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Estado de Minas

Ecos de uma revolução


postado em 29/03/2019 05:09

(foto: dETALHE DA tela de Celio Nunes, do Combate no Corrego das Calçadas EM SANTA LUZIA)
(foto: dETALHE DA tela de Celio Nunes, do Combate no Corrego das Calçadas EM SANTA LUZIA)


O cenário é 1842. De um lado, as tropas imperiais comandadas por Luis Alves de Lima e Silva (1803-1880), de 39 anos, futuro Duque de Caxias. Do outro, as forças chefiadas pelo mineiro Teófilo Otoni (1807-1869), E, no meio, a defesa dos princípios constitucionais e da liberdade. Os mineiros lembram sempre em 20 de agosto o fim da Revolução Liberal, cuja última batalha se deu em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Quem explica mais sobre o episódio que ainda ecoa em São Paulo e Minas Gerais é o desembargador e integrante do Instituto Histórico e Geográfico/MG Marcos Henrique Caldeira Brant, desde 2003 imerso em pesquisas sobre o tema: “Fazemos um resgate dessa página da história do Brasil, que envolveu nos campos de batalha 5.460 homens, sendo 2.460 do Exército e 3 mil liberais”.

A Revolução de 1842, diz Caldeira Brant, foi um movimento armado que ocorreu de forma simultânea nas duas mais importantes províncias do império – São Paulo e Minas Gerais. “Ela resultou das paixões exaltadas e das divergências dos dois únicos partidos políticos existentes, o Conservador e o Liberal, tendo como causa maior a defesa da Constituição de 1824, que tinha princípios violados pelos dirigentes do Partido Conservador, no poder administrativo do império, por meio de edições de leis reacionárias”, explica o desembargador. “Na verdade, os dois partidos políticos pouco diferenciavam quanto aos métodos e processos de fazer política.”

Em Minas, “terra do culto à liberdade e com vocação para as tradições”, a Revolução Liberal pode ser considerada o acontecimento político e histórico mais significativo do período imperial (1822 a 1889), devido “à sua forte consistência e expansão por todo o território mineiro e caracterizado pela grande participação das elites dominantes polarizadas”, afirma Caldeira Brant, lamentando que o assunto ainda seja pouco explorado nos livros didáticos.

MEDIDAS ENÉRGICAS


       Falar da Revolução de 1842 é também compreender o ambiente, os homens e o Brasil da época. “O plano dos liberais era reivindicar o poder político e administrativo pela força, certos de que a primeira ação armada seria suficiente para intimidar os conservadores. Mas o movimento foi visto como golpe contra o Estado e o regime monárquico. Então, a corte imperial, temerosa de que o movimento se irradiasse para as outras 16 províncias, tomou rápidas e enérgicas medidas”, conta o integrante do Instituto Histórico e Geográfico. Em São Paulo, o movimento durou um mês, enquanto em Minas, então constituída por 42 municípios, dos quais 15 declaradamente revolucionários, se estendeu por 73 dias.
    
Na época, o primitivo arraial de Santa Luzia pertencia a Sabará. Passados quase 177 anos, a história continua viva na cidade, por ter se tornado palco do fim da revolução e da chamada “ação pacificadora do Exército imperial”. De acordo com as pesquisas de Caldeira Brant, a luta derradeira durou das 8h às 20h”. O desembargador destaca que Caxias, patrono do Exército, teria experimentado a primeira derrota de sua carreira militar se não fosse o socorro de seu irmão. “O coronel José Joaquim de Lima e Silva Sobrinho pode ser considerado o verdadeiro herói legalista da batalha de Santa Luzia.”  Santa Luzia guarda marcas do conflito com buracos de bala nas janelas do Solar Teixeira da Costa, sede do Museu Aurélio Dolabela/Casa de Cultura (atualmente fechado), que serviu de quartel primeiro para os revoltosos e depois para Caxias. Já a Igreja Matriz serviu de sentinela e prisão para os liberais ou “luzias”.
    
Muitos já escreveram sobre a Revolução Liberal e a obra considerada referência é História do movimento político de 1842, publicada em 1844 e de autoria do cônego José Antônio Marinho (1803-1853). Muitos luzienses também se preocuparam em registrar a tradição oral, a exemplo da professora Inês Gonçalves Diniz, já falecida, no livro Aqui nascemos. Há histórias que arrepiam: “Uma mocinha subiu em uma jabuticabeira para ver a tropa que avançara pela Rua da Lapa. Um soldado legalista atirou na mesma que caiu morta”. E outras passagens mostram os moradores em apuros. “Como minha bisavó estava grávida e tinha uma filha pequena, antes do batalhão chegar, saíram de casa e esconderam-se na mata do Morro do Pião, levando com eles as escravas e as crianças. Aos escravos, deu ordem para se esconderem na mata”. (GW)


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