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Morrer de amor


14/06/2021 04:00

Marcelo Galuppo
Filósofo e professor universitário

Psicólogos, sociólogos e filósofos decretaram o fim do amor romântico. Ele seria fruto de uma ilusão limitadora da existência humana, que não corresponde à realidade, fruto de interesses de classe e da dominação que homens exercem sobre mulheres e que pessoas cisgênero exercem sobre as demais. Tudo isso é verdade. Existe uma ilusão por trás da ideia romântica de que somente uma pessoa pode ocupar o lugar daquele que me faz feliz, essa ilusão produz muitas vezes mais sofrimento do que felicidade para aqueles que a alimentam, e ainda que mesmo na antiguidade houvesse exemplos de homens e mulheres que se amavam, é a burguesia, durante o Romantismo, que desenvolveu todo um ritual em torno da identificação, da corte e da relação de uma casal heterossexual, que acaba servindo a interesses machistas e frustrantes para mulheres e a população LGBT. No entanto, as pessoas continuam se casando, passando pelos mesmos rituais que criticaram. E a crença no amor romântico não é uma prerrogativa de pessoas ingênuas: intelectuais e pensadores de todos os tempos viveram em busca do amor romântico, e alguns o atingiram.

Não sei dizer se Freud acreditava no amor romântico, mas ele falava de ternura entre um casal, como “desvio da meta” da pulsão sexual. Freud foi casado com Martha Bernays por toda a vida, durante 53 anos, e sua correspondência com sua mulher, durante seu noivado de quatro anos, mostra um casal afetuoso e empenhado com a felicidade do outro, ainda que ele fosse dominado pelo ciúme. E a “ternura” que unia o casal perdura mesmo após a morte de ambos: suas cinzas repousam misturadas em um vaso grego (Freud era um grande colecionador de antiguidades gregas) no Golders Green Crematorium, em Londres.

Talvez o exemplo mais bem sucedido de um amor como esse no século 21 tenha sido o do escritor franco-austríaco André Gorz (um pensador existencialista de esquerda, romancista, que depois inspirou os movimentos de maio de 1968 na França e se converteu ao movimento ecológico nos anos 70) e sua mulher, Dorine, com quem foi casado por 58 anos. Em 2006, Gorz publicou seu último livro, “Carta a D.” (publicada no Brasil pela Companhia das Letras), em que tornou públicas a profundidade e a amplitude do amor que nutriram um pelo outro. Poucos meses depois, em setembro de 2007, uma vizinha encontrou um cartaz afixado na casa do casal: “Avisar a polícia – há cartas que explicam tudo”.  André e Dorine haviam se suicidado. Ela sofria há anos de uma doença degenerativa, e agora, acometida de câncer, seu sofrimento era enorme; mas o sofrimento de Gorz era ainda maior: vê-la sofrer, e imaginar-se vivo sem ela, tirava-lhe o chão. Toda relação amorosa chega a um fim, ou porque um dos amantes não deseja mais aquela relação e parte, ou porque um deles morre. André Gorz sabia que não era possível mudar o destino, mas acreditava que era possível contorná-lo, se ambos morressem juntos.

Há uma lição de “Carta a D.” que talvez seja útil ainda hoje, que ajuda a ressignificar o amor romântico para nós. Gorz diz que, durante toda sua juventude, ele imaginava que não havia nada de interessante em um “amor tranquilo, com sabor de fruta mordida”, como dizia Cazuza. Um romance exigiria amores impossíveis, traições, desejo selvagem... Mas à medida que amadureceu, Gorz percebeu que sua felicidade, a felicidade deles, foi produzida exatamente por uma vida oposta a essa. A lição de Gorz e Dorine é que o segredo do amor está, não nas coisas extraordinárias, mas nas coisas ordinárias, no comum da vida, no cotidiano. E é somente por isso que o amor ainda é possível para todos nós.


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