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Triunfo da moderação


10/12/2020 04:00

Márcio Coimbra
Coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em ação política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007), ex-diretor da Apex-Brasil e diretor-executivo do Interlegis no Senado Federal


ACM Neto diz que a Presidência tem um poder muito forte, logo, o presidente não pode ser descartado como um grande jogador na próxima campanha presidencial. A frase faz sentido, mas depende também de quem ocupa essa cadeira. Bolsonaro é um tipo intuitivo, porém pouco estratégico. Apesar de sua caneta ter um peso que pode alterar a campanha presidencial a seu favor, nada impede que consiga usar esse poder contra si mesmo.

Depois de uma campanha municipal em que o bolsonarismo mostrou que não tem enraizamento na sociedade e a esquerda foi surrada pelo eleitor, o centro moderado surge como uma solução razoável. A população mandou um claro recado pelas urnas. Está cansada da polarização e da guerra de narrativas. As pessoas pediram prudência, experiência, ponderação. Nada do que o ciclo eleitoral anterior havia proporcionado.

A pergunta que surge é de onde virá este movimento ao centro. A opção de Moro pela iniciativa privada praticamente sela seu futuro longe da política. Isso muda a dinâmica do jogo e a política tradicional sente-se mais confortável para jogar de acordo com as suas regras, calculando a campanha presidencial à sua imagem e semelhança. Diante de dois polos antagônicos, esquerda e direita bolsonarista, surge um caminho livre no centro para essas forças políticas transitarem.

Apesar da caneta, Bolsonaro deve chegar enfraquecido em 2022. Diante de uma situação fiscal desesperadora, o governo não tem muitas opções. Sem projetos, base política ou direcionamento definido, o governo segue perdido, sem agenda real. Se no passado tinha projeto sem base de apoio, hoje tem uma base aliada contrária aos projetos. A tendência é o governo seguir o mesmo rumo até seu final, sem grandes realizações ou profundas reformas estruturantes.

Bolsonaro deve chegar em 2022 com apoio de sua base fiel, cercado de militares e dependente político do Centrão. Uma equação que não garante os votos capazes de colocá-lo no segundo turno. Terá perdido ao longo dos quatro anos o eleitorado antipetista, conservador, liberal e lava-jatista, a exata onda que conseguiu surfar em 2018 e lhe entregou a vitória em uma bandeja de prata sem qualquer esforço. Depois de chegar ao Planalto e sonhar que liderava um movimento, rifou a agenda e os grupos que o apoiaram. Sem eles, entretanto, não será reconduzido.

Aquele que souber transitar pelo centro, de forma ponderada, terá grandes chances de chegar ao segundo turno. Uma aliança entre tucanos e democratas parece inevitável, com partidos do Centrão fisiológico divididos entre a direita bolsonarista e o centro moderado. Nas esquerdas, uma acomodação em torno de Boulos começa a se desenhar. Em linhas gerais, esse é o cenário que teremos adiante, em 2022.

O eleitorado cansou. A guerra de narrativas, polarização, terraplanismo, lulopetismo, bolsonarismo, antipolítica serão rejeitadas pelo eleitor, assim como vimos neste ano. Aqueles que não souberem se reinventar serão tragados pela onda da moderação, experiência e prudência. Uma antítese dos tempos egonegacionistas que vivemos.


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