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Estado de Minas POESIA

Faca do poema e lâmina da crítica no centenário de João Cabral de Melo Neto

Poeta pernambucano sempre convidou críticos de grande envergadura e capacidade analítica a visitarem seus textos


04/12/2020 04:00 - atualizado 04/12/2020 11:32

Secchin: tenaz e elegante disposição crítica(foto: Fernando Rabelo/Divulgação)
Secchin: tenaz e elegante disposição crítica (foto: Fernando Rabelo/Divulgação)
O ano de 2020 marca o centenário de um poeta incontornável quando se pensa na história da literatura em língua portuguesa no século 20: o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Pela produção poética, por assim dizer, sui generis no contexto brasileiro o percurso do poeta, que vai dos anos 1940 até a década de 1990, sempre convidou críticos de grande envergadura e capacidade analítica a visitarem os seus textos, em busca de ponderar o alcance e o quilate de sua poética dita “antilírica”. É nesses termos que Cabral, um autor de ideias fixas e obsessões, transformou-se, ele mesmo, na obsessão de alguns dos mais importantes críticos literários brasileiros.

Talvez o mais emblemático desses casos seja o de Antonio Carlos Secchin, que dedicou a João Cabral ao menos trinta e cinco anos de atenção crítica, em formato de ensaios, prefácios, estudos, entrevistas, palestras etc. Secchin é o responsável, com Edneia R. Ribeiro, pela organização de Poesia completa, recém-lançado pela Editora Alfaguara, com poemas inéditos do pernambucano. “A obra de João Cabral apresenta-se quase isolada em nosso panorama literário, por não existir uma linguagem ostensiva na qual ela possa se inscrever, à exceção, talvez, da dicção, todavia narrativa de um Graciliano Ramos”, aponta Secchin no prefácio. “Ele representa, na poesia em língua portuguesa, a mais consequente conjugação de uma prática poética simultaneamente aberta à comunicação e a um elevado grau de elaboração e consciência formal”, conclui, na introdução do volume que inclui todos os livros do pernambucano e um apêndice com poemas inéditos, cronologia e a bibliografia do autor.  
 
 Já em João Cabral de ponta a ponta, da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), há um conjunto abrangente e significativo de ensaios escritos por Secchin, que além de crítico literário é também poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, com foco central na obra do autor de Morte e vida severina. O resultado é um impressionante apanhado de mais de quinhentas páginas em que se vislumbra a proximidade do crítico com a obra cabralina e com o próprio poeta que, nas palavras de Secchin, “dizia apreciar meu trabalho crítico sobre sua poesia”. E, de fato, essa intimidade com a obra é reveladora da atração insistente que esta exerce sobre o seu olhar sensível, votado a uma decifração minuciosa e incansável. Como já indicado acima, a publicação, também comemorativa, torna patente um espelhamento de dois autores às voltas com suas obsessões: Cabral e sua disposição antilírica e Secchin com a sua hipótese de “poesia do menos”, traço central, para ele, da poética cabralina. 

João Cabral de ponta a ponta atesta isso ao oferecer ao leitor os ensaios produzidos por Secchin desde 1985 e já reunidos anteriormente em outros volumes: João Cabral: a poesia do menos (Duas Cidades, 1985), João Cabral: a poesia do menos e outros ensaios (Topbooks, 1999) e João Cabral: uma faca só lâmina (Cosac Naify, 2014). O conjunto agora editado pela Cepe além de resgatar os ensaios que compuseram as coletâneas anteriores, oferece aos interessados na obra cabralina um conjunto de inéditos que, embora pequeno, é certamente precioso.

Por um lado, esses inéditos valem pelo valor iconográfico evidente na reprodução de imagens com várias dedicatórias importantes, além de reproduções de capas e folhas de rosto de obras de Cabral, algumas delas bastante raras. Por outro, acrescenta à bibliografia crítica sobre o poeta: um ensaio inédito, “Drummond e Cabral: afagos & alfinetes”; uma importante entrevista de Cabral, concedida a Secchin em 1980; e a última palestra do poeta em ambiente universitário, ocorrida na Faculdade de Letras da UFRJ, em 1993. Todos são documentos que certamente acrescentam à composição da figura de Cabral neste seu centenário e não há dúvida de que alimentarão as abordagens que não cessam de se realizar acerca da obra do pernambucano.

A organização do livro facilita muito a percepção do obstinado trabalho de Secchin, sempre empenhado em decifrar João Cabral, tal como já dito, através do prisma do “poeta do menos”. Tanto a primeira parte do volume, que se dedica aos estudos de Secchin a respeito dos livros do poeta, ordenados em série cronológica, quanto a segunda parte, dedicada a ensaios de escopo mais geral, revelam um olhar crítico que persegue, nas malhas do texto cabralino, a testagem incansável de sua hipótese, de sua ideia fixa com relação ao que seja o âmago da poética do autor de O cão sem plumas. 

Para que se tenha uma ideia disso, vale recuperar a forma como o crítico caracteriza, na introdução de João Cabral de ponta a ponta, a poesia de Cabral: “Este livro procura interpretar a poesia de João Cabral de Melo Neto a partir da hipótese de que ela se constrói sob o prisma do menos. Com isso, queremos dizer que a criação de seus textos é deflagrada por uma ótica de desconfiança frente ao signo linguístico sempre visto como portador de um transbordamento de significado. Retirar do signo esse excesso é praticar o que denominamos a poesia do menos.”  Secchin defende, em sua abordagem, que, contrariamente ao que se verificou no movimento mais dominante da poesia brasileira, voltada a transbordamentos poéticos, sentimentais e ideológicos, a obstinação que deu tônus à poética de João Cabral foi a de desconfiança contra tudo que pudesse adicionar elementos à palavra, que, sob essa ótica, passa a ter força porque nega, desconfia, desbasta.

Tensões na estrutura

É esse princípio, por sua vez, a própria ideia fixa do crítico, que busca desenvolvê-la no confronto com a obra de João Cabral valendo-se de um refinado conjunto de materiais analíticos. Dessa tenaz e elegante disposição crítica de Secchin merece destaque a sua capacidade de leitura da poética, que considera, sobretudo, as tensões instituídas na própria estrutura do poema, as quais são manejadas com raríssima competência analítica que, por sua vez, é capaz de observar cuidadosamente os esquemas de métrica e rima, a construção das imagens e outros elementos constituidores da arquitetura poética.

Vale ressaltar ainda, como lição crítica do excelente leitor que é Secchin, que são os próprios poemas, ou os conjuntos de poemas, que interpelarão o analista, evidenciando quais são os modelos e atenções que devem ser mobilizados na interpretação. Enquanto qualificado leitor e hábil produtor de poesia, Secchin sabe que o crítico precisa respeitar, acima de tudo, o texto a ser lido, sem desejar impor a ele paradigmas teóricos ou ideológicos que lhe são alheios. O leitor de João Cabral de ponta a ponta perceberá isso nas constantes oscilações de pontos de vista que o crítico propõe às obras de Cabral, conforme as exigências materiais que essas mesmas obras oferecem aos recursos de interpretação do leitor. Nesses termos, seria plausível dizer que a disposição do crítico e a disposição da obra se adequam, sem dissonâncias, nesse caso específico, ao que parece, para bem do leitor.

Para além do conjunto mais significativo de trabalhos de análise da poesia cabralina, o livro recém lançado apresenta como elemento de vivo interesse, como já se disse, um ensaio inédito sobre a relação entre Drummond e Cabral que vale destacar em especial. Escrito de forma leve, o texto persegue uma linha do tempo através da qual aproximam-se e afastam-se aqueles que são, talvez, os dois poetas mais importantes de nosso século 20. Secchin vai percorrendo pistas deixadas em cartas, dedicatórias e outras comunicações entre os poetas.

Tais pistas ajudam, hoje, a partir da leitura de “Drummond e Cabral: afagos & alfinetes”, a formular questões sobre paradigmas poéticos ainda vigentes no Brasil e sobre porque projetos poéticos profundamente convergentes acabaram se tornando, a bem da história da poesia brasileira, divergentes e distanciados. Ler o ensaio sob esse prisma atesta como a investigação de fontes paralelas ao texto literário pode contribuir para o estudo das dinâmicas do sistema literário e, no caso específico, para a elaboração da hipótese de que o distanciamento entre Drummond e Cabral foi, a um só tempo, um evento transformador e um grande sintoma da produtiva evolução verificada na poesia brasileira em certo momento de meados do século 20.

Estudos e interrogações

Embora seja estudado de forma contumaz e com muita qualidade pelos assim chamados críticos acadêmicos, além de muito lido e repercutido no Brasil e no exterior, João Cabral é daqueles autores que parece que não se esgotam e cujas grandes análises apenas convocam a mais leituras e tentativas de interpretação. João Cabral de ponta a ponta evidencia isso de maneira inquestionável pois, mais do que produzir respostas sobre a poesia de Cabral, a competência crítica de Secchin ali revelada provoca interrogações intensivas e exigentes, que merecem ser levadas adiante.

Acerca do que aqui foi sublinhado em relação aos altos valores da empreitada crítica levada a termo por Secchin sobre a obra de Cabral, pode o leitor, por exemplo, querer problematizar, entre outras coisas, o encaixe perfeito entre perspectiva crítica e obra poética e pensar em imaginar ou intuir os resultados da leitura crítica de alguém que fizesse uma interpretação da obra cabralina, com esse mesmo escopo amplificado, mas a contrapelo daquilo que Cabral tanto propagandeia. Se todo poeta ao escrever defende um certo conceito de poesia, em Cabral essa defesa ganha uma tonalidade de estranha insistência, da qual vale inquirir as razões. Nesse caso, seria de supor que a aproximação entre poeta e crítico, deixada muito patente por Secchin, se converteria em um possível limite para a observação de matizes da obra de Cabral que ultrapassam o paradigma do menos e a insistência em desvestir de lirismo a forma poética? 

Haveria, para além de leituras que potencialmente correspondessem às expectativas de Cabral quanto à substância da poesia, espaço para uma interpretação, em certa medida, disruptiva da poesia do menos cabralina? Deste paradigma indicado por Secchin, que envolve seu tão propalado antilirismo, pode-se saltar, quiçá, para outro plano de interrogações, de modo especial se, dialeticamente, for considerada profundamente lírica a propaganda antilírica que Cabral tanto se esforça para fazer em seus versos e suas aparições públicas como poeta e que, com justeza e consistência, é apontada por seus melhores leitores. Pensar desse modo seria talvez forçar limites e interrogar se a lírica não está presente pelo avesso em uma poética que, ao tempo que se alimenta das contradições, procura revelá-las através da aparência da palavra descarnada.

Por fim, acerca da aproximação entre Drummond e Cabral, parece haver, não apenas no ensaio inédito, mas em outras referências feitas por Secchin ao poeta itabirano, um conjunto de trilhas ainda não suficientemente exploradas pela crítica dos dois poetas, de modo especial se consideramos as tensões entre “regionalismo” e “universalismo” nas obras dos dois. Se de um lado Drummond ansiou ser o “poeta nacional”, Cabral investiu tudo na regionalização agreste da voz. Essas são apenas algumas das inquietações que se extrai da leitura deste verdadeiro marco nas comemorações do centenário cabralino, que é João Cabral de ponta a ponta.

Como no caso das grandes obras literárias, que fazem mais quando não nos oferecem respostas e sim perguntas sobre o mundo, as grandes empreitadas de crítica devem seu valor de vigência à quantidade de questões espinhosas que estimulam, seja relativamente às obras lidas seja relativamente ao contexto social e literário em relação ao qual se situam. Sem dúvida é esse o caso desta bela reunião de textos de Antonio Carlos Secchin, que soube espelhar suas obsessões críticas nas ideias fixas mais intensivas e inquietantes da obra de João Cabral.

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília e poeta. Autor de, entre outros, Autofonia (2018) e Poesia na sala de aula (2017).

João Cabral de ponta a ponta
• De Antonio Carlos Secchin
• Lançamento Companhia Editora de Pernambuco (Cepe)
• 598 páginas
• R$ 18 (e-book) R$ 60 (livro físico)

Poesia completa
• De João Cabral de Melo Neto
• Organização de Antonio Carlos Secchin
• Editora Alfaguara
• 896 páginas
• R$ 154,90

Trecho:


Plateia — Eu queria insistir na questão do fazer poético. Alguns autores falam que têm necessidade de escrever. Quando você escreveu Morte e vida severina, por exemplo, passou por aí a compulsão de escrever?

João Cabral — Não, eu não sou levado pela necessidade. Eu poderia perfeitamente ficar sem escrever. Aliás, no conjunto da minha obra, é uma constante que eu considere aquele livro inútil. Acho que a gente escreve como um arquiteto constrói um edifício. A escrita é um edifício. Um quadro, a pessoa não tem necessidade assim de pintar um quadro como eu imagino que um compositor tenha necessidade de compor uma melodia. O quadro é uma coisa mais intelectual, é mais objeto da razão e da vontade do que propriamente de um impulso interior. Quanto a Morte e vida severina, devo dar uma explicação. Eu era muito ligado ao Aníbal Machado, um escritor de Minas, pai da Maria Clara Machado, que tem essa importância no teatro brasileiro que todos vocês conhecem. A Maria Clara era muito minha amiga e me pediu um auto de Natal. Eu o escrevi para o Tablado. E esse auto de Natal foi o Morte e vida severina. Ou seja, foi uma obra escrita de encomenda

Três poemas inéditos de João Cabral

A droga

Quando se há de desenvolver a droga
que feche o relógio, como porta?

Que nunca abra a porta desse pátio
onde se escuta o trem do horário?

Mas que abra os pátios de estar,
as praças sem correntes de ar,

Onde num trem que não se sente
se vai no passado presente.

65 anos

O pulso não está mais fraco.
Martela como sempre, claro.

Mas decerto o poço ou cacimba
de onde bombeia para cima

o que pelas veias circula
(vida? Sangue?) o que quer que suba,
já não está como esteve, cheia:
já se deve ver o chão de areia.

Decerto não deve faltar muito
para que a bomba alcance o fundo,

soe o ralar erres de quando
já corre pouca água nos canos.  
  

“Poucos anos 
nos convivemos”

Poucos anos nos convivemos,
mas convivemos tantos dias
que até mesmo quando
olhando-me é a ti que te via.

Eu te encontrava em qualquer coisa;
será por que te procurava?
Não sei, mais coisa tinha,
vinha marcado de tua marca.

Certo dia, não cara a cara.
Cruzei-te, era o outro lado da rua,
em estado de multidão,
ter na tua, eu sempre na tua.

Era meio-dia e ao meio-dia
toda lembrança se esvazia
do que haja nele de concreto:
Mas a tua era carne viva.


Nunca te vira tão carnal,
nem em teu corpo essa alegria
de carne, a carne alegre,
que à alma alegre se transferia.

Por que então não te fiz parar
no meio-dia morno e lento?
Os sins e nãos, os prós e contras
contabilizaram-se: em tempo.

É difícil de re-emendar
esse fio mil-fios, o tempo,
se emendamos duzentos deles
teremos ainda oitocentos,

E muito embora tantos fios
sejam de um algodão aparente,
a distância de uns poucos anos
deu-lhes maduro diferente.


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