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Estado de Minas

Pais do diretor afastado do Dnit chefiavam organização investigada pela PF

O diretor afastado do Dnit, Luiz Antonio Pagot e o senador Blairo Maggi trazem no DNA os traços de uma amizade suspeita de ilegalidades que incluem roubo de terras, uso de jagunços e até tráfico de drogas


postado em 17/07/2011 07:33 / atualizado em 17/07/2011 07:36

Brasília – No início da década de 1970, o Serviço de Informação da Polícia Federal demonstrava preocupação com o avanço de um grupo criminoso no Oeste do Paraná. Mais precisamente, em São Miguel do Iguaçu, a poucos quilômetros de Foz do Iguaçu. A organização roubava terras de pequenos agricultores, comprava vereadores e tinha envolvimento com o tráfico de drogas.

Documentos obtidos com exclusividade pelo Estado de Minas revelam que a relação entre o senador Blairo Maggi (PR-MT) e o diretor afastado do Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit) é de longa data. É hereditária. O grupo temido pela PF era capitaneado por André Maggi, pai do parlamentar, e pelo ex-prefeito da cidade Ferdinando Felice Pagot, pai do funcionário do Dnit que protagonizou a crise instalada nas ultimas semanas no Ministério dos Transportes.

“O grupo Maggi é formado por capitalistas que continuam fazendo reuniões secretas onde são vinculados (sic) que os mesmos já dispõem de 800 mil cruzeiros para comprar oito vereadores através do voto, pois um já é deles, João Batista de Lima, que é despachante do Detran e foi eleito anteriormente usando documentos do Detran e outras promessas”, revelam os despachos dos agentes do serviço de informação, que acompanharam de perto a rotina dos políticos e dos empresários da cidade entre 1969 e 1979.

Os documentos narram ainda a aprovação de uma lei na Câmara de São Miguel do Iguaçu em março de 1976, com a finalidade de atualizar o sistema tributário do município. Os únicos beneficiários seriam André Maggi, Arlindo Cavalca, Ferdinando Felice e mais seis moradores. Cavalca é fundador da empreiteira Cavalca, que aumentou em mais de 1.000% o valor dos contratos com o Dnit entre 2009 e 2010, conforme revelou o Estado de Minas.

Segundo a PF, a organização era composta por membros do extinto PTB gaúcho e contava com a colaboração do vereador eleito João Batista de Lima. “Há fontes que dizem que João Batista participa de reuniões secretas realizadas na casa de Ferdinado Felice Pagot e Andre Antonio Maggi”, dizem os agentes, completando que o parlamentar recebia propina. “Esse dinheiro é para derrubar projetos que o prefeito apresentar à Câmara e tentar comprar votos dos demais vereadores.” Os agentes reforçam, ainda, ligações de Batista com o trafico de drogas.

Mandante de jagunços A informação nº 00229 de 1977 define o pai de Blairo Maggi como um elemento político integrante dos ex-partidos PTB e PSD, vereador pelo PTB, juntamente com Francisco Kontorski e Arlindo Morse Cavalca. Durante as atividades em uma serraria, logo que chegou à cidade, contratou o serviço de jagunços. “Conseguiu ficar rico e ludibriar tomando as terras do cidadão Joes Fabris”. Em 1963, teria procurado um falsário, pegado dinheiro falso e distribuído na Argentina. No ano seguinte, chegou a ser preso depois de tomar as terras de algumas famílias, chegando até a mandar incendiar a casa de uma delas.

Já Ferdinando Felice Pagot, ex-prefeito, é tido como agitador político. Depois de pedir o afastamento da Arena, comandou adeptos contrários ao partido. Sempre em beneficio próprio e do grupo de amigos, Maggi e Pagot têm origem no Rio Grande do Sul, mas ambos participaram do processo de interiorização e migraram para o Oeste do Parana. André Maggi chegou com os filhos — Blairo ainda bebê — sem dinheiro. Foi eleito vereador e logo presidente da Câmara Municipal. O segundo prefeito da cidade foi seu primo, Nadir Maggi. Durante o regime militar, André ocupou a direção da Arena. Nessa época, Pagot tinha sido nomeado interventor do município, durante o AI-5. São Miguel do Iguaçu localizava-se em área de segurança nacional e Maggi participava de todas as reuniões do prefeito com os militares. Ao longo dos anos, André seguiu para Rondonópolis, no Mato Grosso, e começou a expandir os negócios com a soja. Pagot e Batista sempre o acompanharam. O vereador tornou-se um dos funcionários de confiança no grupo de empresas Maggi.

A relação entre os filhos não foi diferente. Luiz Antonio Pagot foi secretário de governo de Blairo Maggi, coordenador de campanhas eleitorais e só conseguiu o cargo de diretor geral do Dnit pelo apoio do amigo. Pagot chegou a ingressar na carreira militar, mas pediu desligamento em 1982. Segundo a Marinha, ingressou no curso básico em 1975 e foi nomeado ao posto de segundo-tenente. Pagot serviu no contratorpedeiro Maranhão e no Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão. A Marinha nega que ele tenha atuado em órgãos de repressão ou no serviço de inteligência, o Cenimar.

Memória
Ato para legitimar as arbitrariedades
O AI-5 foi o ato institucional mais famoso do Regime Militar (1964-1985) e também o mais duro. Baixado no final do “ano que não acabou”, em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, vigorou até dezembro de 1978, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que eram considerados inimigos do governo. Autorizava o presidente da Repúblia até a fechar o Congresso Nacional e intervir em estados e municípios. Foi durante o AI-5 que o pai do ex-funcionário do DNIT Luiz Antonio Pagot, Ferdinando Felice Pagot, foi nomeado interventor do município paranaense de São Miguel do Iguaçu, o que comprova suas boas relações com os militares, apesar das investigações.


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