Aleluia Heringer Lisboa
Diretora de relações institucionais e ASG do Colégio Santo Agostinho
“A queda do céu” (2015), livro de David Kopenawa e Bruce Albert, é distinto. Feito de outras palavras e explicações sobre o mundo, diríamos outra cosmovisão. É preciso ler com abertura de mente e coração, além de se preparar para definições precisas daquilo que somos aos olhos dos ianomâmis.
Um grande enquadramento nos aponta como comedores de terra; que picam a floresta; rasgam seu chão; e a reviram como um bando de queixadas (porcos-do-mato). Quando ali se esgota o metal, deixam o rastro de sujeira nos rios e as epidemias. Minas Gerais sabe bem o que é isso. Schwarcz e Starling, no livro “Brasil: Uma biografia” (2015), relatam que, nas últimas décadas do século 18, o viajante sabia que tinha chegado às Minas “pela terra revolvida, esburacada, os morros escalavrados, os ribeirões turvos, os matagais dilapidados”. Hoje, a visão é a mesma. Permanecem os mesmos morros escalavrados, que, de tão esgarçados, já não mais se sustentam. Vamos dando conta de que, se tem alguém nu nessa história, não são eles, os povos da floresta, mas aquilo a que chamamos de civilização.
Uma segunda definição de como somos percebidos é “povos das mercadorias”. De fato, nossas experiências são todas mediadas e nossas vidas, dependentes de mercadorias, produtos e objetos. Essa foi, e continua sendo, a sedutora estratégia de abordagem utilizada nos primeiros encontros com os povos indígenas. Há uma leitura negativa desse gesto como algo corruptível e que obscurece os pensamentos. Os mais jovens deixam a roça, a caça e suas tradições e se distraem com aquilo que chega, inicialmente, sem esforço. Em suas mãos: rede, facão, cachaça, camisa, boné, biscoito etc. “No começo, são atraentes, mas se estragam depressa e, então, começamos a sentir falta delas! Só a floresta é um bem de alto valor”, diz David Kopenawa.
Especialmente preocupante é a fragilidade desses povos diante do avanço agressivo dos garimpeiros, madeireiros, colonos e fazendeiros, tudo sob o manto sagrado do desenvolvimento e da chancela do descaso. “É perigoso se opor aos garimpeiros. Eles são muitos e todos carregam facas, espingardas e revólveres. Também têm dinamite, aviões, helicóptero e rádios. Nós só temos nossos arcos e flechas.” Então, completa: “Não quero que os meus morem num resto de floresta, nem que nos tornemos restos de seres humanos”.
Para os ianomâmis, os brancos estão preocupados. A terra cada vez mais quente; por isso, “inventaram novas palavras” para proteger a floresta, como ecologia, natureza, meio ambiente. David diz que essas são palavras que já estavam no meio deles muito antes, só que chamavam de outro jeito. A ecologia não está fora deles, mas são eles próprios, tanto quanto os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o sol. Segundo ele, “tudo o que veio à existência na floresta, longe dos brancos; tudo que ainda não tem cerca”.
Antes que os brancos “acabem arrancando do solo até as raízes do céu”, Kopenawa, de forma perspicaz, faz contundentes alertas. O que ele diz, de seu jeito, se assemelha ao dizer dos ambientalistas, ativistas e climatologistas. Somos nós, a espécie Homo sapiens, a maior ameaça e que inviabilizará a vida no planeta Terra. Precisamos olhar, querendo de fato ver, não somente para cima, mas para todos os lados, para o céu, para as florestas, para as profundezas do mar e, principalmente, para dentro de nós mesmos.
