UAI
Publicidade

Estado de Minas Queimadas

Bombeiro com 10 anos de experiência defende educação para conscientizar

Militar do Batalhão de Emergências Ambientais e Resposta a Desastres, Leonan Soares Pereira alerta para a importância de políticas de preservação ambiental com foco no homem


15/09/2020 06:00 - atualizado 15/09/2020 08:52

"É muito covarde um palito de fósforo causar estrago tão grande, gastar tanto recurso público que poderia ser empregado em melhorias para a comunidade" (foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação)


Agosto e setembro em chamas. As condições climáticas desse período típico de estiagem favorecem o aumento de incêndios florestais em Minas Gerais . Os bombeiros militares atenderam mais de 12 mil ocorrências ao longo do ano, nas quais focos se alastraram pela vegetação, destruindo a biodiversidade levando riscos a áreas urbanas e perigo para os brigadistas em meio à fumaça.

O Estado de Minas conversou com o tenente Leonan Soares Pereira, que é bombeiro militar há 10 anos e hoje atua no Batalhão de Emergências Ambientais e Resposta a Desastres ( Bemad ). O comandante de operações chefia a primeira tropa a fazer o combate noturno na Serra da Moeda , Região Central do estado, que está em chamas desde a última sexta-feira. Especialista no assunto, ele afirma que o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) está preparado para a guerra contra o fogo que assola o estado neste período do ano, mas adverte que “é impossível atender todos”.

Na linha de frente dessas batalhas, Leonan observa que a maioria dos incêndios ocorre onde há moradores. Para o militar, todas as áreas próximas de grandes coberturas vegetais que tenham contato direto com a comunidade são pontos críticos de início dos incêndios. Apesar de esse tipo de combate ser uma atividade inerente ao trabalho do bombeiro, o tenente acredita que a solução seria reforçar os trabalhos que visam à educação envolvendo os perigos do fogo a longo prazo.

Como tem sido o combate na Serra da Moeda?
Os militares foram pra lá no sábado. Temos em torno de 10 equipes entre brigadistas e bombeiros militares na intenção de mitigar e quebrar essa linha pra gente conseguir fracionar o incêndio em outros menores. As principais ações foram direcionadas à proteção de residências. Uma equipe fica por conta da proteção da rodovia. No topo da serra, a gente também deslocou uma das equipes para combate na parte alta. É um local de muito difícil acesso, de grande risco, onde qualquer descuido, qualquer intercorrência, pode ser fatal. Por isso, nesses locais a gente distribuiu a tropa especializada em incêndio ambiental. Hoje (ontem) a gente vai implementar a nova fase, de combate noturno, com cerca de 15 militares.

Como o senhor se sente em relação a esse tipo de ocorrência, com a vivência do trabalho árduo de combate ao fogo?
A gente tenta introduzir políticas públicas de prevenção. É muito covarde um palito de fósforo tão pequeno causar um estrago tão grande a tantas pessoas, gastar tanto recurso público que poderia ser empregado em melhorias para a comunidade. Durante todo esse tempo chegamos a conclusão que o combate vai acontecer, mas se a gente não trabalhar a educação ambiental, procurar mudanças na cultura da utilização do fogo, a gente vai caminhar para um ponto que não vai ter retorno. Vamos destruir todo ecossistema.

O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais está preparado para o combate aos grandes incêndios?
Sim. Os incêndios florestais são previsíveis. Há um período muito bem delimitado relacionado a essas ocorrências, que é o da estiagem. Nesse período, a gente mobiliza o maior número de militares. Em todo estado, a gente limita o número de férias, fazemos manutenção prévia das viaturas. Também temos núcleos especializados em todas as unidades do Corpo de Bombeiros. O principal fator que vai limitar a nossa atuação é a quantidade de incêndios ocorrendo ao mesmo tempo. A gente consegue mobilizar. Porém, se a população não nos ajudar a impedir esses incêndios, claramente vai chegar um ponto em que não dá. É impossível atender todos.

Como é o planejamento da corporação para esta época do ano?
Toda unidade tem pelo menos cinco militares especialistas em coordenação desses incêndios. Esses militares, durante o período de ‘normalidade’, como chamamos o primeiro semestre, fazem vários levantamentos, de quantidade e densidade de vegetação, mapeamento de estradas, trilhas, pistas, locais de difícil acesso e de captação de água, justamente para, nesse período que passamos agora, a gente ter todas essas informações prontas para que as equipes em campo possam dar o melhor combate possível nas áreas de preservação e nas áreas de relevante interesse social. Nesse sentido, com todo esse alinhamento e geoprocessamento, a gente consegue se mobilizar muito mais rápido, inclusive os brigadistas.

Os bombeiros de Minas têm equipamentos suficientes para os combates?
Temos sim. Viaturas, caminhões que transportam água, aeronaves. Chega muito equipamento novo de alta tecnologia, principalmente usados na Europa, que são utilizados em incêndios semelhantes aos daqui. Temos importado algumas tecnologias focados nessas questões de controle do fogo e prevenção. Anemômetros, por exemplo, que são aparelhos que aferem a velocidade e direção do vento. E outros equipamentos de combate.

"A gente consegue mobilizar. Porém, se a população não nos ajudar a impedir esses incêndios, claramente vai chegar um ponto em que não dá. É impossível atender todos"



O que é o Decreto Estadual 47.919, de 17 de abril de 2020, que regulamenta o uso de fogo? Como tem funcionado na prática?
O Decreto do Fogo vem dizendo que, a fim de prevenção, pode ser feita queima controlada. Isso quer dizer que, quando passa um, dois, ou três anos que a vegetação não é incendiada, ela acumula uma quantidade de combustível muito grande. Quando esse combustível pega fogo, causa um grande incêndio florestal. O cerrado por exemplo, é adaptado ao fogo, mas não como as pessoas costumam utilizá-lo.

Em Belo Horizonte, quais são os locais com mais ocorrências?
Belvedere, Luxemburgo, Parque Estadual Serra Verde.  Neste ano, todos eles já tiveram pelo menos uma ocorrência. O Serra Verde, ano passado, sofreu com um incêndio que destruiu grande parte do parque. Neste ano já atendemos novamente e é muito importante para aquela região e para preservação da nossa biodiversidade. O complexo dos três parque próximos à Praça do Papa também é problemática: Serra do Curral, Parque das Mangabeiras e Parque da Baleia. Todos eles muito próximos de comunidades.

O que o senhor recomenda para a população poder ajudar no trabalho de prevenção?
Primeiro, não utilizar fogo nesta época do ano porque tem muito vento e a temperatura está elevada. Qualquer fagulha pode viajar até quilômetros. Outro cuidado é não fazer fogueira durante acampamentos e evitar fogos de artifício.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade