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Farinha pouca, meu pirão primeiro


08/11/2020 04:00

Ricardo Viveiros
Jornalista e escritor, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da União Brasileira de Escritores (UBE)

Testemunha relevante em processo contra o ex-prefeito do Rio de Janeiro (RJ) Eduardo Paes (DEM), que tenta se reeleger, o ex-diretor da empreiteira Odebrecht, Leandro Azevedo, declara que há equívocos na acusação do Ministério Público contra o político carioca. Segundo a defesa de Azevedo, os R$ 10,8 milhões pagos a Paes na campanha eleitoral de 2012 foram caixa 2, e não "corrupção buscando vantagem futura". Então, caixa 2 pode, não é crime?

Você que trabalha e procura cumprir com os seus compromissos, tem a ética como princípio, enfim, é uma pessoa normal, consegue tolerar a corrupção? Atos de improbidade não lhe causam indignação? Malandragem lhe parece algo até inteligente, engraçado? Se a resposta for "claro que não!", você está fora da média dos brasileiros. Surpreso? Pois saiba, você é uma pessoa rara neste país tropical.

O Ibope realizou pesquisa em 2006, até hoje nunca debatida e comentada como deveria ter sido, sob o tema "Corrupção na política: eleitor, vítima ou cúmplice?". À época, foram ouvidas, em todo o Brasil, duas mil pessoas. O resultado apontou que 75% dos brasileiros admitiam, se ocupantes de cargos públicos em qualquer nível, cometer algum tipo de irregularidade.

A grande maioria aceitava a antiga prática do "rouba, mas faz". E não só admitia, como era conivente com a falta de seriedade no trato da coisa pública. O resultado da pesquisa foi surpreendente até para alguns ainda otimistas: apontava que sete em cada 10 brasileiros cometiam algum tipo de transgressão no dia a dia. Entre os "crimes delicados": sonegação de impostos; compra e uso de produtos piratas; suborno de guarda de trânsito ou rodoviário para fugir às multas; falsificação de documentos; e ligações clandestinas – "gatos" – de serviços públicos e privados (luz, água, televisão a cabo etc.).

O instituto de pesquisas fez, também, uma simulação na qual o entrevistado projetava tais ilícitos para as pessoas do seu conhecimento pessoal. Resultado: 98% achavam que os seus amigos eram capazes de fazer a mesma coisa. E se você imagina que os jovens seriam uma esperança para melhor, engana-se. Segundo a pesquisa, 87% deles aceitavam práticas desonestas como parte da realidade. Assim como o bordão do personagem Tavares, criação do saudoso Chico Anísio: "Sou, mas, quem não é?".

Estava constatada a cultura da corrupção no Brasil. Não foi uma novidade há 14 anos, como também não deve ter mudado, embora tudo o que aconteceu desde então. Afinal, "o exemplo vem de cima", diz a sabedoria popular. Cabe, portanto, preocupar-nos com o resultado das urnas na eleição de vereadores e prefeitos deste ano. O povo mais uma vez poderá votar em si mesmo, optando apenas pelo assistencialismo do bolsa, vale ou auxílio isso e/ou aquilo. Quando deveria votar contra o mar de lama que surgiu lá no passado distante, continua caudaloso e está se cristalizando, tornando-se algo "aceitável" no triste cenário político nacional.

Não ao conformismo, essa absurda tendência crônica de uma sociedade que, historicamente, não tem direito à cultura e à educação de qualidade e, portanto, é corrompida por esmolas governamentais. Iniciativas populistas feitas com recursos de um crescente confisco tributário sobre os que produzem e geram empregos, nos quais, com dignidade e por mérito próprio, os trabalhadores podem conquistar sua legítima renda.

É preciso votar com coragem e responsavelmente. Honrar a liberdade de escolher parlamentares e executivos que tenham o compromisso de trabalhar apenas e tão somente pelo interesse coletivo.


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