Publicidade

Estado de Minas NOVA POLÊMICA

Levantamento aponta cópia em dissertação de mestrado do ministro da Educação

Carlos Alberto Decotelli apresentou o trabalho em 2008 para a FGV Rio de Janeiro com trechos que teriam sido retirados de trabalhos de outras pessoas


postado em 27/06/2020 18:41 / atualizado em 27/06/2020 21:29

Nomeado na última quinta-feira (25), no dia seguinte, sexta (26), o novo ministro retirou o título de doutor de seu currículo Lattes. (foto: Marcos Corrêa/PR)
Nomeado na última quinta-feira (25), no dia seguinte, sexta (26), o novo ministro retirou o título de doutor de seu currículo Lattes. (foto: Marcos Corrêa/PR)
Nomeado novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli teria copiado trechos de outras dissertações de mestrado e textos acadêmicos na introdução do seu trabalho de mestrado, apresentado em 2008 para a FGV Rio de Janeiro. A notícia surge um dia depois de o reitor da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, Franco Bartolacci, revelar que Decotelli não obteve o título de doutor na instituição. 

Segundo levantamento feito pelo UOL, no trabalho de mestrado "Banrisul: do PROES ao IPO com governança corporativa", Decotelli usou um trecho indêntico do texto "Origens e desenvolvimento institucional", de Kátia Valéria Araújo Melo e Rezilda Rodrigues Oliveira, apresentado em julho de 2005. 

Segundo o levantamento, ele escreveu: "Dependendo da natureza do negócio e da teia de constituintes que o embasam, pode-se detectar a existência de burocratas, técnicos e outros atores engajados em projetos e ideias que, para eles, fazem sentido e pelos quais lutam, mesmo que ainda não os tenham materializado, e às vezes, somente se configurando como uma mera agenda, cuja conformação e evolução está sujeita a códigos de conduta, a fontes de poder, ao compartilhamento de uma linguagem comum, a um ambiente propício à colaboração e a mecanismos de difusão da inovação tecnológica. 

O UOL mostra que o texto de Kátia e Rezilda diz: "Dependendo da natureza do negócio e da teia de constituintes que o embasam, pode-se detectar a existência de burocratas, técnicos e outros atores engajados em projetos e ideias que, para eles, fazem sentido e pelos quais lutam, mesmo que ainda não os tenham materializado, e às vezes, somente se configurando como uma mera agenda, cuja conformação e evolução está sujeita a códigos de conduta, a fontes de poder, ao compartilhamento de uma linguagem comum, a um ambiente propício à colaboração e a mecanismos de difusão da inovação entre as comunidades ocupacionais com que se relacionam". As autoras citaram, inclusive a origem da informação em outros autores: "Pelled, 2001; Hoffman, 2001".

Na mesma página, Decotelli escreve, ainda de acordo com o levantamanto: "A sobrevivência das organizações, na abordagem institucional, depende da capacidade de entendimento das regras, crenças, valores e interesses criados e consolidados num determinado contexto ambiental, social e cultural. A forma de interpretar estes aspectos, a fim de se posicionar frente às pressões isomórficas, são melhor explicadas pela presença dos esquemas interpretativos, definidos como "pressupostos resultantes da elaboração e arquivamento mental da percepção de objetos dispostos na realidade, que operam como quadros de referência, compartilhados e frequentemente implícitos, de eventos e comportamentos apresentados pelos agentes organizacionais em diversas situações". 

O trecho, segundo apurou o portal de notícias, é quase idêntico às páginas 32 e 33 da dissertação de mestrado de Júlio César de Paiva de 2006, de título "Institucionalização da garantia do status sanitário na cadeia produtiva da avicultura de corte". 
 
Já na página 20, Decotelli cita: "Nesta visão, a adaptação organizacional refere-se à habilidade dos administradores em reconhecer, interpretar e implementar estratégias, de acordo com as necessidades e mudanças percebidas no seu ambiente, de forma a assegurar suas vantagens competitivas. Como se pode notar, o estudo do processo de adaptação estratégica envolve as visões deterministas do ambiente organizacional e a voluntarista da escolha das estratégias pelos tomadores de decisão nas organizações"

O trecho é igual ao texto "Teoria institucional e dependência de recursos na adaptação organizacional: uma visão complementar", de Carlos Ricardo Rossetto e Adriana Marques Rossetto", publicado em janeiro/junho de 2005. de em jan./jun. 2005, pela Universidade do Vale do Itajaím em Santa Catarina, ( Univali).

"Nesta visão, a adaptação organizacional refere-se à habilidade dos administradores em reconhecer, interpretar e implementar estratégias, de acordo com as necessidades e mudanças percebidas no seu ambiente, de forma a assegurar suas vantagens competitivas. Como se pode notar, o estudo do processo de adaptação estratégica envolve as visões deterministas do ambiente organizacional e a voluntarista da escolha das estratégias pelos tomadores de decisão nas organizações.

Na página 24 de seu trabalho, Decotelli copia trecho da páginas 33 e 34 dissertação de mestrado em Economia de Julieda Puig Pereira Paes, "Criação" de Moeda e Ciclo Político, publicada em junho de 1996. 

O ministro diz: "Este "círculo" econômico-político de perda de poder econômico engendrando uma relativa fragilização política da União, só pôde ser mantido às custas de uma especificidade do sistema político-partidário brasileiro: a de gerar representantes legislativos federais com interesses fortemente locais em seus estados de origem. Portanto, o lastro político-institucional que proporcionou o projeto dos bancos estaduais foi reproduzido como um modelo ao mesmo tempo econômico-político-partidário, confrontando espaços de gestão, poder e autonomia administrativo-financeira entre os estados e a União".

Os quatro trechos não são colocados entre aspas, o que é obrigatório em trabalhos acadêmicos, quando há citações de outros textos. Também não há referência ao autor, logo quando termina a frase. Ao final do texto, Decotelli faz referência apenas aos textos de Rossetto e o escrito por Kátia Valéria Araújo Melo e Rezilda Rodrigues Oliveira, na bibliografia. Os outros, nem isso.


Alteração no currículo


Na sexta-feira (26), Carlos Alberto Decotelli da Silva modificou seu currículo disponível na plataforma Lattes do Conselho Nacional de Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - sistema de currículos virtual, mantido pelo órgão, que integra as bases de dados curriculares e instituições, concebido para facilitar as ações de planejamento e de fomento à pesquisa. 

A alteração aconteceu após o reitor da Universidade Nacional de Rosário, Franco Bartolacci, revelar que Decotelli não obteve o título de doutor. 

Ao anunciá-lo para o cargo, na quinta-feira (25), o presidente Jair Bolsonaro chegou a mencionar o título de doutor do ministro. Mas, conforme o reitor afirmou ao Estadão, o ministro não cumpriu as etapas necessárias à concessão do título. "Cursou o doutorado, mas não o concluiu, pois lhe falta a aprovação da tese. Portanto, ele não é doutor pela Universidade Nacional de Rosário, como chegou a se afirmar".

Ao reeditar seu currículo, Decotelli retirou o título de sua tese "Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja" e o nome de seu orientador Dr. Antonio de Araujo Freitas Jr. No lugar, ele menciona agora apenas "créditos concluídos" e "ano de obtenção: 2009". E, no campo relacionado ao orientador, o ministro assinalou: "sem defesa de tese".

Em entrevista à TV Globo, Decotelli disse que completou todos os créditos do curso, mas assumiu que não fez a defesa de tese. Segundo ele, porque não tinha mais interesse em permanecer na Argentina, onde afirma ter ficado de 2007 a 2009.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade