Fábio P. Doyle
Da Academia Mineira de Letras
Jornalista
Há silêncio nas ruas. Há preocupação e tristeza nos poucos que saem de suas casas, em confinamentos que não acabam. Comércio fechado. Indústrias também. Empresas, como as jornalísticas, no sistema home office.
Que falta faz a liberdade, o direito de ir e vir. Falta da corrida matutina para não perder a hora no dentista, no trabalho. Falta até de xingar motoristas lerdos que engarrafam a Raja no horário do pilates da fisioterapeuta Fabiana Monteiro.
O que aconteceu? Estamos sob a ameaça de um tipo de pneumonia misterioso. O mundo, assustado, parou. O Brasil, também. Sabe-se, apenas, que a doença começou em uma província chinesa e foi mantida em sigilo pela ditadura comunista daquele país. O médico que a descobriu, dr. Li Wenliang, fez a comunicação devida, mas foi punido, sob o argumento de que a divulgação prejudicaria o regime!
Virótica, com origem suposta em laboratórios ou em pesquisas que lá são feitas, de forma até cruel, com animais, no caso cobra e morcego, a doença, a COVID-19, virou segredo de Estado de dezembro de 2019 até fevereiro de 2020, o que retardou medidas de prevenção. Transmitida pelos que tiveram contato com os primeiros enfermos, espalhou-se pelo mundo, causando mortes e pânico. Entre os que morreram, vítima do mal que descobriu e divulgou, o médico punido, hoje um símbolo da ciência mundial.
Os que gostam de justificativas para a adversidade dizem que a crise mundial, provocada pelo vírus do morcego chinês, foi uma "sábia lição de vida". Um alerta para a necessidade de serem valorizados conceitos relacionados com a convivência em geral, especialmente a familiar, a social, a de todos os povos, que são dependentes uns dos outros. Para nos ensinar que a obsessão pelo poder, pelo lucro, pelo dinheiro não leva a lugar nenhum, pois o fim de tudo será o mesmo para todos.
Deixem os moralistas, autênticos ou falsos, com suas teses, fazendo votos para que tenham sucesso. Afinal, qual o mestre maior, autor da "sábia lição de vida" que tantos sofrimentos, tantas perdas, tantas angústias, tanta depressão tem causado? Quem criou a praga que nos amedronta e mata, a peste virótica ainda sem cura? Por que tanta maldade com o pobre ser humano? Só para dar "uma sábia lição de vida", que não vai mudar nada?
Aqui do meu canto de quarentena, perplexo e revoltado, só posso mandar o responsável por tudo isso, pela crise, pela dor, pelo sofrimento, pelo novo coronavírus, engolir e se sufocar com suas lições de araque. Não posso mandá-lo para o inferno, pois já deve estar lá.
Diante de tantas crises, uma sugestão. Desligue suas TVs, silencie as vozes agudas (que falta faz a Íris Lettieri!) que repetem o que já sabemos sobre o vírus chinês. Mude de assunto, conte casos engraçados, ria, sorria, dê gargalhadas. Para chorar, para nos entristecer, já temos motivos bastantes. O riso, a alegria, a descontração, curam todos os males. Até aquele.
Demorou
Enfim, a paz voltou aos quartéis planaltinos. Mandetta, o ex-ministro da Saúde, o que mais confusão e divergências provocou, caiu de quatro e foi substituído. Em seu lugar, está agora um respeitado e austero médico oncologista, Nelson Luiz Sperle Teich, com o apoio da Associação Médica Brasileira e de toda a classe. Bolsonaro foi paciente demais. Mandetta, em entrevistas diárias e demoradas, falava de tudo e muito pouco sobre a pandemia virótica, sempre alfinetando o presidente que o nomeou. Nas mais recentes, abusou da insolência, dizem que para ser demitido e posar de herói, o que o ajudaria a disputar o governo de Mato Grosso. Não conseguiu. Bolsonaro foi educado e elegante ao comunicar, em discurso de estadista, tranquilo, de improviso, sua substituição. Que demorou. Como comentou uma amiga muito querida e lúcida: "O traíra custou a cair". Disse tudo. Agora, a paciência precisa acabar com outro pedregulho coberto de lodo sempre com inveja da rocha. Rodrigo Maia, o do lodo, cabeceador sem bola, o da lista secreta da Odebrecht, persegue Bolsonaro, a rocha, e tudo faz para quebrar a economia brasileira. Que praga!
