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Estado de Minas

MEMÓRIA EM FRAGMENTOS

Novo romance do escritor mineiro Lino de Albergaria faz retrospectiva autobiográfica em retalhos, como um caleidoscópio de reminiscências banhado em prosa romântica e lírica


postado em 28/06/2019 04:08

(foto: MARCELO ROSA/DIVULGAÇÃO )
(foto: MARCELO ROSA/DIVULGAÇÃO )
Não vou dizer que minha vida tem sido um ensaio ou um rascunho. É apenas a experiência de um homem quase comum, mas que considera esse quase algo especial. Pode soar arrogante, mas viver com certa delicadeza não é assim tão comum”
 
Lino de Albergaria, que eu saiba, não publicou apenas poesia, até hoje. Vai ver ele é poeta, porém, escondido. Porque a manha do lirismo, do poeta, com certeza ele deve ter, tantas as “travessuras” literárias que pratica, desde que o mundo é mundo. Ora, ora direis, como se vai do infantojuvenil para o ensaio, a editoração, a resenha crítica ao... enfim, romance?

Porque de sua alma faz parte a prosa romântica, repassada no próprio olhar de veludo, de seda, ou de algodão, que nos diz coisas encantadas e nem sempre perceptíveis no acetinado tão suave quanto inquiridor – para si mesmo, seu íntimo, e que busca ainda, sempre à cata de alguma coisa mais.

Hábil em combinar voz macia com uma permanente eletricidade na locução, Lino de Albergaria “solta a voz nas estradas” e se deixa ir. Sem atropelos ou excesso de cuidados, tem a seu lado a vivência longa, comprida e cheia de sujeições – porque da mesma época somos, senão irmãos, colegas de banco na universidade. E a época, nós a vivenciamos juntos, murados pela estreiteza de conjunturas nem sempre favoráveis ao que imaginávamos vivenciar. Mas fomos ver, descobrir o que se mexia por detrás das montanhas verde azuladas de nossa pacata – mas nublada – cidade.

Atravessou o oceano. Partiu em viagem. Deixou-se ficar sozinho sob céus europeus nem um pouco sombrios. Voltando à terra pátria, retoma o palpitar, resumido à aura, à luz de seus escritos. Muitos são os percursos até chegar à delicadeza do ser, prima próxima da insustentável leveza do ser, em que a mente sobrepõe-se de tal modo ao corpo que a realidade dos fatos e a reconstrução do sentido aliam-se fragorosamente. A hora é agora, da essência. Do não temor, do desobrigar-se. De compor por inteiro, sem ressalvas, a máquina em que se configura o ser humano.

Sim, há objetos que o auxiliam: quebra-cabeças, caleidoscópio, cartas do tarô, álbum de figurinhas, cenas de uma vida que vai da infância à maturidade, alternando-se em presente e passado, criando dubiedades.

Mistérios não envolvem apenas o irmão gêmeo não idêntico – não só um reflexo de si próprio, mas a busca de, no convívio, se ver por inteiro. Deles participam os demais personagens, que dão voz e movimento a este romance inusual, excêntrico e instigante. Desperta no leitor o desejo de continuar, pelo inusitado da situação, rumo ao desfecho derradeiro, que, na verdade não é o fim, pois A intrusa vem lhe dar continuidade.

O narrador, perspicaz, atento e nada confuso, apela para uma segunda parte, da qual se ausenta e a repassa a outrem – não por acaso sua filha. Que lhe continua o trajeto num recurso estilístico que nem todo escritor obtém, a não ser os mais tarimbados. Tentando reviver a vida lá atrás e, sobretudo, eliminar ressentimentos.

De aventura em aventura vamos nos apropriando de uma vida de detalhes – interessantíssimos. Não raras vezes também nos espelhamos nas peripécias que são trazidas à tona. Afinal, a vida entre os humanos não é tão diversa. Como num mosaico colorido e cujas peças se encaixam para formar o todo, O homem delicado não é livro para ler uma única vez. De jeito nenhum. É daqueles tais que, a cada leitura, há uma nova descoberta – um manancial delas.

Nem é livro para uma modesta resenha literária, senão um estudo psicanalítico profundo sobre o ser em evolução, apto à vida intensa, rica em sensações: “Não vou dizer que minha vida tem sido um ensaio ou um rascunho. É apenas a experiência de um homem quase comum, mas que considera esse quase algo especial. Pode soar arrogante, mas viver com certa delicadeza não é assim tão comum”.

Como não é comum fechar um livro e se sentir invadida por reminiscências gentis, íntimas, que, de igual forma, podem compensar quanto reconfortar... e, até, constranger. Mais que tudo: perturbar conquanto emocionar. Livro para definitivamente ficar à mão, em mesinha de cabeceira.

Madu Brandão é escritora, autora, entre outros livros, de Pão mofado & outros babados, Sangre Editorial, 2019
 

O HOMEM DELICADO
De Lino de Albergaria
Quixote+Do
201 páginas
R$ 49,90
Lançamento: Dia 29 de junho, das 11h às 14h, na Livraria Quixote, Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, BH.


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