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Estado de Minas ENTREVISTA

Filósofo Francisco Bosco fala de Aldir Blanc e critica o bolsonarismo: 'Quem nos livrará do Brasil de 2020?'

O filósofo e ensaísta classifica as canções que o pai, João Bosco, fez com Aldir Blanc como símbolos de 'uma utopia de país'


postado em 08/05/2020 04:00 / atualizado em 08/05/2020 14:36

Francisco Bosco, também compositor e parceiro do pai:
Francisco Bosco, também compositor e parceiro do pai: "Aldir pegou muita melodia acidentada pela frente, mas, na mão dele, todo quebra-molas virou curva suave" (foto: Divulgação)
O Brasil perdeu a dimensão do comum, do sonho compartilhado, de um projeto de país plural, tolerante e justo, vocalizado na canção popular do século 20, que, com ampla penetração social, foi abraçada por pretos, brancos, mestiços, ricos e pobres. Tecendo a crônica poética do Rio e do Brasil dos anos 70, a obra do mineiro João Bosco e do carioca Aldir Blanc – este mais uma vítima de morte da Covid-19 – é parte desse fenômeno, que canta com sensibilidade um modo de ser, a sociabilidade, a violência e a religiosidade suburbanas. A opinião é de Francisco Bosco, filósofo, doutor em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), compositor, poeta, ensaísta e autor de livros como A vítima tem sempre razão (Todavia).  

Filho do músico João Bosco e da artista visual Angela Bosco, Francisco anota “um fosso” na conformação dos valores e sistemas de crença entre bolsonaristas e antibolsonaristas, que também se explicita de forma contundente nas dimensões fundantes da democracia e dos direitos universais do homem. Demonstrações disso são fartas. Mesmo no contexto da pandemia – em que aglomerações incentivadas pelo presidente da República reúnem militantes do AI-5, nada muda, mas muito se explicita mais. “Bolsonaro tem uma incompatibilidade espiritual com a democracia.

Ele é patrimonialista até o osso, simplesmente não consegue distinguir o público e o privado”, afirma Francisco Bosco, que acrescenta: “O governo dele não tem um projeto, a não ser o que foi terceirizado na economia. O resto é pura negatividade: contra a esquerda, contra as mulheres, contra as minorias, contra os artistas, contra os intelectuais, contra a ciência. É o poder em estado bruto”.

Construir pontes, nesse cenário, transforma-se na utopia de se reerguer o sentido de uma nação. Francisco Bosco prega a busca de convergências: “O primeiro passo é reconstruir um solo comum. Uma comunidade fundada na defesa de direitos universais, e não em valores particularistas e excludentes. Uma comunidade fundada no respeito à democracia, às instituições e sobretudo às diferenças.

Reconstruir esses elementos mínimos de uma sociedade deve ser o nosso maior objetivo neste momento”. Nesse projeto que hoje se assemelha à “arte do impossível”, a cultura, em sua melhor expressão de artistas como as composições da dupla João Bosco & Aldir Blanc, segue como um poderoso aliado.

O Brasil perdeu no início da semana para a Covid-19 Aldir Blanc, um parceiro de vida de seu pai, o cantor e compositor João Bosco. O que representaram as letras de Aldir para o Brasil nos anos 1970 e o que elas significam para o Brasil de hoje?
As canções de Bosco & Blanc perfazem uma crônica do Rio e do Brasil nos anos 70. Estão lá a sensibilidade, o modo de ser, a sociabilidade, a violência, a religiosidade, sobretudo suburbanas. Falando menos especificamente, mas tão relevante quanto, essas canções são parte desse fenômeno extraordinário que foi a canção popular brasileira durante todo o século 20: uma dimensão da cultura brasileira capaz de conciliar vanguarda e mercado, invenção estética radical e alta penetração social, pretos, brancos e mestiços, pobres, classes médias e altas, letrados e ágrafos – e por aí vai. Portanto, eu diria que as canções significam que houve um projeto de país, uma utopia de país, em que uma sociedade mais plural, cheia de amor pelas ruas e sua galeria de personagens deserdados, e cheia de sentimentos de justiça social, em que uma sociedade assim foi cantada e desejada.

Quais versos de Aldir Blanc que mais o impressionam? Por qual motivo?
O que mais me impressiona no Aldir é a sua capacidade de escrever letras altamente “poéticas”, no sentido de que chamam muito a atenção para si próprias, sem, no entanto, jamais deixar de servir à música, de saberem-se conscientes de ser parte de uma canção. Há nisso uma espécie insuspeitada de ética. Todas as letras de Aldir se acomodamperfeitamente nas melodias. E olha que ele pegou muita melodia acidentada pela frente. Mas, na mão dele, todo quebra-molas vira curva suave. Aldir foi um gênio no sentido da interpretação social, das imagens esplêndidas – é o inconsciente verbal mais poderoso da canção popular, na minha opinião –, mas foi também um craque da artesania, do ofício difícil do letrista.  

Você também escreve letras, muitas gravadas pelo seu pai. Como foi a sua relação com Aldir Blanc e o que aprendeu com ele?
Saberia dizer as razões da minha enorme admiração, mas não saberia dizer se alguma coisa disso foi assimilada por mim como letrista. Já como figura humana, só fui conhecer pessoalmente o Aldir já adulto, quando ele e meu pai reataram a amizade. E aí pude usufruir das qualidades pelas quais ele é amplamente reconhecido: o humor, as histórias, mas sobretudo as imensuráveis afetuosidade e generosidade. Aldir era, nas letras como na vida, um “atleta do afeto”, para usar a expressão de outro poeta.  
(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Em entrevista ao Pensar, Ailton Krenak, referindo-se ao envelhecimento nas sociedades de mercado, declarou: “Ou você produz as condições para você ficar vivo ou produz as condições para você morrer, essa coisa que conhecemos como a Previdência”. Nesses tempos da pandemia, como avalia o tratamento dados aos idosos, chamados de grupos de risco, em algumas abordagens deixando implícita a ideia de que sejam algo descartável ou que devam estar confinados em algum canto o tempo inteiro?
Já que você mencionou o Ailton, eu usaria o termo “tutela”, que os povos indígenas conhecem bem, pois esse foi durante muito tempo o seu estatuto constitucional no Brasil. Há uma infantilização deplorável dos idosos, que veio à tona com força neste momento da pandemia. Todos os memes com idosos tentando fugir de casa e sendo repreendidos pelos filhos como se fossem crianças, eu considero tudo isso desrespeitoso. Idosos – a menos que sofram de graves doenças degenerativas – sabem escolher como viver e até como morrer, se assim o desejarem. A vida é deles. Nada disso surpreende; afinal, vivemos, desde os anos 1960, uma “juventucracia”, por assim dizer. E com a aceleração tecnológica das últimas décadas, os idosos foram sendo atropelados pela história, cujo sentido por sua vez foi quase que engolido pela técnica. Nesse mundo de novos gadgets digitais, o que os idosos possuem como valor social?   

Em meio à pandemia, as atenções e espanto dos brasileiros que cultivam a mente livre e o olhar crítico se renovam dia a dia, acompanhando o comportamento e as declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro.  Do “cala a boca” dirigido à imprensa, ao incentivo às aglomerações, que por sinal carregam bandeiras antidemocráticas, o que, em sua opinião, pretende Bolsonaro?
Bolsonaro só pensa em poder. O que ele pretende é se manter no poder. Como ele sabe que é uma anomalia para as instituições democráticas, ele tenta enfraquecê-las, controlá-las, como se procura controlar um inimigo. Bolsonaro acredita que ser um democrata o obriga apenas a respeitar a letra da lei. E até isso ele faz com dificuldade. Mas a democracia é muito mais que isso. A democracia é também espírito, sua saúde se deve ao respeito a um conjunto de leis não escritas, que regulam a civilidade entre poderes e pessoas. Bolsonaro tem uma incompatibilidade espiritual com a democracia. Ele é patrimonialista até o osso, simplesmente não consegue distinguir o público e o privado. Para ele, o que importa é ter sido eleito democraticamente (o que também é questionável). Isso lhe dá o direito de fazer o que quiser. Mas ele nem sequer sabe o que fazer. O governo dele não tem um projeto, a não ser o que foi terceirizado na economia. O resto é pura negatividade: contra a esquerda, contra as mulheres, contra as minorias, contra os artistas, contra os intelectuais, contra a ciência. É o poder em estado bruto.

Em recente entrevista a José Carlos Vieira, do Correio Braziliense, você atribuiu à base bolsonarista radical um processo de identificação profunda com a figura do presidente, em torno do qual se consolida uma estrutura cognitiva – afetiva binária do bem contra o mal. Essa identificação está presente e parece mais forte entre pessoas da elite dita “educada”, que justifica mesmo as teses e declarações mais repugnantes, como a relativização da tortura. O que explica isso? Nas palavras de Flavio Migliaccio, a “humanidade não deu certo”?
A formação do bolsonarismo tem duas origens; uma ligada a questões econômicas, outra a questões de identidade. Começando pela identidade, o bolsonarismo é uma revolta de setores sociais conservadores que nunca se sentiram à vontade num mundo em que, desde os anos 1960, as elites liberais progressistas conquistaram a hegemonia cultural. A agenda de liberação sexual, emancipação feminina, direitos das pessoas negras, reconhecimento da comunidade LGBTQ, isso começou a se estabelecer na década de 1960 e foi se aprofundando cada vez mais. Nixon, nos anos 1970, chamou os insatisfeitos com esse processo de “maioria silenciosa”. Ora, essa maioria silenciosa conseguiu tomar o poder agora pela crise econômica que, desde 2008, revelou os fracassos das democracias liberais, até então hegemônicas desde os anos 1980. As democracias liberais foram mais liberais que democráticas. Produziram muita riqueza, mas a concentraram. Formaram governos de elites tecnocráticas que produziram um sentimento de cidadania afastada e impotente. No caso do Brasil, os escândalos de corrupção do PT e a sua manipulação (ambos reais), a anomia produzida pelo impeachment contra Dilma, a recessão econômica – esses fatores propiciaram a emergência de um sentimento antissistema, antiliberal, que Bolsonaro soube fazer convergir para si.

Você atribui também ao fracasso das democracias liberais – “mais liberais do que democráticas” – que falharam em combater desigualdades, a responsabilidade pela ascensão de uma certa “cidadania impotente”, que explicaria movimentos negacionistas, que atacam as artes, as ciências e a história. Considerando essa tendência, o que projetar para o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo?
O Brasil não tem qualquer futuro minimamente digno se não encarar as suas desigualdades, de todas as ordens. Seria preciso, no mínimo, fazer uma verdadeira reforma tributária, aumentando as alíquotas máximas, taxando lucros e dividendos, acabando com a “pejotização”, tributando mais a herança, taxando grandes fortunas. Seria preciso também acabar com a necropolítica do encarceramento da juventude negra, o que por sua vez exigiria uma outra política para as drogas. Ou seja, toda uma agenda radicalmente oposta à do atual governo. Mas a crise em que estamos entrando (sem nem ter saído) com a pandemia é tão grave que pode, por caminhos tortos e convulsionados, acabar levando a algo nesse sentido, embora os donos do poder farão tudo que puderem para evitar isso

Você esteve à frente da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 2015 e 2016. Como arte e cidadania se entrelaçam? E como avalia hoje a condução da Funarte?
Não existe condução da Funarte. Nem do Ministério da Cultura. O MinC é para esse governo apenas um punhado de cargos que se pode distribuir aos aliados. Ou seja, aparelhamento em estado puro. O bolsonarismo é uma ruptura sem precedentes com qualquer ideia anterior de cultura brasileira. Antes dele, grosso modo, havia dois projetos. Um deles é a longa tradição pró-mestiçagem, que vai desde José Bonifácio, passando pelo modernismo, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Caetano Veloso, até hoje um Antonio Risério. De outro, a tradição crítica a essa perspectiva, que vai desde a USP dos anos 50, passando pela obra de Abdias do Nascimento, os Racionais MCs, até chegar na luta identitária dos últimos anos. O bom debate cultural no Brasil deveria ser entre essas duas vertentes. Mas surgiu uma outra coisa, que é o bolsonarismo, essa espécie curiosa de nacionalismo alienado, de matriz olavista, ou seja, cristã e americanófila. Para essa perspectiva, não existe cultura brasileira. E, portanto, não tem como existirem políticas públicas de cultura. Seria mais honesto extinguir o MinC.
 
Você identifica nas canções de João Bosco e Aldir Blanc um projeto de país, de uma sociedade mais plural. No Brasil de 2020, onde ainda pode residir o espaço pra utopia?
O problema é justamente que uma utopia é um sonho compartilhado, mas o país perdeu a dimensão do comum. Há um fosso entre bolsonaristas e antibolsonaristas. O primeiropasso é reconstruir um solo comum. Uma comunidade fundada na defesa de direitos universais, e não em valores particularistas e excludentes. Uma comunidade fundada no respeito à democracia, às instituições e sobretudo às diferenças. Reconstruir esses elementos mínimos de uma sociedade deve ser o nosso maior objetivo neste momento.

No futuro, quem explicará melhor o Brasil de 2020? Os historiadores, os cientistas políticos, os filósofos ou os psiquiatras?
Permita-me reformular a pergunta: no presente, quem nos livrará do Brasil de 2020?

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