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Estado de Minas

ASAS POÉTICAS

Poema O corvo, clássico da literatura mundial, de Edgar Allan Poe, ganha edição especial no mercado brasileiro com as traduções de Machado de Assis (1883) e Fernando Pessoa (1924)


postado em 07/06/2019 04:09


Separados por quase meio século e pelo Oceano Atlântico, o principal ficcionista e o maior poeta da língua portuguesa se debruçaram, cada qual à sua maneira, sobre os 108 versos de um dos poemas mais famosos da literatura mundial. A Companhia das Letras acaba de lançar edição especial de O corvo (The raven), de Edgar Allan Poe, com duas traduções: uma do carioca Machado de Assis e outra do lusitano Fernando Pessoa, além de ensaios do autor americano (1809-1849), organizados por Paulo Henriques Britto.

O sucesso do melancólico poema sobre um homem que lamenta a morte da amada enquanto um corvo repete reiteradamente a expressão “nunca mais” a cada questionamento foi imediato quando da publicação original, em janeiro de 1845, na American Review, assinado por pseudônimo. Nos anos seguintes foi republicado, já com o nome de Poe, que teve um fim de vida não menos trágico do que sua obra, vítima do alcoolismo. O corvo ganhou espaço em antologias, fascinou do poeta francês Stéphane Mallarmé ao pensador russo Roman Jakobson, mas não faltaram críticas de escritores como o britânico Robert Louis Stevenson e o americano Henry James – para quem levar Poe a sério indicaria “um nível claramente primitivo de reflexão”.

Antes de ir às traduções, vale atentar para o modus operandi cuidadoso e matemático de Poe no desenvolvimento que culminou no poema. Em um dos três ensaios traduzidos por Henriques Britto, A filosofia da composição, o escritor disseca o processo de gênese de seu poema mais famoso: um dos objetivos era desenvolvê-lo num tamanho adequado, não tão raso nem tão extenso, de modo que o leitor pudesse mergulhar na história sem que sofresse a interferência externa da pausa. Planejou 110 versos e acabou finalizando com 108 – 18 estrofes de seis versos cada.

O desejo de Poe era uma construção que pudesse tornar a obra universalmente apreciável. Para tanto, optou pelo uso do refrão, que daria força no fechamento de cada uma das estrofes: um som forte, com uma vogal sonora associada ao r, “que ao mesmo tempo tivesse o máximo de coerência com essa melancolia que eu premeditava como tom do poema. Nessa busca seria impossível não me deparar com a palavra nevermore (nunca mais)”, escreveu em seu ensaio.

Se chegar à palavra nevermore foi intuitivo, imaginar a criatura que a repetiria ao fim de cada estrofe não foi tão simples assim. A princípio, Poe imaginou um papagaio – o que, convenhamos, a identidade cômica e dócil poderia dar ao poema um tom quase de pastiche ao horror. O papagaio logo deu lugar ao corvo, cujo crocitar poderoso e rouco daria mais coerência ao tom sombrio imaginado pelo autor.

Por fim, na busca pelo tema mais melancólico de compreensão universal, Poe chegou à resposta: “A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo – e também não pode haver dúvida de que os lábios mais adequados para discorrer sobre esse tema são os do amante que sofreu a perda.”

Nasceu, assim, da combinação das lamúrias do homem e as respostas inócuas do pássaro, o poema O corvo, escrito quatro anos antes da morte de Poe.

TRADUÇÕES COMPARADAS

O corvo foi traduzido para dezenas de idiomas, algumas por escritores consagrados. Na França, por exemplo, ganhou uma versão do poeta francês Charles Baudelaire. O poema de Machado de Assis (1839-1908) foi publicado na revista carioca A Estação, em 28 de fevereiro de 1883, reeditado em outros periódicos e só reunido em livro em 1901, na coletânea intitulada Ocidentais, seção de suas Poesias completas. A tradução de Fernando Pessoa (1888-1935) é de 1º de outubro de 1924, publicado na revista Athena.

Paulo Henriques Britto defende que um bom ponto de partida para comparar é que Fernando Pessoa apresenta uma tradução “ritmicamente conforme a original”, enquanto o brasileiro é infiel à forma adotada por Poe. “Tudo leva a crer que Machado, ficcionista por excelência, veja no poema de Poe acima de tudo uma história contada em versos; por lhe faltar o ouvido absoluto de um poeta maior, não lhe ocorre que possa haver uma relação orgânica entre as escolhas formais do poeta norte-americano e a natureza da narrativa por elas veiculada. Assim sendo, Machado nem sequer tenta reproduzir o inusitado metro do original”, escreve Britto em Um raven e dois corvos, também reunido do livro.

O organizador toma como exemplo a estrofe inicial: a de Poe tem 86 palavras, distribuídas em seis linhas, enquanto a do brasileiro apresenta 102, em 10. Machado também abre mão da repetição, que dá um ritmo melancólico ao original de Poe e que permanece mais visível na tradução de Fernando Pessoa. É uma mera questão de opção de Machado o que, de maneira alguma, lança dúvidas sobre seu domínio no artesanato do verso, ainda mais para um parnasiano, corrente a que Machado se filiou, que se caracteriza pela extrema regularidade métrica.

“Ninguém diria que O corvo de Machado é o mesmo poema que The raven; a experiência proporcionada pela leitura do texto de Machado é muito diferente da que é vivida pelo leitor do poema de Poe”, escreve Britto. “É como se uma letra plangente e melancólica de um fado português fosse cantada num ritmo de funk carioca; ainda que as palavras fossem precisamente as mesmas, a canção seria radicalmente outra..”

Já a tradução de Pessoa consegue reproduzir exatamente o padrão utilizado por Poe. Quanto ao sentido, as alterações são mínimas. (Uma curiosidade é que Machado de Assis mantém o nome da amada, traduzindo-o de Lenore para Lenora, enquanto o português opta apenas pelo pronome ela.).

Ao fim de seu ensaio, Britto afirma que “não seria exagero dizer que Pessoa conseguiu, em seu O corvo, não apenas produzir um poema em que são recriados de modo preciso os efeitos do texto inglês em todos os planos – do sentido, do metro, da rima –, como também, por meio de uma pequena mudança, chegou mesmo a aperfeiçoar o original”. A mudança é, justamente, omitir o nome da amada, Lenore, acentuando o clima de mistério.

Como a vida imita a arte, Poe teve fim melancólico, quatro anos depois da publicação de O corvo, em 1849, aos 40 anos. Nunca foram apuradas as causas precisas de sua morte e ao longo do tempo se aventou sífilis, raiva e doenças em decorrência do alcoolismo. Nascido em Boston, incompreendido em sua época, teve uma vida de pobreza, embriaguez, alcoolismo e à sombra da tuberculose, que matou sua mãe, irmão e esposa. O corvo é o segundo relançamento da obra de Poe pela Companhia das Letras. Em 2017, a editora lançou Histórias extraordinárias, com 18 contos traduzidos pelo poeta José Paulo Paes. Entre eles, obras-primas do suspense e mistério como A carta roubada e O gato preto e textos de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Charles Baudelaire, célebres nomes da literatura que reverenciam o escritor mais sombrio de todos os tempos.


O corvo
Tradução: Fernando Pessoa


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isso, e nada mais
(...)
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.



O corvo
Tradução: Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora.
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”
(...)
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo – o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.



O corvo
•  De Edgar Allan Poe
•  Org. Paulo Henriques Britto
•  Tradução: Fernando Pessoa e Machado de Assis
•  Companhia das Letras
•  200 páginas
•  Preço: R$ 44,90 (livro)
•  R$ 24,90 (e-book)


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