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Estado de Minas PENSAR

Podcast Pensar: 'A desigualdade social é o legado da escravidão', diz Laurentino Gomes

Todos os grandes eventos históricos no Brasil são explicados pela escravidão, diz escritor


postado em 06/12/2019 06:00 / atualizado em 30/04/2020 16:23


Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o jornalista Laurentino Gomes revela as surpresas que teve na apuração do seu extenso trabalho para escrever Escravidão. E também aponta a desigualdade social e o preconceito racial como legados da escravidão. "Quando a gente fala de desigualdade social no Brasil, está falando de uma abolição que abandonou os escravos e seus descendentes à própria sorte. Então, essa foi a minha primeira surpresa: ver o quanto o assunto é importante. A escravidão explica todos os grandes eventos históricos no Brasil, a própria colonização, nossos ciclos econômicos, a guerra contra os holandeses, a independência, a República", afirma. O escritor revela também que Minas Gerais será o destaque do segundo livro da série, que abordará a escravidão no século 18, no ciclo do ouro e da mineração. "Esse leque de cores brasileiras, da diversidade brasileira de hoje, é plantado principalmente em Minas Gerais do século 18, por isso me interessa muito. Esse livro vai ser basicamente em Minas Gerais", conta.
 


Qual foi o principal aprendizado durante a pesquisa e a produção do livro?

O principal aprendizado foi a importância do tema. Quando estudei no ensino fundamental, médio, mesmo na faculdade, eu simplesmente não tive contato com a escravidão. Passava pela Princesa Isabel, Lei Áurea e olha lá. Ao pesquisar esse assunto, me dei conta que não tem nenhum outro tema tão importante na história do Brasil. Tudo que já fomos, o que somos hoje e o que a gente vai ser daqui para frente tem a ver com as raízes africanas. Não só do ponto de vista cultural, não só do ponto de vista numérico. O Brasil foi o maior território escravista da América. 5 milhões de escravizados entraram no Brasil em três séculos e meio, como também eu diria que o principal desafio do Brasil no século 21 é enfrentar o legado da escravidão, que é sinônimo de desigualdade social. Quando a gente fala de desigualdade social no Brasil, está falando de uma abolição que abandonou os escravos e seus descendentes à própria sorte. Então, essa foi a minha primeira surpresa: ver o quanto o assunto é importante. A escravidão explica todos os grandes eventos históricos no Brasil, a própria colonização, nossos ciclos econômicos, a guerra contra os holandeses, a independência, a República... o pano de fundo, o alicerce disso tudo é a escravidão. Explica a forma como as coisas foram acontecendo. Estrategicamente, a questão mais fundamental que o Brasil tem que enfrentar no século 21 é a desigualdade, portanto é o legado da escravidão, e também a questão do preconceito racial. Criamos alguns mitos a respeito de nós mesmos, por exemplo, aparece com muita força em Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, que teríamos tido uma escravidão branda, benéfica, patriarcal e o resultado seria uma grande democracia racial. Aí você olha o Brasil de hoje, entra numa rede social agora, e você vai ver o quanto somos preconceituosos. Então, essas foram as minhas principais surpresas. E também as visões conflitantes a respeito da escravidão: tem uma história branca e tem uma história negra. E por isso que tive esse desafio. Desenvolvi essa ideia do olhar, um olhar que olha as duas divisões e tenta fazer uma síntese, de uma forma respeitosa, mas muito atenta às visões contraditórias que o tema desenvolveu até hoje.

Que mitos você desconstrói no livro?

O Zumbi é um caso típico? Existe uma construção mitológica do Zumbi, especialmente durante o século 21, como o herói dos destituídos, não só da causa negra, mas também dos operários, dos camponeses, de todos os excluídos da sociedade brasileira. E tem outra construção que está em andamento atualmente, e que vem muito por exemplo de um movimento que chamaria quase que de supremacismo branco no Brasil, que tenta mostrar o Zumbi com senhor de escravo, desqualificado, e que não tem importância nenhuma. Então, o que me impressiona nesses personagens históricos é que, às vezes, quanto mais difuso ele é, quanto menos informação concreta e documental você tem, mais fácil é construir o imaginário sobre ele. E o Zumbi é um caso típico. Se sabe muito pouco a respeito de Zumbi, aliás, há dúvida sequer se houve um ser humano lá em Palmares chamado Zumbi, nome próprio. Aparentemente, era uma nomenclatura militar, era um chefe militar. Teriam existidos vários zumbis e o último deles morreu lutando em 1695. Mas daí o Zumbi vai adquirindo novas roupagens ao longo do tempo. É personagem em permanente construção e reconstrução, como acontece com outros personagens na história do Brasil: Tiradentes, dom Pedro I, Pedro II. Eles vão sendo modificados de acordo com a forma como olhamos para o passado. Por isso, é importante ser transparente na hora de escrever um livro, tem que explicar essas diferentes visões, sem cair na tentação de assumir uma versão apenas, sem observar o outro.

Como escritor branco, qual seu lugar de fala para discutir um tema como escravidão?

A primeira é que escravidão nem sempre foi sinônimo da cor da pele negra, como mostro no livro. Essa é uma construção recente, do século 16, 17, em que se desenvolveu uma ideologia racista com base até teológica, que falava da maldição de Cam, filho de Noé que tinha sido amaldiçoado e ter ido para a África e os seus descendentes teriam se tornado negros e portanto candidatos naturais à escravidão. Essa era uma coisa muito discutida nessa época para justificar a ideia de que os africanos seriam candidatos naturais a serem escravizadas. Mas até o fim do século 17, a maioria dos escravos no mundo eram brancos. Mostro livro que a própria palavra escravo, slave, slavos em latim, vemde de povo eslavo, branco de olhos azuis, que era escravizado no Leste da Europa aos milhões desde a época do Império Romano e vendidos no Mediterrâneo. Então isso é uma coisa recente. Não podemos fazer essa associação automática entre escravidão e negritude, inclusive cair na armadilha da ideologia racista que justificou a escravidão no Brasil. A segunda razão pela qual me sinto confortável nesse lugar de fala é que escravidão é assunto de todos nós brasileiros. Cito uma frase do embaixador Alberto da Costa e Silva: “Todos nós que estamos vivos temos a ver com a escravidão, por que ou somos descendentes de escravos ou de senhores de escravos ou de imigrantes europeus que chegaram aqui para substituir a mão de obra escrava ou de indígenas, que foram escravizados e exterminados no passado. Além disso, do ponto de vista de responsabilidade social, de cidadania, a escravidão é assunto com a qual todos nós brasileiros deveríamos nos preocupar. Aliás, dizer inclusive que escravidão é assunto apenas de negro ou de afrodescendente é fugir do assunto, é tentar escapar da responsabilidade de enfrentar o legado da escravidão. Então, escravidão é assunto de todos nós. Quem tiver alguma coisa para se manifestar, deve, especialmente, como é esse caso, que é tentar infundir algum traço de racionalidade. Numa discussão que hoje está muito popularizada, muito intolerante nas redes sociais. Então, a melhor forma que de enfrentar isso é pelo estudo da História. Aí sim, a gente infunde algum traço de racionalidade nesse tema.

A elite e a classe média brasileirão ainda mantêm mentalidade escravista?

A escravidão criou de fato uma sociedade de castas no Brasil. No dia a dia, nas relações pessoais, nas relações sociais, nas relações de trabalho. Esse Brasil que criou mitos a respeito da sua democracia racial, de fato tem segregação tão ou mais violenta do que ocorreu nos EUA, antes da luta pelos direitos civis do Martin Luther King. É só ir ao Rio de Janeiro hoje, por exemplo, e observar quem mora naquelas comunidades e periferias mais insalubres, perigosas, dominadas pelo crime organizado e sem nenhum serviço público, sem nenhuma assistência do Estado, a população descendente de escravos. Quem mora nos bairros mais ricos de boa qualidade de vida, os brancos descendentes de europeus. Então, existe uma segregação geográfica, física no Brasil de hoje, embora a gente finja que não exista. E essa segregação é também nos indicadores sociais. Você pega todos os critérios de renda, moradia, saúde, segurança, saneamento... quem é que ocupa os melhores postos de trabalho, tanto na administração privada, quanto na administração pública. Vai no Senado, no Congresso, no Supremo Tribunal Federal, na direção das empresas, ou pega as profissões mais qualificadas, como piloto de avião, arquiteto, médico, engenheiro uma minoria muito infama é constituída de descendentes de escravos africanos. A imensa maioria é descendente de colonos brancos, europeus. O que mostra que essa segregação é física, geográfica, mas ela também é em termos de oportunidades. Embora essa população seja majoritária, é a que menos têm oportunidades. Isso mostra que o legado da escravidão está visível, na paisagem física das cidades brasileiras, no ambiente de trabalho e também nas estatísticas do IBGE. É fácil de ver.

Por que Minas Gerais guiará o segundo livro sobre a escravidão?

Esse primeiro volume, eu diria que tem mais África do que Brasil, por que para começar a estudar a história da escravidão no Brasil, precisa olhar com muita atenção o que era a África. Porque lá que está a raiz africana, que cruzou o Oceano Atlântico e deu origem à escravidão no Brasil, depois da indígena, evidentemente. Mas o século 18 é importante por duas ações. A primeira é numérica. Depois da descoberta de ouro e diamante em Minas Gerais, entraram no Brasil 2 milhões de escravos. É um número tão grande, que a população brasileira no fiml do século 17, que era de 300 mil habitantes, excluídos os índios, que não eram contados nas estatísticas, salta para 3 milhões na época da chegada da corte portuguesa. Dois milhões eram escravos africanos, que entraram para trabalhar nas minas de ouro e diamante. É nessa expansão da fronteira brasileira em direção a Goiás, Mato Grosso, ao Centro-Oeste e à Amazônia. É no século 18 também que eu diria que começa de fato a nascer a África brasileira que temos hoje. E Minas Gerais é o cenário disso. Você tem as irmandades religiosas, uma escravidão urbana e de serviços em Minas Gerais, que é muito diferente da escravidão nos engenhos de açúcar de Pernambuco e da Bahia, porque é uma proximidade maior entre senhores e cativos, o que começa a favorecer a alforria. Os escravos começam a encontrar espaços, por exemplo, na mineração de ouro e diamante para fazer pé de meia, acumular uma certa poupança, comprar alforria. As mulheres passam a trabalhar em atividades urbanas de fornecimento de serviços, comida, doce, serviços domésticos e elas também se tornam protagonistas da alforria em Minas Gerais. No fim do século 18, Minas Gerais é a maior concentração de escravos do continente americano, mas é também onde já tem a maior população livre, que seria uma característica muito importante do Brasil no século 19. Então, estudar Minas Gerais, tem comida, danças, música, costumes… Esse leque de cores brasileiras, da diversidade brasileira de hoje, é plantada principalmente em Minas Gerais do século 18, por isso me interessa muito. Esse livro vai ser basicamente em Minas Gerais.


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