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Estado de Minas LITERATURA

Editora José Olympio celebra 90 anos com relançamentos da coleção Rubáiyát

Relançamentos de três volumes da célebre coleção contam com traduções de Lúcio Cardoso e reprodução de projeto gráfico dos anos 1940


22/04/2022 04:00 - atualizado 22/04/2022 08:01

Capa de livros
O livro de Job, O vento da noite e A ronda das estações (foto: Divulgação/Record)
Festejando seus 90 anos, a editora José Olympio, agora do grupo Record, acaba de relançar três volumes da Coleção Rubáiyát. É provável que não a conheça quem tem idade inferior a 50 anos. Trata-se de um dos mais duradouros projetos editoriais brasileiros, que se estendeu de 1938 a 1961, com 46 títulos publicados. Para quem se interessar, a história da coleção está contada por Denise Bottmann, em seu blog “não gosto de plágio”, de que recorto só o essencial.

Em 1938, abrindo a série então batizada como “Poemas orientais”, é publicado “Rubáiyát”, do poeta persa Omar Kayyam, em tradução de Octavio Tarquínio de Sousa. Seguem-se seis volumes, vertidos, dentre outros, por Adalgisa Nery, Guilherme de Almeida e Abgar Renault, um time de tradutores de peso, que continua a ser a marca da coleção, cujo nome, a partir do oitavo volume, passa a ser “Rubáiyát”. Agregam-se novos colaboradores, como Aurélio Buarque de Holanda, Luís Jardim e Manuel Bandeira, além de Lúcio Cardoso. E mantém-se o capricho das edições ilustradas, em formato elegante, com destaque para a vinheta da capa, da autoria do renomado artista gráfico Santa Rosa.

É significativo que os três volumes relançados agora, na forma original, sejam os traduzidos por Lúcio Cardoso: “O livro de Job” (publicado em 1943), “A ronda das estações”, de Kalidasa, e “O vento da noite”, de Emily Brontë (ambos de 1944). Trata-se, portanto, de homenagem também a Lúcio, do qual a José Olympio publicou romances e novelas, além de seus dois volumes de poesia, mais a tradução de grandes obras como “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen, e “Ana Karênina”, de Tolstói. Celebrado pela obra-prima “Crônica da casa assassinada”, romance lançado em 1959, Lúcio escreveu novelas, poesia, teatro e roteiros de cinema antes de ser acometido por um derrame que lhe paralisou o lado direito. Até sua morte, em 1968, com a mão esquerda dedicou-se à pintura.

Das três traduções relançadas, “O vento da noite” mereceu estudo de Denise Bottman. Ela mostra como Lúcio Cardoso domina e pratica o que ele próprio chama de “tradução livre”, que não é “transfusão, transcriação, recriação”, mas uma sorte de “diálogo, às vezes talvez áspero”, ou “irmanamento, às vezes talvez conflituoso”, na linha do que faz também Ana Cristina César, que “imergia na palavra do outro e dali reaflorava trazendo sua própria palavra”. Para a edição brasileira, Lúcio selecionou e traduziu 33 poemas da autora de “O morro dos ventos uivantes”, alguns deles publicados sob o pseudônimo Ellis Bell.  

De “O livro de Job” (considerado por muitos teólogos o primeiro escrito bíblico) e “A ronda das estações” não conheço análises, embora sejam merecidas, por duas razões. A primeira, porque, como afirma Sylvie le Bon de Beauvoir, muito se pode saber sobre um escritor no que ele escreve por encomenda. Se escrever é sempre um desafio, escrever escolhendo tema, gênero e público não deixa de ser um desafio confortável. O que faz uma encomenda é justamente tirar o escritor de sua zona de conforto, propondo-lhe assuntos e leitores diferentes. A isso se soma a segunda razão: traduzir envolve um encontro íntimo e radical com o outro, de que resultam, como é o caso de Lúcio, trabalhos originais em seu descentramento. Daí porque as traduções devem ser sempre consideradas parte da obra de escritores que traduzem.

Tudo leva a crer que os três volumes foram produzidos quase simultaneamente, pois em “O livro de Job” (impresso, segundo o colofão, em novembro de 1942) já se arrola, dentre as obras de Lucio Cardoso, “A ronda das estações” (cuja impressão só foi concluída em agosto de 1944), constando deste, por sua vez, “O vento da noite”. É razoável, portanto, que se tomem os três volumes como exercícios de tradução poética cuja importância cresce pelo fato de estarem enfeixados pelo aparecimento dos dois volumes de poesia do próprio autor.

“O livro de Job”, inclusive pelas ilustrações, e os poemas de “O vento da noite” não parecem afastados da temática e estilo de Lúcio Cardoso, caracterizados, nos termos de Ruth Silviano Brandão, “pela força extraordinária de uma palavra excessiva, que não se detém diante dos limites abissais entre a vida e a morte”. O mesmo não se dirá, contudo, de “A ronda das estações”. Kalidasa, poeta indiano que teria vivido no século sexto de nossa era, transmite em seu livro uma visão de mundo que se poderia dizer apaziguada, na conjunção ecológica entre o ritmo das temporadas e os impulsos eróticos.

Primeira constatação: o foco da ronda está no amor. Segunda constatação – e surpresa: as estações não são quatro, mas seis, pois entre verão e outono se inclui a “estação das chuvas”, bem como entre inverno e primavera, a “estação dos orvalhos”. Que se trata de uma ronda fica claro desde o início. Abrindo-se o volume com o verão, já se fala de cíclico retorno: “Ei-la de volta, ó minha bem-amada, a estação dos calores”. E desde logo se celebra o nexo entre natureza e erotismo, pois é no verão que há “estes deliciosos fins de dia, no ardor apaziguado do amor”.

Lúcio Cardoso partiu da versão para o francês de E. Steinilber, publicada em 1925, em Paris, pela editora de arte H. Piazza, de que a Coleção Rubáiyát reproduz inclusive as vinhetas. Ainda que o original sânscrito seja em versos, opta-se por uma apresentação das estrofes numa espécie de prosa poética, a escansão rítmica sendo dada por singelos trevos em cor vermelha. Não falta a exuberância do imaginário hindu, como a propósito da estação das chuvas: “Como o elefante no cio, * as nuvens avançam, enormes e pejadas de chuvas; * avançam como reis no meio de seus exércitos tumultuosos”. Não falta também a delicadeza dos segredos da alcova, agora na primavera: “E quando os amantes acalmados, vencidos, * repousam junto às amantes nuas, * estas, ainda sacudidas pelo espasmo, * já estremecem ao ímpeto de novos desejos!”

Enfim, resta ao leitor comemorar que estes três livros deixem a poeira dos sebos para retomar seu espaço nas livrarias e em nossas leituras. Como escreveu Clarice Lispector em 1969, o que sem dúvida vale também para hoje (e quanto vale!): “Lúcio, estou com saudades de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope”.

* Integrante da Academia Mineira de Letras, o escritor e tradutor Jacyntho Lins Brandão é professor titular de língua e literatura grega da Faculdade de Letras da UFMG

Reedições de Graciliano, John Fante e Alice Walker


Além do lançamento de três títulos da Coleção Rubáiyát em versões fac-símile com a reconstituição dos projetos gráficos originais, o grupo editorial Record comemora o 90º aniversário da tradicional Editora José Olympio com a reedição de títulos essenciais da literatura brasileira, como “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Viagem”, de Graciliano Ramos. As capas originais, assinadas por Tomás Santa Rosa e Quirino Campofiorito, foram reproduzidas, bem como a composição do “miolo”. Ainda pela José Olympio, chega às livrarias uma edição especial em capa dura de “Pergunte ao pó”, de John Fante, com tradução de Roberto Muggiati e prefácio inédito de Claudio Willer, e, também em capa dura, uma edição comemorativa dos 40 anos do lançamento de “A cor púrpura”, de Alice Walker, com prefácio da autora e textos de Stephanie Borges e Carla Akotirene.


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