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Estado de Minas

Memórias em transmissão

Em artigo, curadores da Mostra de Ouro Preto reforçam a relevância e a diversidade da produção audiovisual dos povos indígenas do Brasil


17/06/2022 04:00 - atualizado 16/06/2022 23:39

Cleber Eduardo* e Leonardo Sabanay** 
Especial para o EM
 
A produção audiovisual dos povos indígenas no Brasil já passa de duas décadas, desde suas primeiras experiências, mas, ao contrário do início, não tem tantas codireções de pessoas não indígenas. Também tem experimentado recepções cada vez mais amplas de suas singularidades formais, deixando paulatinamente de ser vista somente pelo valor cultural para também ser reconhecida por suas elaborações cinematográficas. Tanto essa maior independência de mediações não indígenas nas equipes de criação quanto a ultrapassagem das fronteiras dos visionamentos são as linhas guias da programação da 17ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, sob o título “Cinemas indígenas: memórias em transição”. 
 
 Filme Bicicletas de Nhaderu Direcao de Kuaray Poty (Ariel Ortega), Para Yxapy (Patricia Ferreira)
(foto: Divulgação)
 
Na cada vez mais numerosa a produção de diferentes povos (iniciados no audiovisual entre o fim da década de 90 e diferentes momentos do século 21), é notável não apenas a distância entre as especificidades dos modos de vida das comunidades, mas também as distintas formas de empregar a câmera por diferentes grupos, coletivos e cineastas, que optam por uma variedade grande de ritmos e de aproximações com seus universos mais diretos ou correlatos, impedindo qualquer tentativa vaga e genérica de se tomarem algumas características recorrentes como de uma essência indígena no cinema. 

A programação abrange 35 filmes entre curtas, médias e longas-metragens (realizações de 17 povos originários entre 2002 e 2021), encontros com reflexões sobre as formações, sobre a relação com professores não indígenas nos primeiros contatos com as câmeras, sobre processos de criação e, como premissa geral, sobre a relação política e educativa com o cinema, tomado como ponte para o futuro. A volumosa e variada produção audiovisual indígena das últimas duas décadas enfatiza de modo recorrente no centro de seu conjunto a transmissão das memórias das lutas pela terra de direito, pelos territórios dos ancestrais, pela manutenção e pelo resgate de rituais ameaçados pela vida contemporânea, pela preservação de narrativas espirituais e míticas em que humanos, plantas e animais são indissociáveis. 

São recorrentes em alguns filmes situações consideradas desafiantes e ameaçadoras pelas lideranças das aldeias, como a necessidade de fortalecer as tradições culturais, a espiritualidade e a identidade dos povos, enfraquecidas pelo convívio com a cultura do consumo nas cidades, a denúncia das explorações e implicações da relação com o dinheiro e com o trabalho para não indígenas, as invasões e os assassinatos pelos grupos de exploração econômica das florestas e a diminuição das reservas, da caça, das áreas de roça e das plantas. Há um constante esforço pela afirmação e reconhecimento de uma existência como indígenas, em seus modos, em suas cosmologias, em seus ritos e mitos, tendo o corpo e a oralidade como materialidades estruturantes e virtualizadas pela presença em forma audiovisual.
 
Tava, a casa de pedra. Direção: Pará Yxapy (Patricia Ferreira), Kuaray Poty (Ariel Ortega), Ernesto de Carvlho, Vincent Carelli
(foto: Divulgação)
 
O contexto histórico e de anos recentes explicitados ou implícitos nessa produção é banhado em doenças, violências, mortes, remoções, corrupções, arbitrariedades, reivindicações, derrotas, lutos e resistências com apoio do mundo espiritual e dos corpos empunhando arcos, flechas, espingardas e câmeras, sobretudo câmeras. O percentual de indígenas assassinados no Brasil saltou 22% ao longo de uma década (2009 a 2019), com 2.074 vidas interrompidas à força (18,3 mortes para cada 100 mil habitantes), segundo os dados do “Atlas da violência 2021”, produzido pelo Instituto de Economia Aplicada (Ipea), que pela primeira vez incluiu a população indígena em sua pesquisa. No mesmo período, a taxa de homicídios no país caiu 20%. As invasões predatórias de terras indígenas aumentaram 137% em 2020 em relação a 2018, atingindo 201 terras indígenas e 145 povos em 19 estados.

O Brasil tinha em 2010, segundo dados do IBGE, 254 povos, falantes de 160 línguas, somando quase 900 mil indígenas autodeclarados (325 mil em zonas urbanas e 572 mil em zonas rurais). O total corresponde a 0,47% da população brasileira. Vinte e seis povos têm população inferior a 100 pessoas. Em levantamento emergencial de 2021 do IBGE, que combinou os dados de 2010 com a versão atualizada de Base Territorial como parte dos preparativos para o Censo 2022, foi estimado um total de 1,109 milhão de indígenas, um crescimento superior a 20% nos últimos 11 anos. 
 
NOSSOS ESPÍRITOS SEGUEM CHEGANDO %u2013 NHE%u2019E KUERY JOGUERU TERI Direção: Kuaray Poty (Ariel Ortega), Bruno Huyer
(foto: Divulgação)
 

Existir, resistir, preservar e transformar


O cinema desses povos é um cinema de minorias resistentes e antigas, em constantes mudanças e sob permanentes ameaças, com uma luta inacabável para existir, resistir, preservar e transformar. O cinema é um rito transtemporal do passado, resgatado pelo presente diante da câmera e rumo ao futuro de um espectador, em algum lugar e em algum tempo adiante na cronologia. Essas transmissões como memórias a serem cultivadas para as novas gerações de indígenas e para olhares não indígenas dentro e fora do país abrangem quase todos os gestos cinematográficos em exibição: reações diretas dos povos contra seus invasores e agressores como estratégias de sobrevivências, as encenações de mitos e rituais em que os espíritos são chamados e incorporados, ações de restauro do solo para desenvolvimento de roças, a paradoxal relação com as religiões não indígenas, os projetos de emancipação econômica, o artesanato como continuidade da tradição e sobrevivência econômica. 
 
MBYA REMBIAPÓ NHEMOMBE%u2019U %u2013 ARTE MBYA-GUARANI E SUAS HISTORIAS Direcao: Kuaray Poty (Ariel Ortega)
(foto: Divulgação)
 
Diante desses filmes em que nem tudo é visível, em que segredos são mantidos e situações sagradas são deixadas fora da imagem, é também importante respeitar seus mistérios, seus interditos, suas organizações livres, coreográficas, ritualísticas e às vezes aparentemente dispersas, recusando em muitos trabalhos os esquematismos de uma montagem calcada em estruturas que reverberam e encadeiam fragmentos sobre outros fragmentos. A força das presenças diante da câmera talvez importe mais que a organização de sentidos em cada bloco de movimento e de palavras. Manuela Carneiro da Cunha nos lembra do aviso de Levi Strauss (a ordem é uma ilhota em um mar de caos) e do conselho de uma amiga (não tente provar demais). É também não menos importante neste sentido considerar que, apesar de montadoras e montadores não indígenas em muitos filmes, apesar de um empenho dessas montagens em organizar o material segundo alguns preceitos ocidentais, essa convivência intercultural na realização não submete cineastas indígenas a técnicos não indígenas, mas estimula esses cineastas a progressivamente se emanciparem da mediação não indígena por meio de olhares próprios e hibridizados, que se apropriam da tecnologia ocidental para empoderar em suas lutas.

* Cleber Eduardo é curador da temática histórica da 17ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. 
** Leonardo Sabanay é assistente de curadoria da mostra histórica  


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