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Estado de Minas editorial

Seca de planejamento


09/06/2021 04:00

O Brasil mais uma vez inicia o período de estiagem nas regiões Sudeste e Centro-Oeste com reservatórios de usinas hidrelétricas com nível de armazenamento abaixo do esperado, elevando o risco de problemas hidrológicos na geração de energia elétrica e nos outros usos da água. Pode-se até imputar a culpa por essa situação à seca, a maior em cerca de 100 anos, mas é muito difícil não responsabilizar a falta de planejamento e de investimentos na diversificação das fontes para suprimento da energia que o país necessita para crescer de forma efetiva. Não é uma situação nova. Há exatos 20 anos, o Brasil enfrentava o racionamento de energia elétrica sob a ameaça de apagões. Em maio de 2001, os reservatórios das hidrelétricas da região estavam com 29,9% de sua capacidade de armazenamento e agora, ao fim do mês passado, estavam com 32,1%. Juntas, essas hidrelétricas respondem por cerca de 70% da geração de energia do país.

Diferentemente de 2001, quando havia risco de desabastecimento, agora essa ameaça é muito baixa. Mas a que custo? Para evitar um racionamento, que, além de derrubar a popularidade de qualquer governo tem efeito negativo sobre o crescimento do PIB – em 2001, a expectativa era de uma alta de 4,5%, mas ficou em 1,5% e em 2002 as urnas reagiram –, o governo acionou as térmicas em outubro e autorizou importação, sem limitação, de energia da Argentina e do Uruguai. A conta está sendo paga por consumidores e empresas via bandeira tarifária vermelha no patamar mais alto. E mais uma vez ficamos à mercê do clima e de chuvas acima da média no período seco.
 

A crise hídrica expõe o conflito de interesses em relação aos diversos usos da água, que abastece cidades, irriga lavouras, serve de via para transporte de mercadorias e é fonte de energia

 
Não bastasse o risco de apagões, que se popularizaram no país ou em alguns estados nos últimos anos, a crise hídrica expõe o conflito de interesses em relação aos diversos usos da água, que abastece as cidades (residências, indústrias e serviços), irriga as lavouras, serve de via para transporte de mercadorias e é fonte para geração de energia elétrica. Ao expor para a Agência Nacional das Águas (ANA) a situação na Bacia do Rio Paraná, o Operador Nacional do Sistema Nacional (ONS) solicitou a redução no volume de liberação nos reservatórios na bacia hidrográfica, que sozinha corresponde a 53% da capacidade de armazenamento de água do país.

Ocorre que não só usinas hidrelétricas dependem das águas da Bacia do Rio Paraná, que é também um corredor de transporte formado pela hidrovia Tietê-Paraná, com movimento de pouco mais de 2 milhões de toneladas de produtos, e pela hidrovia Paraná-Paraguai, fundamental para o escoamento da safra de grãos do Centro-Oeste para o Sul do continente. Reduzir a vazão nos reservatórios pode comprometer essas outras atividades e a ANA já tem uma sala de crise instalada para discutir exatamente a melhor forma de controlar a vazão dos reservatórios no período seco.

O alerta do ONS é de que os reservatórios de oito usinas na Bacia do Paraná podem chegar ao fim do período seco próximo do colapso, com 2% ou menos de água armazenada. Nesse quadro, nem geração de energia elétrica, nem navegabilidade serão possíveis. É inadmissível que efetivamente se chegue a esse ponto e são urgentes as medidas para assegurar o abastecimento de energia elétrica e de água. O acionamento das térmicas terá de ocorrer por um período mais longo, assim como o uso de fontes eólicas e solares tem que estar no máximo da capacidade de cada uma delas para se preservar a operacionalidade dessas usinas e os diversos usos da água que chega até elas. Torcer por um improvável período seco com mais chuvas não é o mais aconselhável agora.


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