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Estado de Minas

DANÇAR PARA NÃO DANÇAR

O angolano Kalaf Epalanga participa em Paraty com seu romance de estreia, no qual constrói forte narrativa sobre identidade a partir do kuduro, gênero musical surgido no fim dos anos 1980


postado em 12/07/2019 04:08

O escritor Kalaf Epalanga usa a música para contar e analisar fatos da história recente de Angola(foto: TODAVIA/DIVULGAÇÃO)
O escritor Kalaf Epalanga usa a música para contar e analisar fatos da história recente de Angola (foto: TODAVIA/DIVULGAÇÃO)

“Quando o cano das armas se cala
O kuduro também fala
Porque a voz tem mais poder que a bala”
(Já respeita, né?, Bruno M.)

Com esses versos do kuduro Bruno M. como epígrafe da primeira parte, o escritor, poeta-cantor e músico angolano Kalaf Epalanga abre seu romance de estreia, Também os brancos sabem dançar – Um romance musical (Todavia) e anuncia o que virá nas 300 páginas seguintes: música. Kuduro, especificamente. Mas o livro é mais do que um romance musical, como sugere o subtítulo. É uma narrativa sobre identidade. A música é o mote para narrar e analisar episódios da história recente de Angola, da vida dos africanos em Lisboa e das questões com imigrantes na Noruega atual, uma espécie de metonímia da Europa. E é sobre o seu trabalho que Epalanga falou ontem na Flip, em mesa dividida com Gael Fayë, rapper e romancista nascido no Burundi e radicado na França.

A estrela do livro é o kuduro (expressão que quer dizer “bunda dura”, “quadril duro”), ritmo que nasceu na periferia de Luanda no fim dos anos 1980, quando Angola ainda estava em guerra, primeiro como dança, inacreditavelmente inspirada na coreografia do personagem de Jean-Claude van Damme no filme Kickboxer. Ao longo dos anos, evoluiu para um gênero musical de beat acelerado, que mistura ritmos africanos com techno, house, ragga e rap. A dança tem semelhanças com o break. O autoproclamado criador do kuduro é o angolano Tony Amado. Inúmeros kuduristas o sucederam, conforme nos conta Kalaf, mas foi a Buraka Som Sistema, banda nascida na periferia de Lisboa, da qual o autor é membro-fundador, que levou o gênero aos quatro cantos da Europa, nos anos 2000, tornando o kuduro conhecido, especialmente no universo da música eletrônica.

O ritmo ganhou notoriedade a ponto de despertar o interesse de produtores e intérpretes como Lucenzo e Don Omar, que adulteraram as características originais da levada. Foi por essa porta que o gênero entrou no Brasil, invadindo nossas casas com Vem dançar com tudo (Danza kuduro), versão interpretada pelo cantor Latino e usada na abertura de Avenida Brasil, telenovela de sucesso da TV Globo, em 2012. Aquele ritmo latinizado pouco ou nada tem a ver com o original. O kuduro é uma forma de expressão, uma dança, um grito de jovens pobres e oprimidos da periferia de Luanda, metrópole complexa, capital de um país que passou 27 anos em guerra e que mantém sua identidade e uma musicalidade poderosa. Isso não é pouca coisa.

Kalaf Epalanga já se consagrou como cronista e tem publicadas duas coletâneas do gênero. Nesse primeiro romance, que alguns podem classificar como autoficção – a meu ver, uma classificação redutora –, o autor se vale de três narradores, marcados pela divisão em seções: ele próprio, Sofia e um policial norueguês. As três partes são narradas em primeira pessoa. Kalaf é personagem em todas, mas apenas na primeira é o protagonista. Nesta, o autor-narrador começa contando o episódio de sua detenção pela polícia norueguesa, na fronteira da Noruega com a Suécia. A data é 9 de agosto de 2008. Daí a narrativa deriva em flashback para trechos de sua biografia em Angola e Portugal, o reencontro com o pai aos 17 anos, o nascimento da Buraka, a história do kuduro etc. O texto é fluido, bem escrito, humorado. A seção termina sem que saibamos o desfecho do episódio da detenção.

PASSOS DA
KIZOMBA

Na segunda parte da obra, que se passa em Lisboa, quem narra é Sofia, dançarina e professora de kizomba, portuguesa, branca, apaixonada por Angola, que ela nem sequer conhece. Sofia e Kalaf teriam se casado apenas para que ele pudesse obter os papéis de residência em Portugal. A narradora carrega o leitor sinuosamente pelos passos da kizomba, pela música de Angola e Cabo Verde, pelos ambientes de uma Lisboa africana, com seus personagens angolanos, cabo-verdianos e até um brasileiro, o músico e montador de cinema Quito Ribeiro, de passagem por Lisboa para a produção do documentário I love kuduro, do diretor português Mário Patrocínio.

Na terceira parte, o narrador é um dos policiais noruegueses que prenderam Kalaf na fronteira. A narrativa mergulha na vida pessoal do policial, de sua família, de Mari, a policial parceira, de Ava, uma vizinha de origem libanesa, e em aspectos do cotidiano norueguês. A escolha desse narrador mostra a habilidade do autor em lidar com a ficção e com questões que quer tratar, sob um ponto de vista distinto do seu. Certamente, demandou alguma pesquisa sobre a cena musical e a história recente da Noruega. Pela voz desse policial com problemas de identidade, cheio de referências musicais e dramas de consciência, apaixonado por cinema e hip-hop, fã de Jay Z, temos finalmente o desfecho do episódio da detenção de Kalaf. Uma frase que o autor pôs na boca do policial norueguês ficou na minha memória: “...O beat, a língua franca que todo o ser com sangue nas veias consegue sentir, entender e comunicar sem usar um único verbo”. Viva o kuduro!

* Deborah Dornellas é escritora e produtora musical, autora do romance Por cima do mar (Prêmio Casa de Las Américas 2019)


Trechos do livro
“A porta abriu-se e dois agentes da polícia, ambos vestidos à paisana, carregando os crachás no pescoço, subiram a bordo. O homem, loiro e alto como só os vikings conseguem ser, apresentou-se aos passageiros. Não me recordo de suas palavras exatas, mas naquele instante voltei a repetir na minha cabeça a resposta que ensaiei dezenas de vezes por precaução (...). Viajava sem passaporte, que perdi algures num hotel em Paris, umas semanas antes. Um pesadelo que, naquela altura, nos obrigou a cancelar uma série de datas no pico do verão e porque – a desgraça nunca aparece na festa desacompanhada, traz sempre mais um – sou cidadão angolano. Quando se é um cidadão angolano comum, a última coisa que se deseja é perder os documentos. (...) Jean-Claude van Damme foi a epifania. Numa das cenas de Kickboxer, um dos filmes de porrada que mais debate gerou na Benguela da minha meninice, tornando-se um dos favoritos da minha geração, o ator belga, o próprio rei da espargata, dança embriagado ao som do tema Feeling so good today, de Beau Williams, acompanhado por duas tailandesas. A icônica cena de Van Damme a dançar de forma desengonçada e sem ginga, movendo o corpo sem mexer o quadril, que parecia preso – ou duro –, acendeu uma luz qualquer em Tony Amado, nosso Joseph Smith Jr., que, usando o molde rítmico dessa coisa eletrônica a que chamávamos batida, saltou inspirado para o sintetizador, sacando praticamente de uma assentada só o clássico Amba kuduro, uma homenagem à ‘musa’ Jean-Claude. E assim nasceu, em género e dança, o kuduro.”

TAMBÉM OS BRANCOS SABEM DANÇAR
De Kalaf Epalanga
Todavia
304 páginas
R$ 54,90


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