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Estado de Minas

Produção da Netflix aborda impacto mundial do vazamento de informações pessoais

'Privacidade hackeada' relata escândalo da Cambridge Analytica, agência de marketing político que coletou 87 milhões de dados pessoais, com reflexos na vida de três personagens


postado em 20/09/2019 16:27 / atualizado em 23/09/2019 14:35

(foto: Netflix/Divulgação )
(foto: Netflix/Divulgação )
Informações pessoais utilizadas como fonte de comunicação estratégica e capazes de provocar impacto em processos políticos de repercussão mundial, como a eleição presidencial norte-americana, em 2016, e o referendo no Reino Unido (Brexit) no mesmo ano. Eis o tema do documentário Privacidade hackeada (The great hack), produção da Netflix dirigida por Karim Ahmer e Jehane Noujaim. O conhecido escândalo da Cambridge Analytica – a agência de marketing político que coletou 87 milhões de dados pessoais com o auxílio do Facebook – é um alerta sobre a urgência de legislações para a proteção de dados.

O documentário acompanha a trajetória de três personagens. David Carrol é professor da Parsons School of Design e reivindica na corte britânica o direito ao resgate dos seus dados privados, os quais teriam sido utilizados para fins eleitorais. Carole Cadwalladr é repórter do The Guardian e assina uma minuciosa investigação jornalística apontando a rede de poder e influência por trás da Cambridge Analytica. 

Na trajetória mais interessante do filme, surge Britanny Kaiser, executiva da empresa inglesa que passa a denunciar, com provas contundentes, limites éticos ultrapassados nas últimas campanhas políticas. Um professor, uma jornalista e uma executiva, portanto, mostram como a prática hacker, hoje, tem uma dimensão maior, e mais corriqueira do que se supõe – muito além do que é divulgado pela grande mídia.

A reflexão evidencia os abismos na era big data, em que o comportamento humano tem sido codificado em algoritmos e monetizado pelos coletores de dados. É um cenário em que rastros digitais dos usuários comuns passam a ser commodities, ativos mais valiosos que petróleo na era digital, e explorados de forma indiscriminada pelas empresas de tecnologia. Num dos seus depoimentos, Britanny Kaiser usa a imagem de um bumerangue. Capta-se, primeiramente, um dicionário de comportamentos emocionais oriundo dos dados de perfis das redes sociais. Em seguida, no efeito de retorno do bumerangue, as campanhas políticas moldam posts – e também fake news – para influenciar decisões, votos e novos rumos das democracias.

Técnicas como microtargeting e a criação de modelos de psicometria culminaram numa nova etapa histórica no diálogo entre campanhas vindas da big data e eleições. O OCEAN, modelo aplicado pela Cambridge Analytica, reforça a eficácia na manipulação de dados pessoais tendo como epicentro a personalidade dos usuários, aspectos considerados chave para a propaganda política nas redes. As campanhas, portanto, exploravam tendências reativas dos usuários como a instabilidade emocional, a extroversão, a afabilidade, a consciência e a abertura para novas opiniões.

Usuários vulneráveis 

O documentário expõe as arestas do ambiente on-line que favorecem a persuasão de usuários “vulneráveis”, orientando fake news e desinformações. Paralelamente, o filme retrata uma luta legítima, como o acirramento e mobilizações da sociedade civil em defesa à privacidade, como os levantes #DataJustice e #DataForGood. Como se sabe, essa movimentação acarretou no aperfeiçoamento do arcabouço jurídico na privacidade e direito digital na União Europeia, que aprovou em 2016 a GDPR – nova legislação que estabelece normas severas para a proteção de dados.

No contexto brasileiro, o documentário cita o recente caso do uso de disparos em massa no WhatsApp durante a última campanha presidencial, vencida por Jair Bolsonaro. Esse aspecto aponta, indiretamente, sobre a urgência de colocar em prática a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), recentemente sancionada e que estabelece a criação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. 

A entidade terá como missão ser a guardiã dos dados pessoais dos usuários brasileiros. Num modelo similar, a agência reguladora ICO, do Reino Unido, é uma referência de boa prática no debate público sobre a exploração de dados pessoais. Ela condenou o Facebook e a Cambridge Analytica sobre a coleta indevida de dados pessoais dos usuários, com multas de 550 mil e 15 mil libras, respectivamente.

Elaborado como uma grande reportagem, Privacidade hackeada reconstitui a linha histórica de uma das polêmicas mais noticiadas dos últimos anos e que colocam em risco democracias do mundo todo, sejam elas novas ou mesmo consolidadas. Ao viver os impasses e os levantes de Carrol, Cadwalladr e Kaiser surge a constatação de que a era dos big datas interpela o posicionamento de todos os cidadãos. Há, no presente imediato, muitos desafios, os quais envolvem legislações práticas tecnológicas e um amplo debate público. Inserir a big data no centro da agenda contemporânea não é uma questão de escolha, mas uma urgência para toda democracia que preza seus valores mais essenciais.


* Pablo Gonçalo é professor de Audiovisual da Universidade de Brasília, UnB, e Fulbright Visiting Scholar da Universidade de Chicago

* Thomaz Pires é consultor de comunicação no Ipea e pesquisador da Rede Chevening do Governo Britânico

Serviço
PRIVACIDADE HACKEADA
Duração: 2h19min
Documentário de Karin Ahmer e Jehane Noujaim
Disponível na Netflix

USUÁRIOS VULNERÁVEIS

O documentário expõe as arestas do ambiente on-line que favorecem a persuasão de usuários “vulneráveis”, orientando fake news e desinformações. Paralelamente, o filme retrata uma luta legítima, como o acirramento e mobilizações da sociedade civil em defesa à privacidade, como os levantes #DataJustice e #DataForGood. Como se sabe, essa movimentação acarretou no aperfeiçoamento do arcabouço jurídico na privacidade e direito digital na União Europeia, que aprovou em 2016 a GDPR – nova legislação que estabelece normas severas para a proteção de dados.

No contexto brasileiro, o documentário cita o recente caso do uso de disparos em massa no WhatsApp durante a última campanha presidencial, vencida por Jair Bolsonaro. Esse aspecto aponta, indiretamente, sobre a urgência de colocar em prática a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), recentemente sancionada e que estabelece a criação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. A entidade terá como missão ser a guardiã dos dados pessoais dos usuários brasileiros. Num modelo similar, a agência reguladora ICO, do Reino Unido, é uma referência de boa prática no debate público sobre a exploração de dados pessoais. Ela condenou o Facebook e a Cambridge Analytica sobre a coleta indevida de dados pessoais dos usuários, com multas de 550 mil e 15 mil libras, respectivamente.

Elaborado como uma grande reportagem, Privacidade hackeada reconstitui a linha histórica de uma das polêmicas mais noticiadas dos últimos anos e que colocam em risco democracias do mundo todo, sejam elas novas ou mesmo consolidadas. Ao viver os impasses e os levantes de Carrol, Cadwalladr e Kaiser surge a constatação de que a era dos big datas interpela o posicionamento de todos os cidadãos. Há, no presente imediato, muitos desafios, os quais envolvem legislações práticas tecnológicas e um amplo debate público. Inserir a big data no centro da agenda contemporânea não é uma questão de escolha, mas uma urgência para toda democracia que preza seus valores mais essenciais.

* Pablo Gonçalo é professor de Audiovisual da Universidade de Brasília, UnB, e Fulbright Visiting Scholar da Universidade de Chicago
* Thomaz Pires é consultor de comunicação no Ipea e pesquisador da Rede Chevening do Governo Britânico

Serviço
PRIVACIDADE HACKEADA
Duração: 2h19min
Documentário de Karin Ahmer e Jehane Noujaim
Disponível na Netflix


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