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Estado de Minas

Para não romper a teia

Livrarias de rua, editoras independentes e eventos concorridos consolidaram a cena literária de Belo Horizonte como uma das mais vigorosas do país. Mas, em tempos de isolamento social, como garantir a sobrevivência sem a presença de leitores e autores para uma visita, um café, um autógrafo?


postado em 01/05/2020 04:00

Paulo Werneck
Segunda edição do FLIR- Festival Livro na Rua, em agosto de 2019, na Savassi: eventos com livrarias e editorias independentes promovem o encontro de autores e leitores e ajudam a impulsionar o comércio local(foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)
Segunda edição do FLIR- Festival Livro na Rua, em agosto de 2019, na Savassi: eventos com livrarias e editorias independentes promovem o encontro de autores e leitores e ajudam a impulsionar o comércio local (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)

Frequentador das livrarias de BH desde pequeno — ainda tenho meus Asterix comprados na Agência Status e vários livros com o adesivo da Livraria do Ouvidor —, não me lembro de um momento em que a cena editorial e livreira de Minas estivesse tão interessante quanto agora. Mansamente, os mineiros construíram uma delicada rede de livrarias e editoras que, até onde a minha vista paulistana alcança, não se vê em outras capitais brasileiras, e que merece atenção da população e do poder público. 

Acredite, leitor: em Curitiba ou Brasília, isso não está acontecendo. Não é toda cidade que tem uma Scriptum, uma Quixote e uma Ouvidor, assim, vizinhas na Savassi. Do outro lado da Getúlio Vargas, a Livraria da Rua. Essas joias para qualquer bibliófilo tiveram a visão de se unir para valorizar essa rua do livro onde estão situadas, num movimento que deveria ser seguido pelos livreiros do resto do país. 

Com duas gigantes do mercado em recuperação judicial e provável extinção, as independentes já vêm pipocando em São Paulo e outras praças. Isso também aconteceu nos Estados Unidos quando as grandes ruíram. Mas, em Belo Horizonte, o movimento das independentes é mais firme porque é anterior a esse fenômeno. Por algum motivo, as grandes redes como Saraiva e Cultura tinham presença tímida ou nula nas cidades mineiras, quase sempre em shoppings. Nesse filão, a Leitura, rede sediada em Minas, vai ganhando espaço nacional.

Mas o que importa são as livrarias de rua, pois são elas que fazem a diferença. Uma livraria de rua, por menor que seja, cria ao seu redor uma circulação que transforma um bairro e impulsiona cafés, bancas de jornal e outros comércios, principalmente aos sábados. Livrarias são pontos de encontro aconchegantes, democráticos e abertos a gente de todas as idades. A partir dela se difundem novas ideias e autores. A programação de eventos é sempre gratuita. 

É preciso que Belo Horizonte defenda essa cena de livrarias de rua com políticas públicas, como existem por exemplo em Paris, cidade conhecida por suas infinitas livrarias independentes. As livrarias de Paris não são dados da natureza: existem porque políticas públicas as defendem.

A cena belo-horizontina do livro também deve muito às editoras da cidade, que nos últimos anos conquistaram protagonismo nacional, além de abastecer o mercado local. Minas se tornou um estado exportador de livros, com um grupo editorial robusto ( a Autêntica), uma editora universitária de primeira linha ( Editora UFMG), e um conjunto de selos independentes de enorme relevância cultural — Relicário, Chão da Feira, Letramento, Aletria, Miguilim, Impressões de Minas, além da Quixote e Scriptum, que têm produção editorial própria e revelam grandes autores para o país. Todas essas editoras com certeza dependem das livrarias independentes. 

Ecossistema do livro

Completam o ecossistema do livro mineiro a bela safra de escritores surgida nos últimos anos, a persistência do Suplemento Literário, o compromisso de um jornal como o Estado de Minas com a cobertura de livros, a perenidade do projeto Sempre Um Papo, a revista Olympio, o festival de quadrinhos em BH, e a importância de universidades como a UFMG ao produzir livros e formar leitores e autores em suas salas de aula. 

A Covid-19 atinge em cheio essa vigorosa vida literária. O ponto de interrogação é o poder público: terão a prefeitura e o governo do estado a visão de que é preciso proteger este ecossistema editorial, que além da relevância cultural tem peso econômico? Essa cena, que custou anos, esforços pessoais e recursos volumosos para se consolidar, é muito frágil e pode desmoronar com a quebra de um elo.

Sugestões não faltam, a um custo muito baixo e com alta eficácia: boas condições de crédito para editoras e livrarias, subvenções a livrarias de rua, subsídios ou alternativas mais baratas para o frete de livros, facilitando a chegada da produção mineira a Rio e São Paulo, estímulo à abertura de livrarias de rua no interior do estado, compras de livros para escolas e bibliotecas públicas que passem por livrarias, inclusão do livro nos programas sociais básicos, desde o nascimento do cidadão, como nos países desenvolvidos. 

Enquanto nada disso acontece, resta a nós, leitores, não esquecer a nossa livraria preferida, ligar para dar um alô para o Alencar e comprar duas ou três novidades. Deixo aqui uma sugestão: Patriotismo, do japonês Yukio Mishima, que a Autêntica acaba de lançar.

 *Paulo Werneck é editor da revista literária Quatro Cinco Um



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