Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Porrete, tiros na igreja, na feira. Fim do mundo?


postado em 17/12/2018 05:03

O que está acontecendo com  a humanidade? Com o ser humano? É de assustar o que os jornais e TVs registram todos os dias sobre atos de selvageria, de impiedade, de agressividade gratuita contra pessoas inocentes, contra indefesos integrantes do chamado reino animal, cães, gatos, micos, cavalos, muares, pássaros. Por que a maldade tomou conta da mente de tantos seres suposta e indevidamente chamados de humanos?

Um insano dispara sua arma contra os que rezavam dentro da Catedral de Campinas (SP). Mata cinco fiéis, fere outros, e se mata diante do altar, depois de ser atingido por tiros disparados por dois policiais. Em Estrasburgo (Strassburg), na fronteira com a Alemanha, bonita e histórica cidade francesa (que visitei com Rachel quando meu irmão Ney fazia seu doutorado em direito do trabalho), outro insano dispara dezenas de vezes sua metralhadora contra a multidão que todos os anos participa de uma famosa feira de Natal. Matou três e feriu 13, sem motivos conhecidos, e sumiu no meio da confusão. São dois episódios de violência entre dezenas de outros noticiados todos os dias, ensanguentando páginas dos jornais e telas de TVs, afetando o emocional dos leitores e telespectadores. O mundo está perdendo o equilíbrio?

Segurança engravatado, empunhando um porrete, persegue uma simpática cadela "vira-lata" que escolheu o estacionamento de um shopping paulista,para morar. Ali, dócil, carinhosa, era conhecida, acarinhada e alimentada pelos fregueses e motoristas. Câmaras de filmagem gravaram o segurança perseguindo a cadelinha alegre, brincalhona. O monstro a encurralou e, sem se importar com os que estavam perto, desferiu violentas porretadas na cabeça e no corpo do anilmazinho encolhido e amedrontado, até deixá-lo caído no piso do estacionamento, ensanguentado, mas ainda com sinais de vida. Não satisfeito, o sádico criminoso misturou veneno na água que trouxe para o animalzinho, que gemia e chorava. Sua sanha selvagem só cessou quando Manchinha, o nome da cadelinha, parou de chorar e de respirar. O canalha chamou um faxineiro e mandou que o pobre bichinho fosse colocado na lixeira.

Que pena merece este monstro pelo crime que cometeu? Os jornais dizem que ele sumiu. Se for detido, se for indiciado, processado e punido, nunca ficará preso. A lei que pune maus-tratos a animais é bem no estilo brasileiro da condescendência, da impunidade. Pela legislação vigente, a pena varia de três meses a um ano. Não se conhece, pode ser que exista, um caso de autor de crime semelhante que tenha dormido na cadeia. A impunidade incentiva a prática de monstruosidades como a que sofreu a infeliz Manchinha. E o caso dela não é o único, existem milhares de outros noticiados pela mídia em um dia e esquecidos no dia seguinte. Como aconteceu com Manchinha, o assunto já morreu para a imprensa (vale a pena, a propósito do caso, ler a bela carta-crônica-poema de Andréia Donadon Leal, publicada no dia 12 na seção de Cartas do Estado de Minas).

O novo governo que assume a Presidência em janeiro foi eleito com a promessa de mudar a triste realidade do nosso país, especialmente na área da violência, da criminalidade, para acabar com a impunidade que quase sempre deixa bandidos, criminosos, corruptos de todos os gêneros em liberdade para cometerem novos crimes, novas monstruosidades. A punição adotada pela atual legislação por violência contra animais precisa ser revista, aumentada, igualada pelo menos à que vigora para os assim chamados humanos. Um bom tema para a reflexão do futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro. Que cresceria ainda mais na admiração e no respeito de toda a população, revoltada  com o que aconteceu com a cadelinha.

O Carrefour, que já responde a processo na 7ª Vara da Barra (RJ), por suspeita de ter mandado exterminar gatos que viviam dentro de suas instalações, naquele bairro, deve ser punido? É evidente. O segurança, o monstro criminoso, é, ou era (dizem que foi demitido), funcionário da empresa. Agia, assim, em seu nome. Como tentar fugir à responsabilidade evidente? Alegam que o autor da barbaridade não pertencia a seus quadros funcionais. Era terceirizado, contratado por uma firma de segurança. Mas quem contratou a tal firma? Contratando a firma, o shopping contratou o serviço dos seus servidores, logo, do monstro do porrete. O crime foi cometido dentro da área do estabelecimento.

Qual o tipo de pena seria aplicável? A Justiça, se houver, saberá definir. Em decisão espontânea, os donos da empresa poderiam criar e patrocinar abrigos nas principais cidades em que atua para acolher, tratar, vacinar cães e gatos abandonados nas ruas.  A população, revoltada com o que aconteceu, promove campanha nas redes sociais  para que ninguém faça compras no shopping. Não creio que isso funcionará por muito tempo. A memória coletiva é fraca, o esquecimento vem rápido. E o "xapralá" prevalece.

Punição, pelo menos moral, deveriam receber os que presenciaram o massacre praticado pelo monstrengo engravatado, todos os que estavam no entorno, todos os que viram o canalha de porrete na mão perseguindo o vira-lata, que presenciaram a horripilante cena das porretadas, e do envenenamento da vítima já nos estertores finais. Ninguém reagiu, ninguém tentou interferir, impedir o massacre? A omissão, o silêncio diante da violência praticada em público, dentro de um estabelecimento comercial sempre supermovimentado, são inexplicáveis, caracterizam conivência. Seria por medo do bandido e do seu porrete, ou por comodismo do "não tenho nada com isso", ou "estou atrasado", "estou com pressa", "não quero me envolver", "tenho compras a fazer", "tenho que pegar meu carro", "deixa isso pra lá"? Ninguém se condoeu com o choro da cachorrinha, ninguém se revoltou com a sanha assassina do segurança-bandido? Para quem tem cãezinhos em casa, penso nos meus fiéis companheiros Bê e Du, a revolta é maior.

Não posso acreditar que muitos dos que estavam perto não se sensibilizaram com os latidos sofridos da infeliz cadelinha. Por que não reagiram, não tentaram impedir, não protestaram? Vá tentar entender a humanidade, explicar o comportamento do ser humano...


Publicidade