Beatriz Montenegro
Pedagoga, neuropsicopedagoga e educadora parental pelo API (Certificado Internacional de Apego Seguro)
Que o mundo mudou, ninguém discorda. Ainda mais nesse esse tempo que vivemos pós-pandemia. Decisões políticas que dividem uma nação e, consequentemente, muitas famílias... Enquanto tudo acontece no mundo lá fora, no interior da família, dúvidas sobre como educar e por qual caminho seguir são latentes e tiram o sono de muitos pais.
Antes de trazer caminhos possíveis, sugiro uma reflexão essencial. Imagine que você atua em uma grande empresa e que o seu setor será totalmente reformulado, nada do que você fazia será igual. A empresa garante que ninguém ficará sem o seu emprego, porém todos terão que se adaptar, terão que se reinventar, terão que se conectar de uma forma diferente, a comunicação também deverá ser outra. A empresa deixa a critério de cada pessoa ficar ou sair. Qual seria sua decisão?
Continuando nossa reflexão, farei um pequeno levantamento de dados atuais sobre a população brasileira. Segundo estudos e dados da OMS, o Brasil se mantém na posição de país mais ansioso do mundo, o 3º mais depressivo, e Burnout (esgotamento por conta de excesso de trabalho) é apresentado por 18% da população adulta.
Diante desses dois cenários que apresentei aqui, você consegue compreender a necessidade de educarmos de forma diferente os nossos filhos? Na cena que pedi para você imaginar, ela reflete exatamente o que os nossos filhos nos propõem. É um convite imenso, uma grande oportunidade de nos entregarmos ao novo, de ressignificar a nossa história a partir da criação deles. Nos dados atuais, refletimos o quanto a educação tradicional, patriarcal e autoritária trouxe consequências para a nossa sociedade. O que fazer?
Em primeiro lugar, volte à essência, retome a conexão, o amor. Somos seres humanos, somos seres amorosos e bondosos por essência; se observarmos a criança, ela é a pura conexão com suas necessidades e com o amor. Um bebê chora e solicita o que necessita, na certeza de que um adulto acolherá suas necessidades. Que possamos ser o adulto que acolhe, que se conecta com a criança, que se permite viver no amor e que sai da cobrança, do certo e do errado, e se entrega à relação. Relação que tem trocas, que pode ter divergências, mas que tem respeito e muito amor.
Resgate a escuta. Escutar é diferente de ouvir e é uma habilidade humana e comportamental essencial nos dias de hoje, ela é uma soft skills. Escutar é permitir que a fala, a demanda da outra pessoa que chega até você tenha ressonância em sua vida. Nem sempre vamos escutar o que concordamos, ou o que queremos, mas podemos refletir e estabelecer um diálogo que seja colaborativo, que tenha como propósito a troca, e não a competição.
Pare de comprovar ao seu filho seu cansaço, seu esforço, suas batalhas. Apenas acolha o que ele conta a você, e assim desenvolva a empatia. Quando chegamos em casa após um dia inteiro de serviço, provavelmente estaremos cansados e desejando paz e silêncio; porém, na contrapartida, nossos filhos passaram o dia todo aguardando este momento, querendo um abraço, querendo atenção e também devem estar cansados. Quando uma mãe, um pai escuta “hoje meu dia não foi bom, hoje estou cansado, hoje o dia foi chato...”, no automático a tendência é competir com aquela colocação: “Você não sabe o que é um dia ruim, você não imagina o que é um dia chato, você cansado? Só brincou!”. Nesse automático, competimos com os nossos filhos e não acolhemos o nosso cansaço e o deles. A mudança está em: “Também estou cansado hoje, o que foi chato, como você lidou com a chatice, eu lido desta forma...”. Neste caminho construo troca, relação e desenvolvo com meu filho inúmeras habilidades humanas e comportamentais.
Ouvir um novo caminho, pode parecer utópico e pouco acessível, eu garanto que ele é possível e o futuro da humanidade se encontra aqui, pois como iniciei este conteúdo, os resultados atuais da sociedade adulta mostram o quanto nos falta saúde mental, emocional e habilidades socioemocionais. Não digo que é fácil, mas extremamente possível, e que o começo é ter consciência da mudança e depois praticar, até que se torne o seu natural.
