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Um momento para fazer nada

É a partir do momento de fazer nada que construímos as maiores teses sobre como dividir e entendemos que nossas atitudes podem machucar o outro


postado em 07/05/2019 05:05

O ritmo alucinado que temos vivido na última década, as infinitas oportunidades e exigências que o mundo globalizado e virtual nos tem possibilitado têm produzido uma padronização de atividades que nossos filhos precisam e devem realizar. Com a melhor das intenções, criamos agendas com inúmeros compromissos que acabam por sobrecarregar, frustrar e, infelizmente, a meu ver, a pior das perdas: eliminamos o essencial e delicioso momento de fazer “nada”.

Natação, defesa pessoal, segunda língua, piano, violão, capoeira, futebol, terceira língua... Colocamos à disposição dos pequenos todas as possibilidades de sucesso, futuro brilhante e carreira profissional invejável que, na maioria das vezes, nós não tivemos e, acabamos, assim, por projetar os nossos desejos – deixando que reais aptidões e habilidades que os nossos filhos possam realmente vir a apresentar um dia fiquem sufocadas por tantas outras metas que devem realizar.

Durante a infância, é essencial termos o momento de fazer nada, pois é a partir dele que construímos as maiores teses sobre como dividir – seja o brinquedo ou o espaço –, o momento adequado de partilhar – seja o lanche ou o colo da professora –, entendemos que nossas atitudes podem machucar o amigo por dentro e por fora e como é importante saber que as minhas escolhas geram consequências para mim, para o outro e para o todo que me cerca.

Esse trabalho mais refinado para as reais possibilidades de desenvolvimento intelectual, social e comportamental das nossas crianças deve ser analisado e discutido por familiares e professores. Na escola, é importante propor ações que possibilitem que os alunos tenham momentos de trabalhar com materiais desestruturados, como os elementos naturais, gravetos, pedras, terra, água, luz e também com os desestruturados concretos como tampas, caixas, botões, carretel, tecidos entre outros. Dessa forma, a criança é estimulada a descobrir o que pode construir ou aprender em cada espaço, sem inúmeras interferências ou mediações do professor. O momento do fazer nada traz inúmeras possibilidades de descobrir o “tudo” – ou quase tudo.

Observamos que, ao propormos momentos nos quais as crianças possam fazer escolhas próprias e atraídas por temáticas que lhe causam interesse, encantamento ou curiosidade, a aprendizagem se dá de forma ampliada e produz verdadeiras oportunidades de desenvolver habilidades futuras que possam ser revertidas em conquistas, tanto profissional quanto pessoal.

As atividades esportivas e as culturais são bem-vindas – melhor ainda se acontecerem na dosagem certa, com equilíbrio entre as necessidades da infância e o desejo em querer realmente realizá-las com encantamento, desafio e curiosidade, combustíveis essenciais para essa fase da vida.


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