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Estado de Minas

Trechos


postado em 02/11/2018 05:07


Trecho do Manifesto das Mineiras (agosto de 1980)

“Senhora, aqui está vossa chave
Para que vós entregueis a quem quiserdes, quando quiserdes,
Porque maior que a dor de vos perder,
É a dor de vos deixar presa nesses ferros...”

Assim um poeta da Idade Média despediu-se de sua senhora, antes de partir para as Cruzadas. E entregou-lhe a chave do cinto de castidade, contrariando todas as tradições da época. Por amor.


Em Minas, quase mil anos depois, as mulheres têm destinos diferentes: são mortas a tiros pelos homens dos quais queriam se separar. Porque pediam a liberdade.


Alguns desses casos chegam aos jornais. Às vezes, até ocupam as primeiras e nobres páginas, o horário nobre da televisão. Mas nós sabemos que morrem anonimamente centenas de mulheres da mesma forma. E é por causa delas, por causa das Eloísas, das Angelas, Reginas, Maltas e Marias, por nossa causa que estamos aqui. (...)


A morte nos trouxe até o adro desta igreja. Mas não é a morte que nos anima a continuar. O que nos dá forças para prosseguir nessa luta, que poderá ocupar nossa vida inteira, é a certeza de que podemos transformar essa sociedade doente que está à nossa volta”.


Trecho do Manifesto das Mineiras
(novembro de 2018)


“Quando algumas mulheres não aceitam se submeter a um poder persistente, antigo, convincente, muito convencido das razões e da importância desse poder para o funcionamento do mundo, o que se faz com essas mulheres? Mata-se. Sim, mata-se porque a morte é uma forma de lição poderosa, eficaz. É o derradeiro recurso: a eliminação do incômodo.
(...) O pássaro que voa de forma a produzir um incômodo, a mosca, o sagui, tudo o que corre livremente por aí. O que se faz quando este pequeno animal exerce seu livre-arbítrio sem consultar o poder assentado há milênios em seu trono? O que você faz com este ser que incomoda? Mata-se. (...)
Há uma mulher e suas maneiras de existir.
Suas maneiras de resistir.


Há muitas maneiras de se viver.


Há muitas formas de se matar uma mulher.


(...) Há formas simbólicas de se eliminar uma mulher ou sua rebeldia. A liberdade é um símbolo. O voo do pássaro é um símbolo.
A palavra é uma forma de liberdade. O pensamento é uma forma de liberdade. Existir é uma forma de liberdade. A liberdade, a palavra,
o pensamento são também possíveis de se calar antes que a morte seja executada”.


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