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Estado de Minas

As virtudes de uma escritora: livros de Natalia Ginzburg ganham novo sentido

Italiana, que escreve entre o ensaio e a autobiografia, destaca a cumplicidade do cotidiano e as consequências de perdas


postado em 29/05/2020 04:00 / atualizado em 29/05/2020 08:55

Natalia Ginzburg (1916-1991): pais e irmãos foram integrantes da resistência antifascista em Palermo (foto: Paola Agost)
Natalia Ginzburg (1916-1991): pais e irmãos foram integrantes da resistência antifascista em Palermo (foto: Paola Agost)
Italo Calvino, em Por que ler os clássicos (1991), afirma que a biblioteca ideal se compõe de metade de livros que já lemos e outra metade de livros que pretendemos ler. A coletânea, publicada depois de sua morte, foi iniciativa da companheira Esther Calvino, e reúne mais de 30 ensaios do escritor italiano em memoráveis leituras, de Ariosto a Tolstoi, passando por Joyce, Flaubert e Borges.

O seu cânone particular. Quase 30 anos passados, a experiência continua a ser delicioso passeio conduzido pela mão de quem soube aliar leveza à precisão de análise: o especialista generoso que comunica erudição sem hermetismo. Chama a atenção hoje, no entanto, o fato de não haver nenhuma escritora ali. O elenco dos chamados clássicos, como quase tudo na vida, se transforma, ganha novos contornos a depender de quem lê, como lê, de onde lê. Sem pretensão de revanchismo histórico ou gesto ressentido, valeria hoje uma conversa (irônica e bem-humorada, ao gosto do escritor) sobre a ausência daquela que lhe foi próxima na vida e no ofício. Calvino, cadê Natalia Ginzburg? Por incontáveis motivos, a escritora deveria estar ao lado de tantos grandes criadores.

A obra de Natalia Ginzburg (1916-1991) vem sendo republicada no Brasil, e neste planeta convulsionado pela pandemia do coronavírus é fundamental escolher na companhia de quem se vai atravessar o confinamento: atualmente, atribuímos novos sentidos às formas de sociabilidade, repensamos (para quem tem) o conceito de casa e ressignificamos a ideia de família e de privacidade. As pequenas virtudes (1962) e Léxico familiar (1963) crescem quando lidos neste momento preciso.

A autora foi figura fundamental da cultura literária italiana junto à Editora Einaudi, núcleo da resistência política de esquerda, e interlocutora de intelectuais proeminentes na vida pública de seu tempo, como o próprio Calvino, Elio Vittorini e o primeiro marido, Leone Ginzburg, professor de origem ucraniana e militante antifascista. Nascida Levi, de família de intelectuais judeus, Natalia Ginzburg recupera em Léxico familiar a história de pai, mãe e cinco filhos na Turim durante os primeiros anos do fascismo.

A narrativa autobiográfica venceu em 1963 o Strega, mais importante prêmio literário italiano. Como caçula, narra as dinâmicas do grupo familiar, em uma casa onde entravam sobretudo biólogos, engenheiros e cientistas. Entre os irmãos, a narradora destaca a experiência do vocabulário compartilhado, de cumplicidades cotidianas, mas nada banais: 

Somos cinco irmãos. Moramos em cidades diferentes, alguns de nós estão no exterior: e não nos correspondemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, um com o outro, indiferentes ou distraídos. Mas, entre nós, basta uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo de nossa infância. (...) para restabelecer de imediato nossas antigas relações, nossa infância e juventude, ligadas indissoluvelmente a essas frases, a essas palavras. Uma dessas frases ou palavras faria com que nós, irmãos, reconhecêssemos uns aos outros na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. 

As palavras são o testemunho de um núcleo vital que se foi, mas sobrevive na existência de uma língua partilhada. Em paralelo, a política se faz presente, e desse mundo patriarcal de uma família burguesa aparentemente comum surge a ótica feminina a dar sentido aos acontecimentos da vida pública – todos os homens de sua casa serão presos, exilados ou mortos, como o marido, Leone, assassinado em 1944 pelos nazistas em uma prisão romana. 

“Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal”, alerta a autora. Tais acontecimentos terríveis são relatados em tom menor, sem alarde, mas nem por isso de forma menos sofrida. Era um tempo de sapatos rotos, de fugas no meio da noite, de trocas de nomes, de documentos falsificados – maneiras possíveis de lidar com as famigeradas leis raciais decretadas por Mussolini, que oficializavam a perseguição aos judeus. Ainda assim, Natalia não adota tintas pesadas para narrar as incontáveis perdas.

Como a de Cesare Pavese, poeta e romancista, que se suicida em 1950. A morte do grande amigo é referida como a de alguém que tem pressa e não quer ser pego de surpresa, recusando imprevistos. Pavese ressurge em Retrato de um amigo, dolorida crônica incluída em As pequenas virtudes, reunião de ensaios escritos e publicados entre 1944 e 1962 em jornais e revistas. 

Com O meu ofício, de 1949, tudo parece fazer sentido. Misto de testamento literário, profissão de fé e convocação, o texto deveria ser leitura compulsória em qualquer aula, oficina de escrita ou disciplina sobre a criação. Sem dogmas, traça o retrato sincero da escritora em um país engolido pelo fascismo. Também consiste em uma reflexão sobre trabalhos que correm de forma simultânea, o de mãe e intelectual: “Pensava que algum dia, mais cedo ou mais tarde, o recuperaria, mas não sabia quando: achava que deveria esperar que meus filhos se tornassem adultos e fossem embora de mim. Porque o que eu sentia por meus filhos naquela época era uma coisa que eu ainda não tinha aprendido a dominar. Mas depois, pouco a pouco, aprendi”. O tema da maternidade e da escrita é ponto até hoje nebuloso e merece maior debate (ainda se pergunta a autoras estreantes como conseguem produzir tendo filhos – questão jamais endereçada a um homem que escreve). 

No universo da grande literatura do século 20, Natalia Ginzburg se declara uma “pequena escritora”. Não vai aí falsa modéstia – trata-se de um modo particular de se posicionar como intelectual, na recusa da grandiloquência fascista e na escolha do gesto menor diante de um mundo assolado pela guerra, pela injustiça e pela morte. Tradutora de Proust, crítica literária, ficcionista, militante da resistência ao totalitarismo, a escritora trouxe ao longo de sua obra a feroz lucidez de palavras mais do que necessárias. Em tempos de retórica vazia e abuso de poder (ontem e hoje), o pequeno em Natália é opção e virtude.

* Stefania Chiarelli é professora e pesquisadora de literatura brasileira na UFF e autora de O cavaleiro inexistente de Italo Calvino – Uma alegoria contemporânea (EDUCS). 

Trechos 
As pequenas virtudes

“Somos continuamente ameaçados por graves perigos já no ato de preencher nossa página. Há o perigo de começarmos a tentar seduzir e a cantar de repente. Sempre tenho uma vontade louca de começar a cantar, devo ficar muito atenta para não fazer isso. E há o perigo de ludibriar com palavras que de fato não existem em nós, que pescamos por acaso fora de nós e que enfileiramos com destreza porque nos tornamos muito espertos. Há o perigo de bancar o esperto e enganar. Como veem, trata-se de um ofício bastante complicado: mas é o melhor que há no mundo” (De O meu ofício).

“Jamais como hoje a sorte dos homens esteve tão estreitamente conectada, umas às outras, de modo que o desastre de um é o desastre de todos.  Então se verifica esse fato estranho: que os homens se encontram estreitamente ligados uns ao destino dos outros, de modo que a queda de um arrasta a queda de milhares de outros seres, e ao mesmo tempo todos estão sufocados pelo silêncio, incapazes de trocar uma palavra em liberdade. (...)

O silêncio deve ser contemplado e julgado no âmbito da moral. Porque o silêncio, assim como a acídia e a luxúria, é um pecado. O fato de que seja um pecado comum a todos os semelhantes de nossa época, de que seja o fruto amargo de nossa época malsã, não nos exime da obrigação de reconhecer sua natureza e de chamá-lo por seu verdadeiro nome” (De Silêncio)

Léxico familiar

“Depois da guerra, o mundo, ao contrário, parecia enorme, desconhecido e sem fronteiras. No entanto, minha mãe recomeçou a habitá-lo como podia. Recomeçou a habitá-lo com alegria, porque era alegre seu temperamento. Seu espírito não sabia envelhecer e jamais conheceu a velhice, que é estar afastado num canto, chorando o esfacelamento do passado. Minha mãe viu o esfacelamento do passado sem lágrimas, e não usou luto por ele.” 

“No tempo do fascismo, os poetas viram-se obrigados a exprimir somente o mundo árido, fechado e sibilino dos sonhos. Agora, havia de novo muitas palavras em circulação, e a realidade parecia de novo ao alcance da mão; por isso, esses antigos jejuadores puseram-se a vindimar com deleite (...). Mas depois aconteceu que a realidade se revelou complexa e secreta, indecifrável e obscura não menos que o mundo dos sonhos; e revelou-se ainda situada do outro lado do vidro, e a ilusão de ter quebrado esse vidro revelou-se efêmera.”  

As pequenas virtudes
De Natalia Ginzburg
companhia das letras
123 páginas
R$ 44,90

Léxico familiar
De Natalia Ginzburg
companhia das letras
280 páginas
R$ 44 

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