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Estado de Minas

A liberdade e as armas


13/07/2021 04:00





Antônio Rangel Bandeira
Ex-consultor da ONU e autor de “Armas para quê?”

Os Estados Unidos passaram por grandes avanços nos anos 60, com o início da luta contra o racismo, a eclosão dos movimentos feminista e contra a guerra do Vietnã. A reação dos interesses contrariados e dos setores conservadores foi violenta. John e Robert Kennedy foram assassinados, o mesmo sucedendo com Martin Luther King. Em consequência, governos do Partido Democrata aumentaram os controles de armas. A National Rifle Association (NRA), instrumento da rica indústria de armas, passou a financiar políticos para controlar o Congresso, e aumentou a propaganda. Mas como convencer os cristãos a defenderem as armas, em contradição com o mandamento de Cristo “não matarás”? Encobrindo as “armas” e focando na “liberdade”, esse conceito tão caro aos mineiros. Havia que se “defender a liberdade do cidadão contra o Estado opressor”, e por isso “os homens têm que se armar para defender sua liberdade”.

Com o crescimento dos massacres nos EUA, e o processo de corrupção contra o presidente da NRA, Wayne LaPierre, 90% dos americanos passaram a defender o controle de armas e a NRA perdeu boa parte de seus filiados. Mas essa entidade não deixou de tutelar o movimento armamentista brasileiro. O seu novo slogan é “Não é sobre armas. É sobre liberdade!”, tradução literal da propaganda da NRA.

Assim, torna cada vez mais realidade a crítica de George Orwell à ditadura soviética, que, em seu livro “1984”, analisou os efeitos terríveis da verdade substituída por seu oposto, atualizado nas fake news de Trump e Bolsonaro. Assim, nosso presidente, em nome da liberdade, tenta restringir a liberdade de imprensa e ataca as instituições democráticas. Em nome de uma liberdade absoluta, exige a liberdade de atuação dos garimpeiros e desmatadores, de os pais não dirigirem com seus bebês “presos” em cadeiras protetoras, de retirarem os filhos das escolas. Esconde que a liberdade absoluta é a selva, a lei do mais forte, a supressão dos direitos do outro, a ditadura. É fácil entender que não se pode ter liberdade de se dirigir em alta velocidade, ou comprar remédio tarja preta sem receita médica. Mais complexo é entender as consequências da “liberdade de ter armas sem controle”.

No último dia 9, celebrou-se o Dia Internacional de Destruição de Armas, proposto pelo Brasil à ONU. Como provocação, promoveu-se em Brasília um ato público para pressionar o STF a liberar os decretos presidenciais que retiram controles básicos sobre as armas. O principal orador foi o ex-deputado Roberto Jefferson, que esteve preso como figura central do mensalão. Gritaram: “Hoje, os bandidos têm acesso às armas e os homens de bem não, por isso é importante resgatar essa liberdade”. É verdade? Os bandidos nunca estiveram tão armados porque a apreensão de armas caiu vertiginosamente. Eles se abastecem com armas e munições roubadas das residências dos “homens de bem” (17 mil por ano, segundo a PF). As armas e munições apreendidas em crime não são rastreadas para se chegar aos bandidos porque o presidente anulou as portarias do Exército regulando o rastreamento. A CBC, maior fabricante de munição, não cumpre a lei quanto à marcação das munições vendidas para as polícias, possibilitando que sejam cada vez mais desviadas pela sua banda podre para as narcomilícias, como no assassinato da vereadora Marielle. Quanto à autodefesa, todas as pesquisas apontam que é uma ilusão. Em média, para cada tentativa bem-sucedida ocorrem 34 mortes de assaltados (Violence Policy Center), afora os riscos de se ter arma em casa: 40% dos feminicídios e uma criança morta por acidente a cada 23 dias (Associação Brasileira de Pediatria). A solução, apontada pelos países menos violentos, é melhorar a polícia, é governar com a ciência. Menos armas e mais vacinas!


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