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Estado de Minas ENTREVISTA

'Somos, cada vez mais, estrangeiros em nosso país'

Escritor João Paulo Cuenca explica o processo de criação de seu novo livro


24/07/2020 04:00 - atualizado 24/07/2020 17:24

(foto: J.P. Cuenca - divulgação)
(foto: J.P. Cuenca - divulgação)
Por que abrir o processo de criação do próximo livro?
Essa ideia é fruto da pandemia. Eu estava alimentando diários desde o ano passado em Berlim e comecei a montar um livro de ficção com eles quando voltei ao Brasil, pouco antes da quarentena. Segui com esse processo, mas no meio do caminho o livro virou outra coisa, eu virei outra coisa, e achei que seria interessante reduzir os tempos do processo entre a escrita e a publicação.

Por um sentimento de urgência, talvez. Comecei a publicar trechos da parte brasileira dos diários na 451 e fiz uma série de vídeos baseado neles para a revista Zum, do IMS. Depois, decidi criar um lugar próprio para botar tudo junto e seguir adiante.

Como o leitor poderá acompanhar o progresso de seu trabalho?
Além de ler fragmentos inéditos no site, as pessoas poderão assinar uma lista de transmissão via WhatsApp ou Telegram, por onde já estou enviando trechos de obras com as quais o romance dialoga: livros, músicas, filmes etc. Também vou remeter áudios com leituras de inéditos meus, coisas de outros autores, fotografias e vídeos. Acredito que a experiência de acompanhar algo do processo de criação vai alterar a leitura do romance.

Não apenas porque são paratextos que ajudam a entender a obra, mas porque também há um investimento emocional envolvido, certo convívio. É, mais uma vez, uma performance estendida, só que mais laboratorial e, por que não dizer, íntima.

Por que retomar a produção de um blog?
O único diário que eu alimentei na vida antes desse foi o de escrita, edição e publicação do Corpo presente, meu primeiro romance, entre 2001/2003. Senti que era hora de voltar, talvez para tentar recuperar um pouco dos ares livres daquele blogspot, um momento em que a lógica de navegação da internet era muito mais horizontal e democrática.

Hoje, estamos todos sob ruído e controle de redes sociais e grandes portais noticiosos, no contexto da maior concentração de capital da História da humanidade – e sabemos que tal concentração, no Vale do Silício ou em conglomerados de mídia, amplia ainda mais o (mau) uso político dessas ferramentas. Abrir um site e ter um blog agora é como sair do shopping center infernal que virou a internet afunilada de hoje e pedir para as pessoas te acompanharem a um lugar diferente e silencioso, com menos lixo no horizonte.

Como as redes sociais, em especial o WhatsApp, impactaram a sua produção nos últimos anos? 
Atrapalharam muito a minha produção, eu poderia dizer. São ferramentas criadas para viciar e reprogramar o cérebro, sinto que ainda estamos engatinhando no uso consciente e responsável delas. Meu desejo de usar o WhatsApp agora tem algo de vingança e apropriação simbólica desse objeto absolutamente nefasto – o celular.

Já consegue delimitar as diferenças do novo livro para o anterior, Descobri que estava morto (Tusquets, 2015, prêmio de melhor romance pela Biblioteca Nacional)? 
Tenho a impressão de que esse narrador vai direto ao centro da ação, mesmo quando é interna. Descobri que estava morto é um acerto de contas gigantesco, um romance mais reativo e moralista (mesmo quando é profundamente imoral), e isso aqui me parece mais fluido e narrativo. O narrador não me parece muito preocupado em oferecer aquele tipo implacável de juízo de valor, talvez haja alguma generosidade envolvida no processo. Ou desapego.

“É necessário certa energia, apego e apreço”, escreve você no site. E para escrever no Brasil com tão poucos leitores?
Como escrever no Brasil é usar uma linguagem que boa parte da população não domina, o português escrito, somos estrangeiros em nosso próprio país – cada vez mais. Isso faz com que a literatura brasileira seja mais radical e inovadora que as outras, pois muito livre e alienígena, embora pouco prestigiada dentro e fora daqui.

Dito isso, hoje considero muito mais difícil não escrever no Brasil que escrever. Talvez por ter ficado quase quatro anos sem rabiscar uma linha de ficção, tenho pensado muito sobre isso: a energia brutal que gastei para conseguir não escrever esse tempo todo.

Nada é mais antigo que o passado recente. De onde veio o título? É uma certeza ou uma profecia?
Isso me veio numa noite de quarentena em outra formulação: “Nada é tão antigo quanto o passado recente”. Depois que publiquei isso, um grande amigo e escritor, Gabriel Trigueiro, me alertou que era uma frase do Nelson Rodrigues. A formulação dele é melhor e eufônica, daí que fiquei com ela e assumi como título provisório do livro.

"Abrir um site e ter um blog agora é como sair do shopping center infernal que virou a internet afunilada de hoje e pedir para as pessoas te acompanharema um lugar diferente e silencioso, com menos lixo no horizonte"

João Paulo Cuenca


Acho que a minha geração acreditou que passaria incólume pela História e estamos, desde 2013, entendendo que isso é impossível. A antiguidade do passado recente tem a ver com isso, esse peso e responsabilidade.

Qual o único final feliz para sua história de amor com as palavras e as imagens?
Tenho hoje três projetos de longa-metragem bem adiantados que quero dirigir e tantos outros para escrever. Falta grana, demora – cinema tem isso, mas estamos indo atrás. De coisas para sair, há um filme, Subterrânea, baseado numa peça que escrevi e que está em processo de finalização, deve estrear ainda esse ano.

É um filme de aventura alucinante e alucinado sobre a lenda do Morro do Castelo, a queima do Museu Nacional e as profundezas do Brasil, misturando Jules Verne e Lima Barreto com Exu. O Pedro Urano, diretor, fez um trabalho incrível e já tenho o maior orgulho do longa. E outro, em pré-produção, que escrevi junto com o Luiz Fernando Carvalho, na hora certa também será filmado por ele. Acho que o único final feliz é produzir até o último dia: é não desistir.

Cuenca na estante

>> Corpo presente 
(2003)

>> O dia Mastroianni 
(2007)

>>  O único final feliz para uma história de amor é um acidente 
    (2010)

>> A última madrugada
    (2012)

>> Descobri que estava morto 
    (2015)


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