(none) || (none)
UAI
Publicidade

Estado de Minas PENSAR

Primeira leitura: 'Poemas', de Paulo Mendes Campos


13/01/2023 04:00 - atualizado 12/01/2023 23:26

Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos
Estabelecida pelo próprio Paulo Mendes Campos, a organização de "Poemas" traz uma ordenação própria, que não tem como critério o eixo cronológico, mas uma dinâmica de aglutinação dos livros em seçõe (foto: DIVULGAÇÃO)


“Retorno a Belo Horizonte”

I
Sinto que posso viver em qualquer parte. 
É sempre uma história. 
O tempo impregna os telhados como a própria noite. 
Ou a morte dentro dos ossos nostálgicos. 
O vento esflora os lirismos parados. 
Vem dos lagos ingênuos 
Uma razão de plantas maceradas. 

Às vezes não se pode nem tocar na alma. 
Ignoro a minha dor. 
Está morta. 
Sozinho na praça, 
perturbo o trânsito dos ventos. 
As palmeiras me enlaçam. 
Eu te compreendo, 
Mas volto intacto, 
Quase indiferente. 
Quase indiferente… 
Tuas serranias tão tristes. 
Ao teu amavio, meu corpo se fecha 
Como um teatro infinito. 

Quando já é de madrugada, 
eu digo ao meu amigo: “Já é de madrugada…”. 
Vamos beber ternura de fonte fresca. 
Me compreendes, cidade, 
transfiguras minha poesia, 
meu jeito de aceitar as coisas da morte,
A morte das coisas. 

Talvez nem estejas dormindo
Me espiando na brancura do casario, 
Talvez nem seja a madrugada, 
Apenas minha alma que profetiza. 
Dorme. És minha, 
Quase uma praia. 

II
Exala-se dos lajedos um bando de insetos, 
Confidências pululantes. 
Há um tropel de morte nas pedras, 
O eco multiplicado cem vezes de meus passos. 
São sempre as mesmas pedras, duras e inexplicáveis. 

Debruço-me sobre algumas ruas 
E é como se meus lábios tocassem um muro que separa, 
As horas mortas rolam nas calçadas,
do bojo das árvores. 

Desfolham-se gritos maduros, 
Meus ossos cresceram, ficaram mais tristes 
Empapados de morte. 

Vou andando. 
Não denuncio nada: vou andando. 
Ninguém descobre nada: vou andando. 
Bastam-me os pés para timbrar um destino: vou andando. 
Impávidas pedras, hei de pisar-vos impávido, 
firme e raivoso como se andasse para a morte. 

III 
A praça da Liberdade tem palmeiras incorruptíveis 
Mas debaixo rasteja um tento da terra. O vento é meu. 
Ele vem do alto do Cruzeiro, onde minha infância respirou o cheiro 
                                                                                                                                [forte 
Dos pinheiros e vai acabar no Acaba Mundo que eu conheço bem. 
Recolho cântaros partidos, ainda vivos de uma vida antiga. 
Aqui nascem os poetas. Nascem aqui os pianos da madrugada, 
Ocultos entre a folhagem e uma ciranda de sombra. 
Todas as emoções são exprimíveis. Não há verso preso na garganta
Que não tenha sua Jerusalém triunfal.

IV 
Meus pés sabem andar, meus pés conhecem os caminhos da vida 
Mas agora, transeuntes da névoa, estão voltando, voltando. 
As pegadas se desmancham num chão irreal de muitos anos. 
Algumas noites ficaram. Algumas auroras ficaram. Ficaram algumas
                                                                                                                                    [tardes, 
Perfeitas no cuidado de eternizar uma lembrança, ficaram
Certas janelas  (de onde como outrora não surge uma visão
                                                                                                                                [candente), 
Ficaram ângulos afetuosos, ficaram fábulas de amanhecer, ficaram
Alguns portos de mar em minh’alma, de onde nunca pude partir. 
Do alto desses cais meus pés balouçam quiméricos sobre a flor das
                                                                                                                                  [águas. 
Neste momento, o coração é o próprio tempo, encharcado de
                                                                                                                                  [presságios

E não sei se devo alongar sobre estas pedras as raízes do meu corpo 
Para crescer entre as coisas que fui, 
Devo cavar com as unhas, devo cortar meus lábios no lajedo, 
Devo arranhar os muros verdes da serra, devo bater com o punho
                                                                                            [no bronze de todas as horas,
Porque nesta cidade estou sepultado, ó lágrima, 
E sob estes caminhos meu coração palpita. 

“Poema a Otto Lara Resende ou 
Vinte e três agostos no coração”


O segredo não se revela. 
Teu mistério é um verso difícil
caminhando da infância para os descampados. 
És irmão do esmalte, feito de aurora, 
de imponderável
desesperança sobre a cara das coisas. 
Tua comoção policiada esconde
as lutas do tempo, as insônias, 
as ruas desenganadas, o sol de estio 
sobre laranjais proibidos do colegial. 

Possuo o passaporte do infinito: 
uma rosa, um canto, uma pintura, 
tanto faz: inaugurar o mundo. 
E tudo é abismo, e tudo é tarde 
e sobre tudo cai a cinza dos poemas. 
Mas a solidão não tem sentido.  Sabes
que na lucidez da madrugada 
um amigo te entende e outro te chama 
e um quer te ajudar
e o outro te convida para a jornada 
e quer mostrar-te a pedreira de mil faces, 
e todos querem saber de ti, da tua bruma, 
das visões inenarráveis do melancólico. 

Nem tudo é proibido como as alegrias. 
Além delas, certas coisas valem a pena: 
compor o soneto da meninice, 
vagar de pijama por um pasto molhado, 
voltar a certos lugares, ver
como mergulham as gaivotas, 
aprender a malícia do mar, 
contar o tombo no pátio, a fuga do padre, 
providenciar a viagem, o espetáculo,
o baile de amanhã, o encontro das sete, 
perceber de repente
que a vida foi mais amada do que pensávamos. 
Certos ritmos são definitivos
e exigem resposta. 
Quando falta o ritmo, 
nos sobra mais humanidade 
(e a gente sorri). 
Depois, 
existe o amigo morto, comum, 
existem amigos repartidos no tempo, 
nas cidades,
a estranheza de cada um,
(doce de recordar),
existe entre rosas e confidências, na ilha —
e não sabemos seu nome. 
Às vezes, preciso de ti, demais. 
Certas ideias, certas emoções,
certas sutilezas de céu exigem tua presença. 
E, então, envenenado, me apontam nos bares,
nas ruas, como o pensativo, o triste, 
o inconsolado. Mas é de ti que preciso. 
Sem ti, não há história,
os olhos represam as palavras, me denunciam, 
e a vida em mim regressa ao silêncio. 
Te conheço pouco. As horas não contam.
Há gestos imemoriais em ti, há um jardim
debaixo da terra, lírios sufocados
e tudo às vezes é de prata como um rio, 
como palmeiras sob a lua. 

Mas onde escondes teu soluço? 
Tens um soluço, eu sei,
tens milhões de lágrimas, eu sei. 
Talvez, na escada escura 
conduzindo à capela. 
Nos passos do pai impedindo o sono? 
Nos cabelos da menina à luz da fresta? 

Não sei, não sou Augusto,
não sei nada, 
e apenas quisera, 
mas o mundo não se desvenda como um palco de Deus, adeus. 

livro Poesia

Poesia

.Paulo Mendes Campos
.Companhia das Letras
.512 páginas
.R$ 119,90 (edição impressa)  
.E-book: R$ 44,90

Sobre o livro

Os versos ao lado fazem parte da nova edição de “Poemas”, do escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991), recém-lançada pela Companhia das Letras. “O presente volume preserva a estrutura da segunda edição de ‘Poemas’ (Civilização Brasileira, 1984). Estabelecida pelo próprio autor, a organização traz uma ordenação própria, que não tem como critério o eixo cronológico, mas uma dinâmica de aglutinação dos livros em seções. A edição, portanto, não inicia com o livro de estreia, ‘A palavra escrita’ (1951), e sim com os dois livros até aquele momento inéditos: ‘Balada de amor perfeito’ e ‘Arquitetura’, ambos de 1979. A palavra escrita, assim, passa a ser incorporado ao bloco ‘O domingo azul do mar’, de 1958. ‘Poesia’ inclui ainda ‘Testamento do Brasil’ (1966) e dez poemas de ‘Trinca de copas ‘(1984), corrigidos a partir do cotejo com o datiloscrito do autor”, informa o prefácio da nova edição. “Além da poesia editada em livro, este volume colige poemas recolhidos em veículos variados (jornais, revistas, coletâneas com diversos autores) e nos documentos do poeta, selecionados pelo pesquisador Luciano Rosa”, acrescenta. A nova edição, com posfácio de Luciano Rosa, inclui ainda uma seção de poemas traduzidos por Mendes Campos.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade

(none) || (none)