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Estado de Minas editorial

Prudência e responsabilidade

Com o mundo em conflito, o Brasil não conseguirá escapar das consequências indiretas


23/02/2022 04:00

O acirramento da crise na Ucrânia, ainda que numa escala comedida até o momento e sem evoluir para um conflito armado – que ainda não pode ser descartado –, terá impactos na economia global e consequentemente na brasileira. Por mais um ano, o Brasil deve conviver com pressão de preços e inflação acima do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. O primeiro impacto virá do aumento dos preços do petróleo no mercado internacional. Ontem, o barril do tipo brent era co- mercializado a US$ 93,28 no fim da tarde e a expectativa é que possa chegar a US$ 120, ou o dobro da cotação de US$ 60 o barril de antes do início da pandemia de COVID-19. Além do petróleo, a cotação do gás natural deve ser pressionada caso haja corte no fornecimento da Rússia para a Europa em virtude de sanções econômicas. A Rússia é o maior produtor mundial de gás natural. É preciso lembrar que uma das apostas do Brasil para baratear o custo da energia na transição energética são as térmicas a gás na- tural.

De maneira sensata, o Itamaraty se manifestou de forma favorável a uma solução diplomática para a crise na Ucrânia envolvendo os países associados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a Rússia. É a melhor postura para evitar impactos diretos de sanções econômicas aplicadas ao governo Vladimir Putin. Preserva ainda uma tradição da diplomacia brasileira de se pautar sempre pelas negociações e busca de acordos internacionais. Essa postura evitará respingos maiores sobre o Brasil de um possível conflito armado a 10.680 quilômetros de distância do nosso território.

Na conta do impacto na inflação entra ainda o aumento nos preços do trigo, uma vez que Rússia e Ucrânia respondem por cerca de 30% do trigo mundial, o que deve afetar a oferta e elevar o preço do grão. O que se pode imaginar é que combustíveis, energia elétrica e alimentos continuem pressionando os índices de inflação no Brasil. O mercado financeiro, se- mana a semana, eleva suas projeções para o IPCA, que, de acordo com o último Boletim Focus, está em 5,56%. Mas já há setores projetando 6% de inflação para este ano. Essa, sim, será uma guerra a ser travada pela equipe econômica para minimizar o impacto da crise na Ucrânia sobre os preços internos no Brasil. Como o ministério tem deixado essa luta apenas com o Banco Central, os juros vão continuar subindo e podem abater o otimismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, que insiste em afirmar que a economia brasileira vai crescer este ano.

Outro impacto do aumento dos preços do petróleo poder ser a anulação dos efeitos das medidas discutidas no Congresso para buscar um corte no valor dos combustíveis nos postos de abaste- cimento. Apenas no ano passado, o petróleo teve alta de 57% e caso chegue a US$ 120 terá sido reajustado em mais 48% em relação à cotação de US$ 81 o barril do tipo brent no fim do ano passado. Nesse caso, é preciso que o Congresso Nacional discuta de forma madura e responsável as medidas em pauta para beneficiar os consumidores. Podem tirar caixa dos estados e não conseguir que a gasolina fique mais barata nos postos.

Com o mundo em conflito, o Brasil não conseguirá escapar das consequências indiretas. Embora a Rússia represente apenas 0,6% das exportações brasileiras, é um grande mercado para produtos brasileiros como carne bovina, soja, carnes de frango e açúcar. Nesse momento, é preciso que o Brasil e suas instituições atuem de forma prudente e responsável. Prudente para se manter firme no propósito de negociação entre as partes, evitando se posicionar para um lado ou outro. E responsável para medir as consequências de medidas que possam ser tomadas agora, antes que se tenha uma visão mais clara de como serão encaminhadas as tensões no Leste da Europa, e que deixem sequelas na já fragilizada economia brasileira.


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