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Estado de Minas

AS ENGRENAGENS DO MUNDO MODERNO

O surgimento das grandes fábricas e a transformação que promovem desde a Inglaterra do século 18, uma mistura de progresso, greves e conflitos trabalhistas, são matéria-prima do livro do historiador Joshua B. Freeman


postado em 21/06/2019 04:09

 

Onde você está? Olhe ao seu redor. A não ser que você esteja nu em uma floresta, tudo ou quase tudo que você vê agora ou está usando foi produzido ou montado em uma fábrica. A própria história da humanidade nos últimos três séculos parece saltar de grandes estruturas fabris em Mastodontes – A história da fábrica e a construção do mundo moderno, do historiador Joshua B. Freeman. Ele mostra como capital, trabalho humano e máquinas transformaram o mundo de um imenso campo, onde imperavam reis, rainhas, czares e seus súditos, em um conglomerado de centros urbanos e industriais em praticamente todas as partes. “As maiores fábricas da história estão em operação agora, fazendo produtos como smartphones, laptops e tênis, que bilhões de pessoas em todo o mundo definem o que significa ser moderno”, diz o professor do Queens College, em Nova York, na introdução do livro. Freeman, que nasceu em 1949 numa família operária de Nova York, pesquisou as diversas etapas da industrialização ao longo da história a partir das grandes fábricas.


O pesquisador mostra o impacto econômico, social, cultural e ambiental que as grandes ou gigantescas fábricas provocaram para construir o que elas próprias forjaram como conceitos de modernidade, progresso econômico e humano e desenvolvimento. O norte-americano se debruçou sobre o processo da industrialização, do início na Europa até hoje na China, passando pelos Estados Unidos e pelas repúblicas soviéticas e países periféricos, como Polônia e Egito. Nos dois casos, descreve como as grandes fábricas, concebidas como estratégicas para o desenvolvimento, alimentaram o fortalecimento dos trabalhadores e, consequentemente, da estrutura sindical.


O livro segue a linearidade do tempo na descrição das transformações, lembrando uma linha de montagem, em que a revolução industrial na Inglaterra é o ponto de partida do que ainda está em curso. “A fábrica é uma estrutura do mundo moderno, o qual ajudou a criar”, diz Freeman no início do texto ao falar da primeira indústria de tecidos instalada em Derby, na Inglaterra, em 1721. Marco da revolução industrial, a Derby Silk Mill, “aparentemente surgiu do nada, completamente desenvolvida, sem infância”. Foi também uma das mais longevas estruturas fabris da história, desativada em 1890, exatos 169 anos após iniciar produção.


Na linha de montagem de Freeman, o gigantismo das fábricas salta da Inglaterra no século 18 para as indústrias têxtil e siderúrgica norte-americanas do século 19 e para a indústria automotiva do início do século passado. E a linha de montagem da história passa da indústria automotiva dos EUA para a União Soviética, na década de 1930, e para os Estados socialistas, depois da Segunda Guerra Mundial, e finalmente para a China nos dias de hoje. Em todas essas fases, Freeman faz descrição detalhada das estruturas produtivas, das relações trabalhistas e das mudanças sociais, culturais e econômicas promovidas pelas grandes fábricas.

SURGIMENTO
DOS OPERÁRIOS

O autor encaixa trabalhadores, empresários, governos, contextos sociais e econômicos de cada época como se fossem peças que reunidas vão resultar em um produto acabado. A história do mundo moderno, para Freeman, se passa entre as engrenagens de grandes indústrias para sair transformada a cada nova etapa. Ao descrever o processo de instalação das indústrias têxteis, inicialmente na Inglaterra e posteriormente nos Estados Unidos, entre o fim do século 18 e o início do 19, o historiador mostra como as fábricas modificaram o ambiente em que foram instaladas, transformando crianças e mulheres em operários de um lado e se tornando promessa de vida melhor para jovens de outro.


Motivo de admiração, elas rapidamente se espalharam pela Inglaterra e posteriormente na América do Norte. Mostra com riqueza de detalhes os processos nas grandes fábricas, expondo o impacto dessas grandes estruturas fabris. “Era um prédio retangular de cinco andares, com a fachada de tijolos marcada por uma série de janelas grandes, que externamente se assemelhava aos milhares de fábricas que estavam por vir”, diz o historiador. Essa descrição detalhada e contextualizada – “as primeiras fábricas não foram construídas a partir de visões sociais grandiosas, mas para aproveitar oportunidades comerciais ordinárias” – perpassa todos os capítulos de Mastodontes.

PASSEATAS
E GREVES

Ao mesmo tempo em que mostra como empresários viabilizaram as primeiras fábricas, Freeman revela as condições de trabalho e expõe os conflitos existentes em cada época. “Apesar das proibições legais, os trabalhadores criaram organizações abertas ou secretas, realizaram greves e participaram de passeatas e manifestações em massa. Na década de 1810, ocorreram as primeiras greves substanciais de operários fabris”, escreve. Esses movimentos de trabalhadores e a reação que eles geraram em indústrias e governos estão presentes em todos os momentos da história da industrialização.
O enfrentamento de empresários e trabalhadores custou, em várias ocasiões, a vida de muitos operários. Nem sempre as vidas foram ceifadas em reações enérgicas às mobilizações trabalhistas. Muitas se perderam na construção das fábricas e no próprio processo, que muitas vezes reuniram homens e mulheres do campo. Ao falar das gigantescas fábricas chinesas, Freeman descreve uma série de suicídios na Foxxcom, gigante chinesa que produz aparelhos para a norte-americana Apple.
Vistas como avanço tecnológico, as tecelagens inglesas eram criticadas pelas duras condições de trabalho. Nos Estados Unidos, a indústria vira promessa de uma vida melhor para as jovens mulheres que foram contratadas e moravam no conglomerado de fábricas, pensões e igrejas com ruas ladeadas por árvores e flores. Dos ares sombrios de Manchester às fábricas de Massachusetts, a indústria têxtil dá um salto, mas conserva suas contradições. “O capitalismo industrial – à frente do qual estava a indústria têxtil, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra – não se desenvolveu de forma orgânica a partir de comunidades existentes, mas foi implantado, totalmente formado, por capital mercantil de fora”, descreve Freemann.


Essa característica é a mesma até os dias de hoje, em que as grandes fábricas muitas vezes são estrangeiras na comunidade onde são inseridas, mas trazem dentro de si a promessa de uma vida economicamente melhor. Elas chegam com a promessa de empregos, alteram a paisagem e muitas vezes impactam rios e o ar. Mas são sinônimo de progresso, um conceito cristalizado no fim do século 19, quando as grandes exposições universais, descritas por Freeman, eram o exemplo de prosperidade. Marco dessa época, a Exposição Universal de 1889, comemorativa do centenário da Revolução Francesa, tem seu símbolo maior até hoje em Paris. Construída para a exposição, a Torre Eiffel foi erguida com 18 mil peças de ferro forjado a uma altura de 312 metros. “O grande número de visitantes das exposições e a enxurrada de publicidade positiva atestaram a admiração generalizada pelo novo industrialismo”.


É esse fascínio que perpassa a história da industrialização. Freeman pontua o texto com a impressão de escritores, poetas, músicos, cineastas e dramaturgos que se inspiraram nas estruturas fabris e no seu entorno para exaltar seus feitos de modernidade e progresso ou criticar seus impactos negativos sobre o meio ambiente, a área urbana, o meio social e os milhares de trabalhadores. “Jornalistas, críticos, comitês de investigação do governo, romancistas e até poetas, quase todos das classes média e alta, proferiram uma torrente de palavras sobre o sistema fabril durante a primeira metade do século 18”, escreve Freemann. O autor observa, por exemplo, que, embora seja visto como uma crítica universal do capitalismo como sistema econômico, O capital, de Karl Marx, “é um livro profundamente enraizado em um tempo e um lugar específico, numa Inglaterra em que a indústria têxtil reinava suprema.”

EMBATE ENTRE PATRÕES
E EMPREGADOS

Se a indústria têxtil foi base para Marx, foi nas grandes siderúrgicas que se instalaram em Pittsburgh e Filadelfia, na Pensilvânia, a partir de 1850, que Frederick Winslow Taylor desenvolveu os conceitos de administração científica na década de 1880. As grandes siderúrgicas norte-americanas marcam o surgimento dos operários especialistas, o acirramento do embate entre empresários e patrões e um impacto ambiental maior. É nessas siderúrgicas que ocorrem as primeiras grandes greves nos Estados Unidos, com enfrentamentos e mortes. “Outra coisa além de fogo e poder fez das fábricas de ferro e aço centros de atenção pública: conflitos trabalhistas”. Houve batalhas mesmo na região das siderúrgicas.
O sistema de administração científica, cujo maior téorico, ideólogo e divulgador foi Taylor, permitiu gerir estruturas mais complexas e muito maiores. É essa forma de controlar os trabalhadores e os confrontos entre empresas e operários que vão marcar os avanços da indústria. Na virada do século, as transformações dão um salto com o início da produção em massa de uma única mercadoria padronizada, cujo personagem principal é Henry Ford, que transformou seu Modelo T, a partir de 1908, de brinquedo de luxo em bem de consumo de massa. E a grande inovação foi o fato de as indústrias adotarem as linhas de montagem.


E uma curiosidade: Ford se inspirou nos frigoríficos para criar o sistema no qual os trabalhadores ficam parados em estações enquanto o produto a ser montado vai passando por eles. Era exatamente assim nos frigoríficos, onde açougueiros ficavam estáticos, trabalhando sobre carcaças de animais que circulavam em ganchos até eles. Mais escala, mais complexidade produtiva e verticalização dos processos e mais gigantismo nas estruturas industriais. Essa concentração, que desde o início se mostrou necessária para controlar os processos produtivos se mostrou também como ponto vulnerável das grandes indústrias, uma vez que a paralisação de um único setor interrompia toda a produção de um complexo industrial.

FÁBRICAS ALÉM
DA IDEOLOGIA

Essa constatação levou as gigantes norte-americanas a desconcentrar suas unidades industriais no início do século passado, mesmo momento em que a União Soviética iniciava um processo de industrialização com grandes fábricas no qual os Estados Unidos foram determinantes para tirar o país recém-saído da tirania dos czares e do atraso para uma rápida inserção no mundo moderno. Mostra como os líderes bolcheviques rapidamente perceberam que a sobrevivência da revolução dependia mais das fábricas do que da ideologia marxista e adaptaram os processos usados no desenvolvimento do capitalismo industrial norte-americano para passar de um país agrário para uma das maiores potências em curtíssimo espaço de tempo.


Outra curiosidade: para o autor, as execuções de líderes bolcheviques por Josef Stálin tiveram relação com o não cumprimento de metas de produção nas fábricas soviéticas gigantes, além de divergências quanto ao modelo de desenvolvimento do país. Fábricas essas que contaram com o apoio de Henry Ford e de equipes de técnicos norte-americanos para ser implementadas e iniciar produção. Esse mesmo sistema de grandes projetos industriais foi levado para países socialistas no pós-guerra, com Freeman detalhando a história da Polônia, onde a grande indústria levou a um sindicalismo forte e que ascendeu politicamente.

A VEZ DA
CHINA

A China, anos depois da União Soviética, também adotou as grandes fábricas como forma de se desenvolver. E se beneficiou da transferência de produção de grandes indústrias dos Estados Unidos e da Europa para o país asiático em busca de redução de custos e de escapar dos conflitos trabalhistas. A China tem hoje os maiores complexos industriais do planeta, com dezenas de milhares de trabalhadores em cada um deles. As fábricas gigantes estão distantes dos consumidores, que nem sequer percebem que o que usam ou vestem foi feito em uma indústria. São elas que fazem da China, hoje, a segunda maior economia do planeta. Socialista, China e União Soviética recorreram a um dos maiores símbolos do capitalismo, as fábricas, para se tornar países desenvolvidos.


Embora não faça nenhuma menção a gigantes industriais abaixo da linha do Equador, a leitura de Mastodontes leva o leitor a se lembrar dos momentos da industrialização brasileira, com as fábricas de tecidos, as siderúrgicas e a montadoras de automóveis. Ao fim do seu estudo, Freeman reconhece que “a fábrica gigantesca transformou sonhos em realidade, mas também torno pesadelos reais”. Para ele, embora há alguns anos se fale em era pós-industrialização nos Estados Unidos, a fábrica gigante, que ajudou a produzir modernidade, ainda não se esgotou. “Qualquer que seja o futuro da fábrica gigantesca, ela já deixou como herança um mundo transformado. Para Freeman, a lição mais importante dessas estruturas industriais gigantes é “que é possível reinventar o mundo. Isso já foi feito antes e pode ser feito novamente”.

 

Trecho do livro

 

“Como fenômeno global, a fábrica gigante talvez tenha atingido seu apogeu. Embora algumas muito grandes continuem a ser construídas, muitas indústrias tomaram outras direções, procurando reduzir os custos de mão de obra e evitar a chance de, como aconteceu no passado, os trabalhadores aproveitar a concentração da produção para afirmar seu poder. A mecanização e a automação contínuas são um caminho e causa de uma perda muito maior de empregos fabris nos Estados Unidos do que a mudança de fábricas para o exterior. Até a Foxconn, maior empregadora mundial de operários fabris, está experimentando automação. Na sua fábrica de smartphones em Kunshan, China, não muito longe de Xangai, a companhia investiu pesadamente em robôs, o que possibilitou a redução do número de empregados de 110 mil para 50 mil, ainda uma força de trabalho muito grande, mas distante do topo da lista das maiores fábricas do mundo. Outras empresas recorreram a muitas fábricas de pequeno e médio portes em regiões de salários mais baixos, como Bangladesh, numa aparente volta ao passado, com jovens chegadas de aldeias rurais produzindo bens para gigantes globais como a WalMart e a H&M em fábricas de baixa tecnologia, superlotadas e com frequência extraordinariamente perigosas, que mais se assemelham às instalações escravizantes americanas do final do século 19 do que às modernasgigantes chinesas.


Mas, se a fábrica gigante perdeu um pouco do fascínio, ainda há empresários ansiosos para recomeçar o ciclo em território novo, sem uma história de ativismo trabalhista ou deterioração ambiental. A Huajian Shoes, uma empresa chinesa que produz calçados para marcas internacionais, como a Guess, abriu em 2012 uma fábrica na Etiópia, onde em 2014 o salário mínimo básico era de 30 dólares por mês, em comparação com um salário médio fabril de 560 dólares chinês. Em dois anos já contava com 3.500 trabalhadores”.

 

Mastodontes: a história
da fábrica e a construção
do mundo moderno
l De Joshua Freeman
l Editora Todavia
l 416 páginas
l R$ 89,90

 

 

 


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