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Quando se mata uma mãe


11/05/2021 04:00

Maria Inês Vasconcelos
Advogada, pesquisadora, professora universitária e escritora

O escritor russo Leon Tolstói já dizia “todas as famílias são infelizes, cada uma à sua maneira”.  O homicídio de Lorenza Maria Silva Pinho, ocorrido em Belo Horizonte, é mais uma daquelas tragédias anunciadas, que transformam o mês de maio, dedicado às mães, imensamente triste. A brutalidade deste crime praticado, em tese, com as mãos, sem a sonoridade de uma bala de revólver, causou um estampido ainda maior, pelas circunstâncias em que ocorreu.

A morte de uma mãe de cinco filhos é algo que nos deixa perplexos e nos remete ao mundo que muitas mulheres brasileiras vivem: um espaço de camuflagem, oco, cheio de medo e riscos, extremamente solitário.

Ainda que algumas albergadas pela Lei Maria da Penha ou por outros meios, todas essas blindagens, de certa forma quando se pensa nas vítimas de feminicídio, são ainda pequenas. A morte de uma mãe, no curso do casamento, nos mostra um lugar comum que muitos não querem ver. A tragédia dos casamentos já acabados, palco de cenas de violência, onde álcool, droga e doenças mentais, geralmente estão presentes.

E isso ocorre, em todas as classes sociais, em todos os graus de instrução e nos lugares mais improváveis. A morte não escolhe suas vítimas pelo IBGE, ou se baseia em qualquer dado. A morte é consequência da violência.

A ansiedade coletiva produzida por esse crime fez surgir novos grupos nas redes sociais que buscam soluções na transdisciplinaridade para enfrentar esse tipo covarde de matar.

Partiu-se para uma visão mais ampla, na qual a educação desde a escola, a humanização do atendimento, o acolhimento às vítimas por profissionais qualificados inclusive no plano psiquiátrico e psicoterapêutico, no apoio e amparo às que denunciam violência e sobretudo, políticas públicas, sejam bases para a construção de um cerco em torno de tais crimes que podem ser prevenidos. O mantra é de incentivar o cerco à violência, sempre a porta de entrada da morte.

Morre uma mulher a cada oito horas no Brasil e em 2020, só no primeiro semestre foram 652 mortes. Oitenta por cento das vítimas eram casadas e centenas são mães. Todas presas nesses casamentos que insistem em se manter, numa ornamentação cujo arranjo é extremamente perigoso.

Não é só Belo Horizonte que chora essa morte tão brutal como a de Lorenza. A sociedade toda inquieta num movimento em defesa da vida. Neste quadrante, a multiplicação da força é algo que dá fôlego.

Não basta só dizer que há casamentos perigosos. Que o caráter mútuo e relacional é substituído por outras forças que roubam a gênese daquilo que se entende por casamento. Casar não pode se transmutar em pulsão de matar. A trajetória de um casamento e de duas vidas não pode perdurar até tal estágio. 

A perda dessa mãe e de outras mães de maio vai deixando uma rachadura social. Um rasgo no peito da democracia e uma chamada para a prática de medidas que permitam o exercício da cidadania feminina, da própria maternidade.

Não há consolo com o vazio dessa morte, que segue nos desafiando. Nós a perseguimos, tentando pela Justiça reduzi-la. Essa e todas as perdas de mulheres e mães, por homicídio, perpetuam-se trazendo uma inquietude e uma tristeza enorme.

“Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.”

(Carlos Drummond de Andrade)


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