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A esquerda sem palavras?

Parte significativa da esquerda progressista mundial não consegue produzir sentidos compartilhados


06/10/2020 04:00

Ricardo Fabrino Mendonça
Professor, doutor do DCP/UFMG, pesquisador do CNPq e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital


O clássico infantil de Ruth Rocha Marcelo, martelo, marmelo nunca saiu da minha cabeça. Para quem não se lembra, o livro conta a história do menino Marcelo, que quer entender a lógica pela qual se definem os nomes das coisas. "Por que martelo se chama martelo?", insistia a criança curiosa.

Intrigado com a arbitrariedade das palavras, Marcelo se põe a recriar termos para designar os objetos de seu mundo. Até que a casa do cachorro pega fogo, mas ninguém entende a gritaria do menino, que insiste em dizer que "embrasou a moradeira do Latildo". A moral da história, se assim se pode dizer, é simples: por mais que tenha sido inventada, a linguagem só faz sentido se compartilhada.

E o que isso tem a ver com a esquerda e a política contemporânea? Tudo e mais um pouco. O enfraquecimento recente da esquerda em diversos países não diz apenas de derrotas eleitorais, crises econômicas e uma sensação de instabilidade e perda de referências. Ela é, também e fundamentalmente, uma derrota no campo da linguagem. Essa derrota não se resume, contudo, a uma espécie de batalha em que uma "narrativa" vence a outra. A derrota parece mais estrutural, na medida em que uma parte significativa da esquerda progressista mundial não consegue produzir sentidos compartilhados; não consegue fazer sentido para os outros e dizer de coisas que os afligem no cotidiano.

Essa dificuldade está conectada a dois processos interligados. O primeiro deles nasce de uma espécie de sequestro dos significantes. Termos que sempre foram centrais para reflexões da esquerda foram profunda e estruturalmente ressignificados, sendo evitados, abandonados ou usados sem conseguir despertar os sentimentos e significados almejados. Pense-se no combate à corrupção, nos direitos humanos, no fascismo ou na própria igualdade de gênero. Como num mundo bizarro às avessas, para impedir perseguição ideológica professores precisam lutar contra "a escola sem partido". Quem se declara antifascista é tomado como terrorista... Nesse sequestro dos significantes, em que se fala pelo avesso, a esquerda viu-se, frequentemente, tateando o mundo em busca de termos. Sem palavras, perdeu não apenas a capacidade de dizer, mas de entender claramente o que quer dizer e, assim, de fazer propostas claras e consistentes no endereçamento efetivo dos buracos colossais em que a humanidade vai se metendo.

É aí que aparece o segundo processo. Na busca incessante pelo dizer (que é sempre também uma busca pelo pensar), parte não desprezível da esquerda contemporânea resolveu inventar outros termos e palavras. Tal qual o menino Marcelo, essa esquerda investe na criação verborrágica e complexa de conceitos herméticos não totalmente claros aos próprios pensadores e absolutamente opacos a quem ainda não está convencido. Eles alimentam as tretas internas da própria esquerda, mas não geram o compartilhamento necessário para fazer sentido. E mesmo que se insista que essa potência criativa é essencial à estruturação de algo essencialmente novo, é curioso que se esqueça com tanta facilidade o que dizia Bakhtin, um linguista russo do início do século 20 que é caro ao próprio pensamento da esquerda: conflitos sociais não se dão apenas com palavras, mas pelas palavras. Sem disputar sentidos e termos capazes de tocar as pessoas, muita gente da esquerda continuará na autolamentação de não se fazer compreendida. Continuará a berrar que "a moradeira embrasou", sem jogar um balde de água na fogueira.


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