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Estado de Minas PANDEMIA

COVID-19: cuidados depois da vacina evitam contágio e transmissão de vírus

Imunizantes impedem que a população vacinada desenvolva quadro grave da doença, caso contraia vírus. Especialistas reforçam necessidade de seguir orientações


14/04/2021 11:09

Ana Paula trabalha em um hospital e pegou o vírus; vacinada com duas doses, ela teve quadro moderado(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Ana Paula trabalha em um hospital e pegou o vírus; vacinada com duas doses, ela teve quadro moderado (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Mesmo com quase 333 mil pessoas que receberam a primeira dose das vacinas contra a COVID-19, e 109 mil que tomaram o reforço, o Distrito Federal continua a acumular casos e mortes pela doença. No entanto, sem os imunizantes, a situação seria ainda mais grave. Os tipos disponíveis no Brasil têm efeitos diferentes quanto à proteção do organismo (leia CoronaVac x Covishield).

Em geral, as pessoas que receberam as duas doses podem até contrair o novo coronavírus — e, consequentemente, transmiti-lo —, mas não desenvolvem quadro grave da doença. Para evitar que mais indivíduos se infectem e, eventualmente, passem o vírus para os demais, especialistas em saúde reforçam que, mesmo após a vacinação, a população não deve se descuidar das medidas de segurança.

O epidemiologista Mauro Sánchez, da Universidade de Brasília (UnB), comenta o efeito dominó que pessoas vacinadas podem causar se relaxarem com relação às orientações contra a COVID-19. “Elas têm de continuar a se cuidar, mesmo depois de vacinadas com a primeira ou segunda dose. Depois da vacina, a pessoa usa máscara mais para proteger os outros do que ela mesma, pois tem chance praticamente nula de desenvolver uma forma grave da doença”, explica. “Há chance para uma forma leve ou assintomática. Por isso, uma pessoa vacinada que não toma as precauções recomendadas pode transmitir, eventualmente, para uma pessoa não vacinada e que não está protegida contra formas graves da doença”, alerta.

Técnica de enfermagem do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), Janine Araújo Montefusco Vale, 41 anos, é chefe do Núcleo de Segurança e atua no setor de terapia intensiva (UTI) da unidade. Lá, tem contato direto com pacientes infectados pelo novo coronavírus. Em 26 de janeiro, Janine tomou a primeira dose e, em 12 de fevereiro, a segunda. Contudo, no último dia 26, ela teve de pedir licença do trabalho, após apresentar sintomas da COVID-19.

Janine teve dores de cabeça, coriza e congestão nasal. “Fiz o exame RT-PCR (com coleta de amostra das vias aéreas) quando comecei a sentir os sintomas. No sábado e no domingo, tive febre, calafrios, mal-estar e dor no corpo. O resultado positivo saiu no domingo. Como senti muita dor nas pernas, o médico até suspeitou de trombose. Fiz um exame de imagem, mas não havia nada de anormal. Precisei usar anticoagulante na quarentena e tive muita dor nas costas, além de perda do olfato e do paladar”, relata a moradora do Riacho Fundo 1. “Por isso, é importante ter acompanhamento médico, para não sair tomando qualquer coisa. As pessoas te ligam e falam para tomam isso ou aquilo. Imagina quem não tem informação e não consegue se tratar”, completa.


Sem sintomas

Outra pessoa que passou por situação semelhante foi Rosulina da Silva Ramalho, 55. Técnica de enfermagem no Hran há 21 anos e enfermeira na Unidade Básica de Saúde (UBS) nº 1 da Asa Sul, ela tomou as doses da vacina em 19 de janeiro e em 9 de fevereiro. Em 5 de março, após fazer um teste RT-PCR, recebeu resultado negativo. Uma semana depois, descobriu que havia se infectado, mas não havia apresentado qualquer sinal. “Eu só soube (do resultado positivo) no fim do mês, mas tinha passado 14 dias em quarentena, porque estava de férias. Eu não estava com sintoma algum. Não fui afastada do trabalho e não precisei de medicamentos. Fiquei sabendo porque me ligaram de um projeto que fiz em parceria com a UnB (Universidade de Brasília). Era preciso fazer exame para participar, e eles me informaram que testei positivo”, conta.

A enfermeira Ana Paula Sathler Bueno, 34, trabalha há um ano na emergência do Hospital Sírio-Libanês e também tomou as duas doses da vacina. Porém, contraiu a COVID-19 do marido, que havia viajado para Goiânia. “Ele veio para Brasília e começou a sentir sintomas por dois dias. Ficou com moleza no corpo e indisposição. Fiz o RT-PCR e recebi o resultado positivo dois dias depois. Por cinco dias, perdi o olfato, tive dor de cabeça e tosse. Mas me recuperei”, relata.

O caso de Severino José dos Santos, 81, morador de Valparaíso (GO), foi mais grave. Ele havia tomado a primeira dose, mas, devido a visitas a hospitais para consultas de rotina, acabou infectado antes de tomar a segunda dose. Em 21 de fevereiro, ele morreu por causa da COVID-19. Neta dele, a recepcionista Hevylaine Conde, 31, conta que o avô passou a semana bem, mas piorou nos dias seguintes à infecção. “Ele começou a ter sintomas gripais, coriza e espirro. No fim da tarde, deu febre. Depois, ele teve uma febre muito alta”, conta.

A família chegou a pensar que os sintomas fossem efeitos da primeira dose da vacina. No entanto, a equipe de saúde do Centro de Atendimento Integrado à Saúde (Cais) de Valparaíso 2, para onde Severino José foi levado, descartou possibilidade de reação ao imunizante. O paciente foi transferido para o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), mas recebeu resultado positivo para COVID-19. Severino não resistiu ao quadro infeccioso e morreu.

Questionada pela reportagem sobre quantas pessoas vacinadas se infectaram com a covid-19 no Distrito Federal e quantas precisaram ser hospitalizadas, a Secretaria de Saúde (SES-DF) informou que não dispõe desse levantamento.

Colaborou Ana Isabel Mansur

Três perguntas para
Joana D’Arc, infectologista

Por que é importante que a pessoa vacinada mantenha os cuidados após a imunização?
Porque temos o que chamamos de escape imunológico. Algumas pessoas, mesmo vacinadas com a primeira ou segunda dose, podem ter a infecção, pois, das vacinas que temos disponíveis no Brasil, a eficácia delas é maior para evitar doenças graves e mortes. As pessoas podem se infectar, mas o que se espera é que elas tenham um quadro mais leve. Como no Brasil temos uma circulação intensa do vírus e poucas pessoas se vacinaram, o vírus pode sofrer mutações, e a eficácia da vacina pode se tornar menor.

Em que situação uma pessoa vacinada pode servir de vetor de transmissão do novo coronavírus?
Algumas pessoas que têm outras doenças podem se infectar, mesmo após a segunda dose. Há alguns casos de ficarem internadas. Mas teremos uma segurança maior em relação à vacina só quando tivermos 80% da população imunizada, a chamada imunidade coletiva. Mesmo quem se vacinou tem risco de desenvolver a infecção e transmitir para outras pessoas, servindo como vetor de transmissão. Se você vai a uma festa e há alguém transmitindo o vírus, ele vai para a mucosa (da pessoa vacinada) e a imunidade (gerada pala vacina) resolve o problema. Mas se esse indivíduo vacinado for a outro local e espirrar, por exemplo, aquele vírus pode infectar outras pessoas.

Como a primeira e a segunda dose da vacina agem no corpo?
Os primeiros estudos com algumas vacinas demonstram que, quando se aplicava a primeira dose, os tipos de anticorpos não eram tão altos para evitar a infecção. Então, foi preciso um reforço com a segunda. Com alguns imunizantes, só após a segunda dose identificaram anticorpos e viram que eram protetores daquela população (estudada). Só uma dose é insuficiente para se produzir imunidade adequada. Depois da segunda, tem-se uma distribuição de anticorpos para garantir uma proteção considerável.


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