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Estado de Minas

Em premiação, ministro da Cultura rebate escritor que fez discurso contra Temer

Roberto Freire rebateu o escritor Raduan Nassar ao ser homenageado com o Prêmio Camões de Literatura


postado em 18/02/2017 06:00 / atualizado em 18/02/2017 09:20

Premiação aconteceu na manhã de sexta-feira(foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADAO CONTEUDO SP )
Premiação aconteceu na manhã de sexta-feira (foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADAO CONTEUDO SP )

O ministro da Cultura, Roberto Freire, rebateu as críticas feitas pelo escritor paulista Raduan Nassar ao governo do presidente Michel Temer durante discurso após receber o Prêmio Camões de Literatura, na manhã de sexta-feira, “Quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura”, disse Freire ao escritor, que, em sua fala, classificou o governo de opressor.

Na cerimônia, realizada em São Paulo, Raduan Nassar, de 81 anos, autor de livros como Um copo de cólera e Lavoura arcaica, afirmou que o Brasil vive “tempos sombrios” e criticou também o Supremo Tribunal Federal (STF) e a indicação do ministro licenciado da Justiça Alexandre de Moraes para uma vaga na corte. Agradeceu a presença de Freire, a quem se referiu como “ministro do governo em exercício”, causando uma saia justa para o político.

Segundo Freire, manifestações críticas são próprias da democracia, e só os mais velhos realmente sabem o que foi viver durante o regime militar. “Que os jovens critiquem hoje, não há perplexidade, mas quem dá prêmio ao adversário não é representante da ditadura.” O Camões, na verdade, é outorgado pelos governos do Brasil e de Portugal.

“Não podia ficar calado”, disse Nassar depois de fazer seu discurso antigoverno. Em meio à troca de alfinetadas, a plateia também participou de forma agressiva, com interrupções ao discurso do ministro e a réplicas da parte dele.

“O Supremo nada fez para impedir que Eduardo Cunha instaurasse o processo de impeachment que derrubou a presidente Dilma, mulher digna. Foi um golpe”, disse Nassar, que, ovacionado, foi aclamado também com gritos de “Fora, Temer”, vindos de uma plateia formada, em sua maioria, por editores, escritores e representantes do mercado editorial.

O discurso de Freire inverteu a ordem natural da cerimônia – esperava-se que Nassar fosse o último a discursar. Assim, depois de ouvir a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo (que, em dois momentos, referiu-se a Raduan como Nasser), ao próprio escritor e ao embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, Freire fez o seu discurso, dizendo que só os mais velhos realmente sabem o que foi viver durante o regime militar. Nesse momento, o crítico literário Augusto Massi interrompeu a fala do ministro e disse: “O senhor não tem direito de estar aqui – deixe a obra de Raduan falar”. A reação provocou tanto apoio como apupos. A fervura política se espalhava pela plateia e houve até uma ameaça de troca de sopapos, interrompida pelo bom senso dos próprios envolvidos.

“Passei a noite em claro, revisando o discurso. Eu o mudei ao menos três vezes”, disse Raduan Nassar, que, além de criticar a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, questionou a nomeação de Moreira Franco a ministro, medida ratificada pelo STF. “Em sua decisão, o ministro Celso de Mello acrescentou um elogio superlativo a Gilmar Mendes por ter barrado Lula para a Casa Civil. Dois pesos e duas medidas.”

À reportagem, Freire` disse que esperava tal reação acalorada que marcou a cerimônia. “As pessoas que agora chamam esse governo democrático de autoritário só podem fazer isso porque vivemos em uma democracia. Se fosse durante a ditadura, nada disso seria possível.”

‘DESRESPEITO’ À tarde, o Ministério da Cultura emitiu um comunicado com os seguintes dizeres: “O Ministério da Cultura lamenta, mais uma vez, a prática do Partido dos Trabalhadores em aparelhar órgãos públicos e organizar ataques para tentar desestabilizar o processo democrático. Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura, em São Paulo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, teve sua fala interrompida por manifestantes partidários, sinal de desrespeito à premiação oficial dos governos de Brasil e Portugal”.

“Lamentei que tudo isso tenha acontecido”, comentou o editor Luiz Schwarcz, diretor-presidente do Grupo Companhia das Letras. “Claro que Raduan poderia dizer o que bem entendesse, mas seria melhor deixar seu discurso por último. Também não posso aprovar a reação da plateia, que interrompeu um discurso.”

Ao fim do evento, Helena Severo lamentou que a cerimônia tenha sido “desvirtuada”. “Vim aqui para entregar um prêmio literário para um grande escritor. Essa cerimônia foi desvirtuada. Luta política é uma coisa, a outra é transformar este momento num momento de exacerbação. A condução desse processo, gritando e interrompendo o ministro, foi descabido. Não foi razoável.”

No meio de tudo isso, Raduan Nassar deixou o local depois de muitos abraços, beijos, selfies e autógrafos, além de um diploma que representa o prêmio de 100 mil euros, valor arcado igualmente pelos governos brasileiro e português. Roberto Freire, depois de tomar uma água e distribuir abraços, deixou o local antes do fim da festa.

 

 

Saiba mais

Prêmio Camões de Literatura

 

Instituído em 1988, o Prêmio Camões de Literatura é dado anualmente a um escritor de língua portuguesa que, pelo conjunto da obra, tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural dos países lusófonos. O prêmio, no valor de 100 mil euros (R$ 329 mil na cotação de ontem), é concedido pelos governos do Brasil e de Portugal. Raduan Nassar é o 12º escritor brasileiro a receber o Prêmio Camões. Antes dele, foram escolhidos Alberto da Costa e Silva, Dalton Trevisan, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Autran Dourado, Antonio Cândido, Jorge Amado, Rachel de Queiroz es João Cabral de Melo Neto.


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