.

O deputado federal mineiro Bilac Pinto, contudo, crê que os problemas foram superados. “Esse processo já ocorreu. Estamos olhando para a frente. Houve um erro, na minha avaliação, de condução do processo político.

O DEM acabou buscando outras alternativas que não a que o deputado Rodrigo Maia, à época presidente da Câmara, queria, em função da sua ligação com os partidos de esquerda. Acredito que (a fissura) esteja superada. Dentro do partido a gente trabalha com isso, respeitando, sempre, as posições que cada um quiser tomar”, pontua.

 

Bilac ressalta a importância de Mandetta para o DEM e elogia a atuação do correligionário, mas evita cravar o papel da legenda no pleito do próximo ano. “Vamos aguardar o momento certo, discutir, fazer a boa política, com ‘p’ maiúsculo e, com as Executivas nacional e estadual, avaliar esse quadro nacionalmente. Respeitando, sempre, a decisão dos estados em que teremos candidatos. E, aí sim, tomar posição sobre qual caminho vamos seguir. Pode ser com o presidente Bolsonaro ou outro candidato de centro. É questão de fazer uma reflexão. É muito prematuro. Há muita água, ainda, para passar debaixo da ponte.”

 

 

Projeções e críticas sobre a pandemia

 

Consultado por organismos internacionais sobre a situação no Brasil e procurado informalmente por prefeitos e governadores preocupados com o enfrentamento da COVID-19, Mandetta lembra que alertou, em dezembro, sobre o problema que, mais tarde, acometeu o Amazonas. “(Sobre) Aquela crise de Manaus, alertei em dezembro e falei para a Amazônia: ‘Cuidado, revejam e controlem seus estoques’. As pessoas morreram de asfixia. A morte mais cruel que o ser humano pode experimentar é morrer com um saco plástico na cabeça, puxando o ar, mas com o saco não deixando o ar entrar. É similar à morte por asfixia que as pessoas viveram”, diz ele.

 

Indagando sobre qual lição os governadores podem ter tirado do drama de Manaus, manifesta preocupação que isso volte a se repetir. “Monitorávamos o esto- que de medicamentos para o médico poder relaxar a pessoa e entubar: quando víamos que o estoque nacional estava dimi- nuindo, a gente entrava e inter- vinha no mercado, para não deixar faltar. Eles deixaram faltar. Os médicos tiveram que usar morfina”, assinala, fazendo ques-tão de responder ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que declarou recentemente que o Ministério da Saúde não é uma “fábrica de soluções”. “O Minis-tério da Saúde não pode ser uma fábrica de soluções, mas tem que ser uma fábrica de diminuir o impacto da doença. Por isso estamos na fase de mitigação.”

 


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