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Estado de Minas BIOGRAFIA

Biografia mostra a vida de aventuras e tragédias de Euclides da Cunha

Passagens pouco conhecidas, com o racismo em 'Os sertões' e expedição à Amazônia são detalhadas pelo historiador Luís Cláudio Villafañe G. Santos


02/07/2021 04:00 - atualizado 02/07/2021 18:19

“Ao descer do trem, perguntou pelo endereço que lhe haviam indicado. Ali pernoitara sua mulher. Deixou o guarda-chuva e a capa pendurados no portão do jardim da casa (…) Convidado por Dinorá [irmão de Dilermando], Euclides entrou na casa [com a arma oculta no bolso] e, depois de discutir brevemente com ele, invadiu o quarto de Dilermando chutando a porta e já de arma em punho. Atirou contra o amante da mulher e depois contra Dinorá, que tentara intervir. Dilermando, mesmo ferido com dois disparos, alcançou seu revólver e reagiu. Após dois tiros de advertência, feriu o agressor com dois disparos, um deles no pulso. Sem poder continuar o duelo, Euclides tentou fugir, perseguido pelo cadete, que lhe desferiu um último tiro quando ele já estava do lado de fora, descendo a escada que dava para o jardim. Ainda agonizante, foi carregado de volta para dentro da casa. O escritor Euclides da Cunha faleceu em seguida. A morte do autor de 'Os sertões', nas difíceis circunstâncias em que se deu, tornou-se um dos grandes escândalos da Primeira República e foi explorada à exaustão, por semanas a fio, pelos jornais.”
 
(foto: Quinho)
(foto: Quinho)
 
Terminaram assim os dias do já célebre escritor Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, com apenas 43 anos, numa manhã nublada de domingo, 15 de agosto de 1909, no Bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, no relato do historiador e diplomata Luís Cláudio Villafañe G. Santos, em “Euclides da Cunha – Uma biografia”. O escritor já sabia, havia pelo menos três anos, do romance de sua mulher, Ana Emília Ribeiro da Cunha, então com 37 anos, com o  cadete Dilermando de Assis, de 21, a quem ela havia conhecido quando morou numa pensão durante uma das muitas ausências de viagem do escritor.

Ana e Dilermando tiveram dois filhos, cuja paternidade foi assumida por Euclides, que também havia tido quatro filhos com a mulher. Naquele domingo, entretanto, após nova insistência de Ana em desfazer o casamento e a evidência de que ela passara a noite na casa do cadete e não pretendia mais voltar para o mesmo teto de Euclides. De temperamento explosivo, o escritor decidiu, então, matar o amante e, possivelmente, Ana, mas acabou perdendo a própria vida. E, mesmo após sua morte, a tragédia assolou a família. Em 4 de julho de 1916, o aspirante Euclides da Cunha Filho tentou vingar a morte do pai e também acabou morto. Dilermando foi absolvido nos dois casos por legítima defesa.

Com a saúde frágil, comprometida por uma tuberculose crônica, Euclides teve uma vida de glórias e tragédias pessoais e coletivas. A infância, que começou em Cantagalo (RJ), foi errante entre parentes, porque sua mãe morreu quando ele tinha 3 anos e seu pai não o criou. Foi militar, cientista, cartógrafo, jornalista, escritor e engenheiro, construiu fortificações militares e pontes. “Os sertões”, sua principal obra, ainda hoje é objeto de estudos por suas dimensões históricas, jornalísticas e cartográficas.

Teve vida intensa e aventurosa num dos períodos mais conturbados da história do Brasil – a última década do século 19, marcada pelos primeiros anos da República, e a primeira do século 20 – entre golpe e tentativas de golpe de Estado, revoltas diversas, a renúncia de um presidente e um atentado contra outro. Conviveu com os políticos mais influentes da época, como os presidentes-marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto e também com o Barão do Rio Branco, que teve influência importante em sua vida.

AVENTURA NA FLORESTA

Um diferencial da biografia escrita por Villafañe é apresentar ao leitor uma face pouco conhecida de Euclides, abafada por “Os sertões” e pela trágica morte. Caso do seu trabalho no Itamaraty e da expedição, em 1904-1905, que ele comandou à região do Alto Purus, no coração da Amazônia, para definir a demarcação de fronteira disputada entre Brasil e Peru. Ele chegou à nascente do Rio Purus como chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus.

Além da animosidade de indígenas, seringueiros e de peruanos, ataques de insetos e animais selvagens, Euclides contraiu malária, o que debilitou mais ainda sua saúde já afetada pela tuberculose. Ele queria escrever um livro sobre a aventura na Amazônia, chamado “Um paraíso perdido”, mas não viveu para tanto.

“Do ponto de vista biográfico, causa espanto o desconhecimento quase absoluto sobre o pouco mais de um ano que Euclides passou na Amazônia, em contraste com a grande atenção dada aos menos de três meses passados na Bahia e ao par de semanas em que esteve na frente de batalha durante a quarta expedição a Belo Monte [Canudos]. Do mesmo modo, os anos em que desempenhou diversas atividades no Itamaraty são eclipsados pela narrativa dos fatos e circunstâncias de sua morte”, observa Villafañe.

Além de “Os sertões”, Euclides da Cunha deixou obras importantes, como “Como contrastes e confrontos” (um retrato dos primeiros anos da República e o descaso com as questões sociais que ainda hoje assolam o país) e o póstumo “À margem da história” (o paradoxo entre a exuberância do Brasil amazônico e a exploração do povo).

“Euclides é um personagem extremamente rico e, como todos nós, muitas vezes contraditório. Foi autor de uma obra literária e jornalística excepcional e viveu uma vida interessantíssima, com grandes acertos e vitórias e também erros e quedas. Ler sobre ele e sua vida, ademais, é abrir uma grande janela para o Brasil do fim do século 19 e o início do seguinte”, afirma Villafañe em entrevista ao Pensar. Sem diminuir a importância de Euclides para a história do Brasil, o autor mostra também os muitos equívocos cometidos pelo escritor. Talvez o maior tenha sido embarcar na histeria coletiva, movida por interesses políticos, de que a revolta de Antônio Conselheiro no povoado de Belo Monte, no interior da Bahia, em 1897, conhecida historicamente como Guerra de Canudos, seria tentativa de restaurar a monarquia no país.

A contextualização histórica, inclusive, é o maior mérito da obra de Villafañe, que traça uma biografia com texto fluido e de fácil assimilação, sem excesso de academicismo que costuma espantar leitores. Mostra como, oito anos depois do golpe militar que derrubou dom Pedro II, o fantasma da volta da monarquia levou a população brasileira a acreditar que Conselheiro e os sertanejos queriam derrubar a República e estariam até recebendo ajuda externa. Tal comoção, insuflada pelos republicanos, pelas elites e pela imprensa, causou um dos maiores massacres injustificados da história do Brasil, com o extermínio de mais de 20 mil homens, mulheres e crianças. Os prisioneiros rendidos, por exemplo, foram degolados.

“A despeito do bom coração e do sentido de justiça, além da inegável inteligência e da capacidade de buscar informação, Euclides embarcou no clima irracional de confrontação entre 'eles' e 'nós' que transformou um paupérrimo arraial no interior do Bahia, fundado por Conselheiro, em ameaça à República e ao Brasil.” A desqualificação do outro transformou sertanejos em jagunços (…) inimigos a quem era necessário não apenas derrotar, mas exterminar”, ressalta Villafañe.

Euclides escrevia para o jornal O Estado de S.Paulo e alimentava essa visão equivocada. Só começou a desfazer essa ideia depois de ser enviado como correspondente ao conflito. E em “Os sertões”, publicado em 1902, cinco anos após o massacre, em seu chamado “livro vingador”, ele reconhece que nada tinha de monarquista a rebelião de Canudos. Era uma revolta contra a cobrança de impostos e a enorme desigualdade latifundiária e social do país. Mas se tratava-se de um crime sem criminosos.

Jamais haveria justiça para punir os exterminadores. Na obra, Euclides chega ase referir aos sertanejos como “sub-raça”, uma faceta do racismo determinista vigente na época. Diante da fúria do Exército contra o povoado, Villafañe indaga: “A pergunta a fazer, e que não está respondida adequadamente em 'Os sertões', é: como a polarização política e um clima de histeria e irracionalidade provocada intencionalmente puderam conduzir a um tal massacre, bárbaro e sem sentido”. É o perigo da “mistificação e irracionalidade qu existe nas paixões de cada momento histórico, inclusive deste em que vivemos”.
 
“EUCLIDES DA CUNHA UMA BIOGRAFIA”

De Luís Cláudio Villafañe G. Santos
Editora Todavia
432 páginas
R$ 89,90 (impresso)
R$ 49,90 (digital) 


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