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Estado de Minas

A violência apresenta suas armas

No livro A república das milícias - dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso tenta explicar os motivos que levaram o Brasil a integrar o ranking de países com maior número de homicídios em todo o mundo


27/11/2020 04:00 - atualizado 27/11/2020 10:34



especial para o Leia Agora
 
 
Em 2008, o músico Marcelo D2 lançou, em parceria com Seu Jorge, a canção Pode acreditar (Meu Laiá Laiá), que faz parte do álbum A arte do barulho. A mistura de rap com samba tem os seguintes versos: “Imagina só o fim da repressão / Você falar de maconha e de liberdade de expressão / De um lado o bandido / De outro a polícia / Agora já era, tá na mão da milícia / Nós avisamos dos porcos fardados / Mas nego é burro / Burro, continua votando errado”. Envolvido pela melodia, um ouvinte desatento pode até não se dar conta, mas a denúncia está lá. A violência urbana, que já castigava principalmente moradores do Rio de Janeiro, não era resultado apenas do conhecido confronto entre integrantes das forças do Estado e traficantes de drogas. Havia um terceiro componente: as milícias.

No mesmo ano em que a música foi lançada, era realizada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) uma CPI, liderada pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (Psol), para investigar grupos compostos por milicianos. A comissão pediu o indiciamento de 225 pessoas, entre políticos, policiais, agentes penitenciários, bombeiros e civis. É instigado por esse cenário, onde denúncias de violência e corrupção sistêmica mostram a fragilidade das instituições brasileiras, que o escritor, jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso busca contextualizar no livro A república das milícias – dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (editora Todavia) os motivos que levaram o Brasil a integrar o ranking de países com maior número de homicídios em todo o mundo.
 
 
 
 
 
 
TRECHO DO LIVRO

“Os milicianos, como demonstrado várias vezes, priorizam seus próprios interesses e lucro, pouco se importando com a legislação. São dinheiristas e egoístas. Não ligam nem cumprem o papel de zelar pelo interesse coletivo, tarefa que cabe ao Estado. Lutam (e matam, na verdade) pelo interesse de seu sucesso pessoal e o de aliados. E ainda assim seus valores foram e são compartilhados por lideranças políticas em ascensão, que levam para dentro do Estado uma disputa só interessada em beneficiar o personalismo e ambições pessoais, destilando ódio contra aqueles que tentam apontar limites”. 
 
 
Entender a lógica das milícias não é uma tarefa simples, afinal, os paramilitares atuam à margem da lei e dizem agir em nome dos ‘interesses dos cidadãos de bem contra a ameaça dos criminosos’. Mas, para isso, se envolvem em guerras por território, uma espécie de Game of thrones da vida real, onde as surras, a violência e os homicídios são considerados ferramentas de trabalho. Para os integrantes das milícias, ações violentas fazem sentido porque são parte da solução do problema. Além disso, eles usam a própria máquina pública para extorquir bens de pessoas carentes e lucrar muito. Essa distorção da realidade é apresentada no livro em depoimentos chocantes de personagens que viveram o dia a dia do crime e experimentaram, na prática, o que é ser um miliciano.

Os crimes provocados pelos agentes da segurança pública já acontecem há muitas décadas no Brasil. De acordo com a pesquisa feita por Bruno Paes Manso, que também faz parte do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), depois dos anos 1960, quando ladrões e criminosos passaram a ser vistos como grande ameaça aos moradores das metrópoles, ideias de uma justiça retaliativa vinham seduzindo muita gente nas cidades brasileiras. Para anular as ações dos bandidos, bastaria ser ainda mais forte e violento do que o criminoso. Deste modo, policiais e vigilantes começaram a se organizar, formando batalhões especiais que exibiam caveiras como símbolo de sua coragem e letalidade. Tais grupos passaram a travar disputas entre si, na tentativa de cumprir em suas áreas de atuação o papel que o Estado brasileiro não parecia capaz de realizar.

Com depoimentos anônimos de pessoas que atuaram nas milícias do Rio de Janeiro, o autor traça uma linha do tempo na qual é possível observar o processo de amadurecimento e desenvolvimento dos ideais paramilitares no país. Desde os primeiros grupos da violência fardada brasileira, quando milicianos e policiais se reuniam em casas noturnas para arquitetar ações conjuntas, passando pelas parcerias com os tradicionais bicheiros e proprietários de máquinas de caça-níquel, até as cobranças por abastecimento de gás, instalações clandestinas de eletricidade, água e internet, serviços de segurança, assistência social, e arrecadação com linhas do transporte clandestino.
 
 
 
Bruno Paes Manso fez extensa pesquisa sobre milícias(foto: divulgação)
Bruno Paes Manso fez extensa pesquisa sobre milícias (foto: divulgação)
 
 
Inevitavelmente, ao fazer esse levantamento histórico das milícias, o autor chega a nomes considerados referência em algumas das organizações paramilitares. São citados, por exemplo, crimes cometidos pelo então sargento Fabrício Queiroz, que a partir de 2007 se tornaria ‘faz-tudo’ do gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, e que também seria investigado pelo escândalo das “rachadinhas”. Além dele, são lembradas transgressões do tenente Adriano Magalhães da Nóbrega, que viria a ser considerado um dos criminosos mais violentos do Rio, e que foi morto em operação policial em fevereiro deste ano.

A ligação entre milicianos, integrantes da segurança pública e políticos, portanto, seria a chave para a impunidade em tantos casos de violência urbana. Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018, são os mais emblemáticos da ousadia da milícia. Em plena intervenção federal no Rio, os criminosos não titubearam em matar uma defensora dos direitos humanos que criticava fortemente as ações policiais em comunidades da cidade, que causavam, majoritariamente, a morte de jovens pretos e pobres. A morosidade das investigações sobre o caso mostra que os responsáveis pelos crimes estavam certos em acreditar que poderiam escapar da Justiça.

Como a própria CPI de 2008 apontou, alguns políticos eram suspeitos de envolvimento com milicianos. Jair Bolsonaro não foi citado naquela comissão parlamentar, mas, por ser o atual chefe da nação, sua vida ganha mais destaque e, consequentemente, suas ações são mais vigiadas. O pesquisador descreve em seu livro laços entre supostos integrantes de grupos milicianos com a família do atual presidente da República e explica como as ideias defendidas por ele alimentam a já citada visão distorcida da realidade, onde combater a violência com mais violência pode gerar algum tipo de paz ou, até mesmo, solucionar o problema da segurança pública nacional.
 
 
 
“Em suas trajetórias políticas, Jair Bolsonaro e seus filhos eleitos se dedicaram a defender grupos que compartilhavam com eles ressentimentos e revoltas. A defesa criminosa dos paramilitares e da ação imoral das polícias, presente em toda a carreira parlamentar do clã Bolsonaro, foi menosprezada por grande parte dos eleitores, como se não passassem de falas tresloucadas, sem consequência. Mesmo diante de várias manifestações de apologia ao crime, seus colegas parlamentares evitavam puni-los, permitindo impropérios cada vez mais radicais”, defende o autor.

Ainda segundo Bruno Paes Manso, por sugestão do pai, “Flávio Bolsonaro [ainda como deputado estadual] entregou inúmeras medalhas a policiais, mesmo aqueles flagrados em ações suspeitas. Os agrados acabaram deixando um rastro de afinidades da família Bolsonaro com milicianos. A insistência em condecorar os maiores vilões da corporação deixou cristalizada a ideologia de guerra que Jair Bolsonaro sempre sustentou”. Em 2018, além do atual presidente do Brasil, outros candidatos que defendiam ações violentas do Estado para o combate à própria violência foram eleitos. Wilson Witzel, governador do Rio afastado do cargo por suspeitas de corrupção, e Rodrigo Amorim, deputado estadual responsável por quebrar uma placa feita em homenagem a Marielle Franco, são alguns exemplos.

A república das milícias deixa claro que as soluções para o fim das milícias, do crime organizado e da corrupção estão longe de serem encontradas, mas o país precisará de muito diálogo e políticas públicas para trilhar um caminho diferente. Enquanto ficamos presos em um debate que aclama a violência como solução, alerta o autor, estaremos mais próximos de uma ruptura e de uma guerra fratricida.




» A República das Milícias – dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro
» Bruno Paes Manso
»  Editora Todavia
» 302 páginas
» R$ 39,90 (livro)
» R$ 17,91 (kindle) 




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