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Come on, gringo!


19/06/2021 04:00 - atualizado 18/06/2021 22:42

Samuel Sampaio
Assessor da 3A Investimentos

Aentrada de capital estrangeiro, como o próprio nome sugere, refere-se à quantia ingressada no país pertencente a pessoas físicas ou jurídicas residentes, domiciliadas ou com sede no exterior. Esse movimento ocorre de quatro maneiras: investimento em moeda, conversão de créditos externos, importação de bens, e via mercado de capitais. Seus efeitos influenciam diretamente a demanda por moeda local e, por consequência, nossa taxa de câmbio, deteriorada no ano de 2020. Cabe enfatizar que, como bom emergente, o Brasil é dependente dessa forma de financiamento devido ao elevado custo de capital interno quando comparado aos nossos parceiros mais desenvolvidos.

Nesse complexo tema da economia, que encontra partidários e contendores, o recorte será feito no mercado de capitais, mais especificamente ao fluxo de divisas destinadas à bolsa de valores. Historicamente, tem-se uma máxima de que o estrangeiro dita o ritmo dos negócios e que sua entrada é sinônimo de alta expressiva. Entretanto, esse postulado deve ser digerido com cautela. Afinal, não se pode considerar apenas os mercados secundário e primário, os mais evidentes, mas temos também os futuros. Além disso, é possível com que um não brasileiro faça o movimento via banco local e essa entrada se misture com os nativos, ou seja, a base de dados não é limpa o suficiente para cravarmos uma relação direta. O time do fundo Versa, por exemplo, fez a experiência da correlação entre movimentos de alta do índice com fluxo positivo de moeda forasteira e o valor encontrado foi de 43%, sendo que é considerado forte correlação valores acima de 50%. Outros estudos publicados pela Revista Brasileira de Finanças, como Fluxo de capital estrangeiro e desempenho do Ibovespa, de Roberto Meurer, por exemplo, reforçam que essa relação de alta não é trivial e se confunde, muitas vezes, com o investidor internacional interpretando melhora da saúde macroeconômica local, de forma mais direta que o sentido do mercado de capitais em si. Essa ressalva não desmerece a análise de fluxo, que continua sendo ferramenta importante e muito utilizada pelos agentes de mercado, mas nada que envolve relações humanas é preto no branco.

Esclarecida essa parte, atenção para os últimos anos, os quais 2018, 2019 e 2020 foram deficitários de não residentes por aqui, com ênfase no primeiro semestre do ano passado, que foi um deus nos acuda, com saques superando os R$ 60 bilhões até junho. A pandemia e as medidas restritivas colocaram uma incerteza sem precedentes nas relações econômicas. O medo tomou conta das relações sociais e os resgates foram percebidos em todo o globo. Posteriormente, os mercados emergentes não tiveram o mesmo ímpeto de recuperação que os desenvolvidos; afinal, as discrepâncias nos prêmios de risco não justificavam. Por último, ainda entre as nações em ascensão, ficamos negativamente destacados, fruto de uma fragilidade fiscal agravada e uma política bastante controversa aos olhos do exterior até então. A situação só não foi pior porque nós, residentes, seguramos na unha o índice, reflexo de uma difusão maior de informações sobre mercado financeiro e crescentes pressões no CDI, que forçaram de certa forma o capital local para a renda variável.

Deixando o apocalipse financeiro no segundo semestre, mais precisamente nos derradeiros três meses do ano, percebemos uma inversão da corrente com novembro coroando quase R$ 34 bilhões entrantes, isso considerando somente os mercados primário e secundário, que são os mais populares entre o investidor médio que provavelmente está lendo.

Tendência essa evidenciada por um desfecho menos pior que o engendrado em meados de março – claro, em se tratando do campo financeiro, a tragédia humana é imensurável. Para incrementar o sentimento positivo, as primeiras campanhas de vacinação se instalaram em países como Estados Unidos e Inglaterra, gerando aquela típica sensação de luz no fim do túnel. Nas terras do Tio Sam, tivemos um desfecho eleitoral ameno sem a chamada onda azul, que seria a dominância total democrata, garantindo um equilíbrio que o mercado exigia. Por último e talvez mais importante para as bolsas globais, as políticas monetárias afrouxaram de forma exponencial e os mercados foram inundados de capital. De fato, as autoridades monetárias mundo afora não mediram esforços para estancar as sangrias e manter as expectativas em campo positivo.

Adicionando a realidade local a esses fatores universais, fica evidente o motivo de a tendência se intensificar de forma ainda mais explosiva no ano de 2021. O real brasileiro foi depreciado demasiadamente, até se comparado aos seus pares, barateando o capital externo. Soma-se a isso um ciclo de commodities conduzindo o excesso de capital gerado e a retomada inerente que, organicamente, vai demandar por insumos básicos. Além disso, temos a política keynesiana colocando dominância fiscal em países como a China, que pretendem financiar projetos internos de infraestrutura e logística no intuito de assumir a liderança econômica global. Nessa breve descrição o assunto abordado indiretamente é minério, petróleo e também alimentos. Consegue imaginar um cenário mais Brasil que esse? 

O resultado vem sendo evidenciado pelo saldo do ano, com ponta comprada estrangeira acumulando mais de R$ 44 bilhões.

Esclarecido o caminho para um 2021 positivo, é necessário fortificar os pilares que o momento carece. Primeiro, a vacinação em massa para acabar com as restrições de mobilidade e, obviamente, pôr um fim a essa tragédia. Segundo, o governo não pode se envenenar com o populismo e descuidar das contas públicas. Mesmo com revisões de PIB positivas, a situação da dívida não permite desleixo. Por último, vale lembrar que o cenário é válido para tudo mais constante, pois eventos inesperados e imprevisíveis, como o mercado financeiro gosta de referendar os cisnes negros de Taleb, podem acontecer a qualquer momento e apenas uma estratégia diligente é capaz de enfrentar períodos turbulentos.


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