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Estado de Minas

Herança para as próximas gerações


postado em 21/01/2020 04:00

Mariana Luz
CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal

Você já imaginou que as experiências que os seus pais tiveram quando crianças podem ter influenciado geneticamente quem você é hoje? Diversos estudos recentes sobre epigenética – área da ciência que estuda como o ambiente pode afetar a expressão dos genes – apontam que as experiências vividas, sobretudo na primeira infância, podem alterar o comportamento do nosso DNA. Os pesquisadores afirmam ainda que algumas dessas modificações podem até ser transmitidas de uma geração para outra.

Portanto, se antes o debate estava entre genética versus ambiente, o que era mais determinante para ditar o comportamento das pessoas, hoje a discussão é outra. Os cientistas querem saber até que ponto o que vivemos na infância ou mesmo antes de nascer, durante a gestação, pode deixar marcas nos genes e influenciar, positiva ou negativamente, comportamentos e habilidades.

Sabemos que crescer em um ambiente acolhedor, harmonioso e rico em experiências positivas é fundamental para o bem-estar da criança hoje e para que ela tenha um futuro com mais possibilidades. Por outro lado, viver em uma atmosfera ameaçadora, permeada pela violência, pobreza, abuso e negligência pode ajudar a produzir alterações que afetam negativamente a criança por toda a vida.

As novas evidências científicas reforçam o senso de urgência para a implementação de políticas e práticas voltadas à primeira infância, em especial diante do atual cenário que mostra que uma em cada três crianças de até 6 anos vive na pobreza ou extrema pobreza no Brasil. O contínuo estresse na infância está diretamente relacionado ao aumento do risco de doenças físicas e mentais.

Por isso, devemos enxergar essa fase da vida como uma janela de oportunidades para mitigar os efeitos nocivos de um ambiente tóxico. Vou além: o investimento em políticas de apoio às famílias e em educação infantil de qualidade é o caminho para a real diminuição da desigualdade e a quebra do ciclo de pobreza das famílias brasileiras.

Entre as diversas estratégias possíveis, o poder público deve focar em levar mais informação para pais e adultos próximos à criança, por meio de programas e serviços que valorizem o estímulo, a interação e o vínculo. A visitação domiciliar é um exemplo de política nesse sentido. Em diferentes países, esse tipo de iniciativa tem se mostrado eficiente para promover a saúde e o desenvolvimento humano.

Desde 2016, temos no Brasil o Programa Criança Feliz, do governo federal, que se baseia exatamente nesse tipo de estratégia. Além dele, existem outras iniciativas municipais e estaduais com a mesma proposta que podem ajudar a inspirar outros gestores. O que se espera desse tipo de programa é informar os cuidadores sobre a importância da primeira infância e estimular o cuidado responsável e amoroso dentro de casa.

Outra estratégia para garantir que as crianças tenham boas experiências no começo da vida e isso se reflita em um futuro melhor é a priorização do investimento em educação infantil de qualidade, com bons profissionais, ambientes e materiais apropriados.

Além de oferecer as condições básicas de sobrevivência às crianças brasileiras, como estratégia de futuro da sociedade, temos que garantir a todas elas a possibilidade de alcançarem o desenvolvimento pleno, em termos físicos, cognitivos e socioemocionais. Se restavam dúvidas, a epigenética está aí para mostrar que investir em políticas que cuidem da criança e apoiem suas famílias para que tenham condições de oferecer aos seus filhos um ambiente seguro, acolhedor e afetuoso é a melhor escolha. Cada dia na primeira infância conta muito e seis anos passam rápido demais.
 


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