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Estado de Minas

Na onda da mineração

O setor mineral, além da solidariedade que tem praticado nesta crise, precisa ampliar o seu envolvimento na geração de riquezas do Brasil


postado em 11/07/2020 04:00

Luís Mauricio F. Azevedo
Vice-presidente da Comissão de Mineração da CNI

Fernando Coura
Presidente do Sindiextra-MG
 
este momento em que paí- ses se enfrentam na dúvida sobre retomar a normalidade ou manter o isolamento social para reduzir o contágio na pandemia mundial do novo corona-vírus, nossos líderes se dividem entre aqueles que se dedicam a agir e os que simplesmente somem do cenário. Inúmeros exemplos de superação e solidariedade estão acontecendo em todo o mundo.
 
De onde menos se espera, ali brota a esperança. Essa é a marca do nosso povo. Na mineração não está sendo diferente, pois estamos agindo com total solidariedade.
 
Se crescem os números de casos de contaminação e mortes advindos da COVID-19, crescem, na mesma proporção, as iniciativas empresariais como uma resposta à sociedade diante do caos da saúde e da ausência de ações coordenadas de enfrentamento. Exemplo dessa proatividade do segmento privado é a multiplicação, nas mineradoras, de distribuição de equipamentos de proteção individual e dos testes para detecção do vírus pandêmico.
 
Solidariedade. Se olharmos o setor mineral com os "óculos do tempo", vemos que, depois de ter sido apontado como vilão durante anos, o segmento dá provas ímpares de solidariedade. A Vale, depois de anunciar investimentos de US$ 2 bilhões em redução de carbono, foi, nesta semana, apontada como a segunda maior doadora, juntamente com o Sesi/Senai, quinto maior doador para ações de tratamento de vítimas da COVID-19, pela revista Forbes – um total de R$ 500 milhões e R$ 63 mi- lhões, respectivamente.
 
E mais: a Anglo American, além de doar R$ 20 mi- lhões ao combate à pandemia, anuncia mais R$ 2,4 bilhões de investimento em energia renovável, demonstrando o seu compromisso com a sustentabilidade do planeta, que passarão a corresponder a 30% de sua matriz; o Grupo Votorantin doou cerca de R$ 50 milhões para ações relacionadas ao combate ao contágio do novo coronavírus; a Mine- ração Rio do Norte , R$ 4 milhões; e a Kinross, por sua vez , repassou R$ 2,5 milhões em Minas Gerais. Tudo isso mostra as mudanças e o reposicionamento das empresas, numa transformação que a sociedade e as lideranças de defesa do meio ambiente reconhecem, e são as grandes beneficiadas.
 
O mais importante está por vir. O maior desafio a enfrentar é sair da crise e recuperar as perdas desse período. Crise advinda do necessário isolamento social, do consequente desemprego causado pela desaceleração econômica.
 
Infelizmente, alguns setores da sociedade e diversos formadores de opinião não percebem a nossa mudança de atitudes. Apoiam-se em crenças superadas pelo conhecimento científico e desviam-se das ações objetivas e necessárias num grave momento social como este, de escala global. Todavia, esses grupos são uma minoria que caminha na contracorrente de uma sociedade visivelmente solidária.
 
Nossa sociedade está dividida quanto às perspectivas do futuro. Uns acreditam que tudo isso, em algum momento, vai passar. Outros apostam que as mudanças vieram para ficar. Contudo, é inegável que a pandemia mudou nosso mundo e nos transformou como pessoas.
 
Hoje, quatro meses depois de o vírus chegar ao Brasil, percebemos que o que parecia um tsunami, a bem da verdade pode ser o novo nível da maré. Não teremos nossa vida de volta como era antes, até porque não resgataremos os milhares de vidas que se foram sem ao menos nos despedir.
 
Compartilhar riquezas. A mineração, é inegável, pode ter um papel fundamental na superação deste agravado quadro social. É nossa obrigação não permitir que essa fragilidade se eternize, que sejamos sempre reféns dessa onda. Para tanto, sabemos a receita, ainda que não a pratiquemos: reduzir as dife-renças e a trincheira social do nosso país!
 
Inexiste outra atividade capaz de gerar tanta riqueza e usar tão pouco espaço na terra. Porém, os recursos minerais são finitos.
 
Portanto, no aproveitamento desses recursos, os protagonistas do setor não podem estar sujeitos a operadores incompetentes ou ser submetidos a maus administradores públicos. Cabe à administração pública apoiar a população na fiscalização e na cobrança do uso adequado e aplicação das ri- quezas minerais do Brasil.
 
É possível construir um novo acordo em nossa sociedade e despertar para uma nova dinâmica econômico-social. E, talvez, a melhor forma de distribuirmos a responsabilidade que nos cabe na sociedade brasileira seja dividir entre diversos parceiros o ganho e o risco da atividade mineral.
Um bom exemplo dessa coparticipação na            responsabilidade dos investimentos minerais surgiu recentemente. A mídia anuncia a primeira junior company a fazer uma captação no mercado brasileiro – a Aura Minerals. A empresa é do grupo que criou a Yamana Gold, que vale hoje C$ 7 bilhões (dólares canadenses) e nasceu com o valor de C$ 100 milhões em 2003.
 
É uma oportunidade única, pois, administrada por brasileiros, a Aura detém ativos majoritariamente nacionais em operação e uma outra parte desses ativos para serem desenvolvidos. Além disso, a empresa diversifica seus riscos com atividades nos EUA, Colômbia, Honduras e México.
 
Por que vislumbramos uma oportunidade? Porque os eventuais ganhos do setor poderão ser acessíveis aos investidores brasileiros em todos os passos da participação da Aura na bolsa de va- lores (B3), e o desenvolvimento chegará igualmente aos locais das minas de Almas, Matupá, Ernesto e Pau a Pique, ou seja, é o capital brasileiro ajudando a desenvolver o Brasil!
 
Esse tem sido, exatamente, o diferencial de paí- ses como Canadá e Austrália, onde a mineração se desenvolveu exponencialmente, pois, lá, esses ga- nhos foram divididos, principalmente, entre os cidadãos daqueles países. Tomemos como exemplo a Yamana, com ativos brasileiros. A empresa foi listada na Bolsa de Valores do Canadá e os acionistas que investiram, naquela oportunidade, C$ 1.000, em 2003, hoje, possuem quase C$ 7.000, sem contar os dividendos recebidos anualmente entre 0,8% e 3,8% ao ano, nos últimos 17 anos.
 
Então, é importante alertar: enquanto nosso país não acordar para a importância do setor mineral, e construir modelo econômico como o do Canadá ou da Austrália, esse ganho terá usufruto apenas dos investidores estrangeiros, que já participam dessa modalidade de investimento. Sua adoção no Brasil, no entanto, pode ser uma oferta de oportunidades que podem ser compartilhadas com os brasileiros.
Credit Swiss, XP, Safra e Itaú são grandes agentes financeiros por trás desta iniciativa da Aura, e são os responsáveis pelo processo de listagem na B3, em São Paulo. Infelizmente, esta é uma rara e isolada oportunidade, enquanto nosso país não adotar uma política de prioridade para o setor mineral, pois o setor financeiro raramente vai se interessar por oportunidades de risco sem tradição. E, se o faz pela Aura, é porque a empresa contém ativos maduros, oferece baixo risco e entrou no mercado com atores co- nhecidos. Num momento de baixas taxas de juros, esses agentes despertam para a mineração como forma de remunerar os brasileiros num novo momento da economia nacional marcado pela baixa dos juros.
 
A onda. O desafio é fomentar outras "Auras" e desenvolver no mercado brasileiro um conhecimento sobre como são instituídos esses ativos e como eles se tornam atrativos para os bancos e para as corretoras. A fórmula é muito mais simples do que parece.
 
Com uma política de incentivo fiscal adequada e a instituição de uma bolsa de valores especializada nos ativos minerais, será possível aumentar a diversidade de oportunidades e a oferta de bens mi- nerais. Assim fazem o Canadá, a Austrália e a Grã-Bretanha. Mais recentemente, Peru e Chile se integraram a essa prática.
 
Dessa forma, obtém-se uma relação ganha-ga- nha generalizada, em que, com um ambiente de negócios dinâmico, geram-se empregos (técnicos, geólogos, engenheiros, advogados, contadores e trabalhadores qualificados em geral), impostos, internalização de progresso, desenvolvimento e, principalmente, a valorização das ações e da renda como da Yamana. Ali, 49% das ações estão nas mãos de investidores individuais canadenses e americanos, que reinvestem tais recursos no país, nesse caso Canadá e EUA, onde está listada e onde são residentes.
 
Caso contrário, se insistirmos no modelo atual, como defendem algumas lideranças ao privilegiar acordos com bolsas estrangeiras, continuaremos a ser um país de raras e escassas oportunidades no aproveitamento das nossas riquezas. E, quando as identificarmos, dividiremos exclusivamente os bons frutos com estrangeiros, porque não estaremos maduros e hábeis o suficiente para oferecer oportunidades semelhantes aos brasileiros.
 
Torcemos pelo sucesso do lançamento da Aura. Que sua entrada na bolsa de valores no Brasil acorde nossos líderes políticos e empresariais, de tal modo que essa onda que se aproxima agora possa ser surfada por nós, e não nos afogue na perda da oportunidade do crescimento e da saída da crise econômica que vivemos de forma pujante e competitiva.


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