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Estado de Minas PRIMEIRO ANO

Livro sobre Bolsonaro, Planalto e familiares irrita presidente

Publicação revela bastidores das decisões políticas do governo, mas também traz detalhes das crises, da vida particular do presidente e dos dramas familiares


postado em 19/01/2020 04:00 / atualizado em 19/01/2020 07:57

(foto: Sérgio Lima/AFP)
(foto: Sérgio Lima/AFP)

O livro TormentaO governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, da jornalista Thaís Oyama, que revela os bastidores da atual gestão no palácio do Planalto, irritou o presidente. Após repercussão da obra, que acaba de ser lançada, Bolsonaro criticou a jornalista, dizendo que a imprensa deveria “tomar vergonha na cara” e afirmou que ela, “no Japão, ia morrer de fome”, fazendo uma referência ao sobrenome e ascendência asiática de Thaís Oyama.

Tormenta mostra como Bolsonaro chegou ao comando do país e fatos curiosos do primeiro ano de mandato. A autora reúne, ao longo das 272 páginas, as principais decisões da administração, as relações com o Congresso e ministros, as crises mais agudas, a vida particular do presidente e os dramas familiares dos Bolsonaro, principalmente a instável personalidade do filho “Zero Dois”, Carlos, fonte de dores de cabeça. Confira a seguir alguns trechos do livro.

O drama do 'Zero dois'


A jornalista retrata o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro como um homem confuso, desconfiado e cheio de dúvidas sobre os que cercam. De acordo com a obra, o presidente é muito ligado ao filho Carlos Bolsonaro, deixando muitas vezes a influência dele interferir nas decisões do governo e nas próprias decisões presidenciais. No capítulo “Zero Dois”, a jornalista revela os “dramas” e “chantagens emocionais” que o segundo filho do presidente faz para convencer o pai de que sempre está certo.

Carlos some por dias quando não concorda com algo e toma remédios para o controle do humor, deixando Bolsonaro desesperado por muitas vezes, com receio de que o filho “faça besteira”. O livro narra a admiração que 02 sente pelo pai e conta sobre os ciúmes, às vezes beirando ao doentio, que o filho sente por Bolsonaro, muitas vezes afastando líderes políticos e alianças do governo. Carlos, segundo Thaís, tem o rosto do pai tatuado no braço.

Quando o vice-presidente Hamilton Mourão esteve na mira bolsonarista por ter emitido opiniões que divergiam com as do presidente, Carlos orquestrou uma manobra virtual para estremecer a imagem do vice. Tuítes, mensagens de WhatsApp e insinuações foram feitas pelo filho do presidente, deixando um exemplo claro dos ataques de ciúmes e superproteção que 02 tem pelo pai.

O efeito foi inverso: Bolsonaro não gostou e pediu a Carlos que apagasse um vídeo do perfil oficial do presidente no Twitter em que Olavo de Carvalho criticava os militares, num recado “indireto” a Mourão. Depois disso, Carlos teria desaparecido e deixado como recado para o pai a mesma postagem, porém publicada no próprio perfil.

De fã a demitido

Thaís revela também detalhes da relação de Gustavo Bebianno e Bolsonaro, apontando o advogado como grande fã do presidente. O livro conta que Bebbiano considerava o presidente “diferente de todos os outros”. 

Ele enxergava em Bolsonaro uma alma de criança e inocência diferente do que ele diz ser “as velhas raposas” da política. De acordo com o relato, o advogado começou a enviar centenas de e-mails para o gabinete de parlamentar, elogiando principalmente suas críticas aos petistas.

Bebbiano tornou-se o coordenador da campanha vitoriosa de deputado ao Planalto e foi nomeado ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. O casamento, palavra que o presidente gosta de usar, durou pouco.

Em um novo capítulo do envolvimento de Carlos Bolsonaro nas decisões do governo, Bebbiano acabou demitido menos de dois meses após a posse. Thaís relata que, após a demissão, “o ex-ministro chorava feito criança, com a cabeça afundada no ombro do coronel José Mateus Teixeira Ribeiro”.


'Hospital de petistas'


Que Bolsonaro faz duras críticas ao PT e ao ex-presidente Lula já é de conhecimento comum, mas a jornalista revela que, após o atentado em Juiz de Fora, o então candidato se recusou a ser atendido no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por considerar a unidade um “hospital de petistas”.

O ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff trataram o câncer na instituição. Acabou, então, sendo transferido da cidade mineira para o Hospital Albert Eisntein.

Voto polêmico

Thaís conta os bastidores do voto polêmico pró-impeachment da Dilma, quando Bolsonaro citou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. De acordo com a jornalista, o então deputado escreveu em um papel o voto por ter se irritado com as “homenagens” que estavam sendo feitas pelos parlamentares favoráveis a Dilma.

Alguns deputados citaram Zumbi dos Palmares, Luís Carlos Prestes, Carlos Lamarca, Darcy Ribeiro. A jornalista conta, porém, que, inflamado com a situação, Bolsonaro se irritou ainda mais quando o guerrilheiro Carlos Marighella foi citado. Ao ser alertado por um colega que a fala iria “dar o que falar”, a resposta de Bolsonaro teria sido “foda-se, foda-se, foda-se”.

Militar indisciplinado

A obra também revela o desinteresse do Exército pelo presidente. De acordo com Thaís, existe uma “razão histórica” para que não morressem de amores por Bolsonaro. “Numa instituição que preza a hierarquia e a disciplina como valores essenciais, Bolsonaro havia rompido com uma e a outra”, diz ela em trecho do livro.

Jair Bolsonaro foi responsável por liderar um plano para instalar bombas na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para pressionar o comando da força por aumento no soldo dos praças. O capitão reformado foi processado e absolvido, mas não conseguiu se livrar da desconfiança de seus superiores. A jornalista destaca que a imagem do militar indisciplinado e refratário assombrou Bolsonaro por muitos anos.

Demissão de Moro

Thaís também relata que Bolsonaro cogitou demitir o ministro da Justiça, Sérgio Moro, em agosto. Conforme noticiado na época, Moro teria se indisposto com o presidente diante da interferência do chefe na Polícia Federal.

Na ocasião, Bolsonaro afirmou: “Se eu trocar hoje (o diretor-geral da PF), qual o problema? Está na lei que eu que indico e não o Sérgio Moro. E ponto final”. “A despeito dos conselhos de auxiliares, Bolsonaro decidiu que iria mesmo demitir Moro. ‘Vou pagar pra ver’, disse. O general Augusto Heleno, ao notar a determinação do presidente, descarregou a última bala: ‘Se demitir o Moro, o governo acaba’, disse”, escreveu a jornalista.

Mesa de bar

O livro relata que um dos secretários de Paulo Guedes diz que o presidente “reage a certas informações como se estivesse assistindo ao Jornal Nacional com amigos numa mesa de bar” e que o ministro da Economia precisa explicar as coisas para ele.

Vida pessoal

Em um dos trechos da vida de Bolsonaro fora do Planalto, a jornalista conta que o presidente não gosta de morar no Palácio da Alvorada e que “se dependesse da vontade dele, a família moraria na Granja do Torto, onde se instalou durante o governo de transição, mas a primeira-dama não quis”.

Além disso, revela que Bolsonaro passa horas no closet, no celular, postando textos nas redes sociais ou conversando com amigos. Ele mandou instalar um pufe e uma escrivaninha no cômodo. Como de praxe, o presidente recebe os amigos vestido sempre do mesmo jeito: camiseta de time, bermuda e chinelo de plástico.

Em um dos passeios com a filha, ele teria ido a um churrasco e contado que ganhou quatro quilos desde que assumiu a Presidência. Revelou ainda aos presentes detalhes íntimos da vida do casal: contou que Michelle “sempre quer assistir à novela” enquanto ele quer ver futebol e que toma Cialis, remédio indicado para casos de disfunção erétil.

*Estagiária sob supervisão da editora-assistente Vera Schmitz


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