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Estado de Minas ENTREVISTA/MARCELO PEN

"Trata-se de um momento muito perigoso da nossa história"

Marcelo Pen é doutor em teoria literária e literatura comparada pela USP


postado em 12/06/2020 04:00 / atualizado em 11/06/2020 15:01

Que tipo de analogias o distópico clássico da literatura inglesa 1984, de George Orwell, suscita quando se observa, neste 2020, o governo brasileiro?


Devemos lembrar que 1984 é um romance, uma obra de ficção, não um tratado nem um ensaio, e, neste sentido, está sujeito a instabilidades próprias de sua fatura literária e se encontra enraizado num contexto histórico e político específico, que precisa ser compreendido. Se não tomarmos esse cuidado, corremos o risco de abonar leituras que deturpam o espírito da obra ou de seu autor, como a que procuraram impor o governo e parte da mídia americana nos anos 1950 e 1960. Sabe-se que a CIA, por exemplo, financiou secretamente versões de 1984 e da Revolução dos bichos, com o objetivo de veicular uma ideologia deturpada. Levando-se a ressalva em consideração, creio que podemos afirmar com segurança que a obra de Orwell vem à mente sempre que um governo ou uma parcela da população flerta com o totalitarismo, acena para a substituição do estado democrático pelo regime do terror, o que pressupõe também o fim da ideia de liberdade individual. Há uma passagem no livro de Hannah Arendt, Origens do totalitarismo, que, para mim, ecoa tanto o romance quanto o que vivemos hoje. O trecho diz mais ou menos que o jugo totalitário pressupõe preparar o indivíduo para exercer o papel de ao mesmo tempo vítima e carrasco. Para esse indivíduo, disposto a denunciar o vizinho, a matar e morrer (em tempos de pandemia, não poderia soar mais exato) em nome da figura de um comandante supremo, já não existe distinção entre fato e ficção e entre o verdadeiro e o falso. Esse estado de coisas não ocorre só no Brasil, embora aqui naturalmente adquira fisionomia e funcionamento próprios, mas em várias partes do mundo, nos Estados Unidos, na Hungria, na Índia, nas Filipinas, entre outros, onde o ultraliberalismo globalizado, encabeçado por um punhado de ultrarricos, consegue manipular as massas com amparo da moderna tecnologia eletrônica. Trata-se de um momento muito perigoso da História; não é exatamente o mesmo que vem estampado no romance, mas penso que esteja lá insinuado, nas filigranas e nas instabilidades que eu mencionei no início.

 
Em meio à pandemia que já matou mais de 400 mil pessoas no mundo e, só no Brasil, antes de atingir o pico da disseminação da doença, as mortes já passam de 35 mil, o Ministério da Saúde anunciou a alteração da forma de divulgação dos números de óbitos em nosso país. Alguma semelhança ao Ministério da Verdade, que edita permanentemente fatos do passado e do presente?


Como sabemos, o Ministério da Verdade se ocupa no romance da manipulação e deturpação dos fatos. Cuida de falsear a História. Com isso, ao mesmo tempo a anula, pela constante abolição e adulteração dos acontecimentos, e a exacerba, pois a transforma em fonte privilegiada da ideologia do poder dominante. Sem dúvida, essa é uma das dimensões do estado totalitário de que estamos falando, que implica a indistinção entre o verdadeiro e o falso. Os dados, como, no seu exemplo, o número de infectados ou de mortos pela Covid, não apenas poderiam passar como verdadeiros, como se transformam na verdade. É muito grave. Veja que Orwell associa essa deturpação à tecnologia, ainda que ela hoje nos pareça rudimentar conforme descrita no romance. Mas é a tecnologia que fornece os meios para essa adulteração, um pouco como a tecnologia eletrônica atual é auxiliar importantíssimo na promoção de governantes despóticos e tirânicos, com seu elogio à ignorância e à barbárie, por meio, por exemplo, das fake news.  
 
Não apenas no caso recente dos dados da Covid-19, mas alguns ministros do governo Bolsonaro fazem coro com o movimento internacional de extrema direita - a alt-right – em que a realidade factual e objetiva é permanentemente editada e manipulada. Além disso, há um estado permanente de guerra, ameaças autoritárias dirigidas pelo presidente Bolsonaro à sociedade e aos “inimigos internos” – ou seja, todos que ousam criticar o governo. O sr. imaginou viver tal distopia no século 21?


Nunca! E ainda em meio a uma pandemia, quando a razão e o bom-senso mostram que os estados democráticos, de bem-estar social, são os mais bem equipados para lidar com a crise e proteger seus cidadãos. Você tem razão de falar da ideologia globalizada da alt-right. Ela é perfeita para proteger essa meia dúzia de ultramilionários e seu absoluto descaso com os cidadãos, os trabalhadores, o outro. A ética regressa ao patamar baixíssimo da época da ascensão do nazismo, quando o filósofo Walter Benjamin famosamente afirmou que as ações da experiência moral eram desmentidas pelos governantes. Benjamin escreveu isso na década em que Orwell foi lutar na Guerra Civil Espanhola, episódio que acendeu no escritor sua repulsa ao totalitarismo. Talvez seja preciso experimentar algo do que eles viveram para entender até a medula o que quiseram dizer. Nunca para mim ficou mais evidente como hoje a perversidade desse tipo de capitalismo, que literalmente condena milhares à morte em nome do lucro de poucos. Muitos vão para o abatedouro porque não têm opção, mas outros porque acham que é o certo. Não esqueçamos. Preparados para exercer o papel de vítima ou carrasco.
 
Quando escreveu 1984, Orwell discutia a questão do controle do Estado totalitário sobre o cidadão. Hoje, contudo, além da espionagem individualizada de organismos como a National Security Agency (NSA) sobre os cidadãos do planeta, temos também uma certa vigilância social permanentemente exposta nas redes sociais. É como se cada indivíduo tivesse se tornado um Grande Irmão. O direito à privacidade se tornou hoje uma utopia?


Parece-me que Orwell estava mais interessado em defender o direito à liberdade individual, uma conquista histórica que ele queria ver estendida a toda a população, incluindo os mais pobres. Veja que Orwell defendia a redistribuição ou limitação de renda, preconizando que a diferença máxima de ganhos entre os mais ricos e mais pobres fosse no máximo de 10 para 1. De lá para cá a situação só piorou. No ano passado, a fortuna combinada dos 26 mais ricos do mundo, de $1.4 trilhão, correspondeu à renda total de 3,8 bilhões das pessoas mais pobres, segundo relatório da Oxfam Internacional, que concluiu que os mais ricos nunca foram tão ricos. É assustador. Para que a redistribuição ocorresse, Orwell dizia que seria preciso uma mudança radical, tirando o poder das mãos da classe dominante. Ele projetava uma ação revolucionária. Não se sustenta, portanto, nem por um segundo, a intenção de conservadores ou da extrema direita de usar 1984 para defender o empreendedorismo e o american way of life. No entanto, concordo com você que o embaralhamento entre as esferas pública e privada é algo que estamos vivendo e que encontra respaldo nas situações descritas pelo romance.

 

 

1984

  • De George Orwell
  • Tradução de Alexandre Hubner e Heloísa Jahn.
  • Apresentação de Marcelo Pen.
  • 408 páginas
  • R$ 119,90


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