Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Violentamente pacífico, verídico

Disco mais importante dos Racionais MC%u2019s, Sobrevivendo no inferno, de 1997, ganha versão em livro, que revela como poucos a realidade das periferias do país


postado em 04/01/2019 05:03

O principal disco da carreira do Racionais MCs virou livro, os versos que marcaram gerações agora estão impressos nas páginas e ganharam, além das letras, uma análise precisa do papel do grupo, e em especial deste disco, pelas mãos do professor Acauam Silvério de Oliveira. “Os quatro pretos mais perigosos do Brasil” chegaram às livrarias com seu discurso essencialmente periférico e, paradoxalmente, o reconhecimento se dá em um dos momentos mais conservadores e retrógrados da nossa história recente. A publicação saiu pela Companhia das Letras e firma a obra no campo da literatura, espaço historicamente privilegiado e raramente associado a pessoas negras, ainda que tenhamos nomes como Lima Barreto, Machado de Assis e Carolina de Jesus. Mesmo com autores declaradamente negros e até “marginais” como alguns dos citados, o trabalho do Racionais é um ponto fora da curva, sem paralelo possível, pelo impacto cultural e tudo o que suscita.
“A fúria negra ressuscita outra vez...”

Sobrevivendo no inferno, quarto disco do Racionais MCs, foi lançado em 1997. Ninguém naqueles dias poderia imaginar que o álbum se tornaria um dos mais importantes da música popular brasileira. Era um disco aguardado, principalmente após o sucesso de Raio x do Brasil (1993), LP que trouxe faixas clássicas como Homem na estrada e Fim de semana no parque, ambas com papel crucial na propagação do rap brasileiro. O contexto em que nasce o álbum seminal do Racionais é o de um outro país (marginal) dentro do país oficial. Neste sentido, a periferia é outro país dentro do país, onde o Estado é ausente em aspectos essenciais como saúde e educação. O índice de mortalidade entre jovens pobres e negros se mostrava muito mais elevado do que para a juventude branca oriunda da classe média, com muitas dessas mortes violentas causadas pelo próprio Estado.

Este mesmo Estado ausente é presente quando se trata de repressão. Não por acaso, Mano Brown celebra os seus “27 anos contrariando as estatísticas” na música Capítulo 4, versículo 3, terceira faixa do disco. Era literalmente sobreviver no inferno e ninguém jamais havia narrado essa realidade com tanta propriedade. Pois bem, o disco não apenas trouxe à tona a vivência como de fato determinou o que seria a missão do rap daquele momento em diante, era o “compromisso” do qual falaria Sabotage anos depois.

O disco caiu no gosto dos jovens, não apenas da periferia, mas também dos chamados playboys. O álbum extrapolou qualquer expectativa imaginável. Em 2018, foi indicado como leitura obrigatória no vestibular da Unicamp e isso tem ainda mais peso por ser um disco de rap, produzido longe dos círculos acadêmicos, por representantes de um Brasil que raramente é visto e ouvido. Por todas essas características, o Racionais e a sua obra mais relevante representam uma subversão, inimaginável até então, pela origem e por terem chegado aonde chegaram jogando pelas próprias regras. E isso não é pouca coisa, principalmente em um dos países mais racistas do mundo, em que o discurso de Brown, Ed Rock, Ice-Blue e KL Jay superou os tabus impostos falando do abismo que separa brancos e negros.

A obra fala principalmente para quem vive aquele mundo e sobre como sobreviver a ele. É o trabalho que melhor traduz o universo da periferia, narrando-o sob um viés muito diferente do que é apresentado nos telejornais, justamente por se tratar de uma visão de dentro, cuja narrativa se encontra distante da costumeira visão pasteurizada e maniqueísta. Trata-se de uma poética sofisticada, nunca vista ou ouvida na literatura ou na música daqui. Nenhum outro trabalho representou tão bem os efeitos dos 400 anos de escravidão no Brasil.


Roger Deff é jornalista e rapper

SOBREVIVENDO NO INFERNO  
De Racionais MC’s  
Companhia das Letras   
160 páginas  
R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book) 


Publicidade