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Estado de Minas

Coronavírus no RJ: 'A gente ainda sofre com essa briga dos governos'

Para infectologista, atitude dos governantes é mais um fator de pressão no estado na pandemia. Capital tem a maior taxa de mortalidade pela COVID-19 no país


postado em 23/05/2020 04:00 / atualizado em 22/05/2020 23:31

(foto: Aquivo pessoal/Divulgação)
(foto: Aquivo pessoal/Divulgação)
 
O Rio de Janeiro iniciou a semana com recorde de mortes por COVID-19 em 24 horas, com 227 novos óbitos na segunda-feira, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. No total, o estado registrava 26.672 infectados e 2.852 mortes. Ontem, o órgão computava 33.589 casos confirmados e 3.657 óbitos por coronavírus no estado, além de 1.023 óbitos em investigação. A capital fluminense tem uma taxa de mortalidade pela doença de 12,7%, quase o dobro da média nacional, de 6,5%, segundo dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base em informações passadas pelo Ministério da Saúde. Por trás dos números, o próprio poder de atração da Cidade Maravilhosa sobre turistas, as comunidades superpovoadas, as dificuldades da população mais pobre de se isolar – seja pelas características das residências, seja por se ver forçada a ir à rua para garantir o sustento –, e ainda a indecisão e disputas de governantes, avalia a presidente da Associação de Infectologistas do Rio de Janeiro, Tania Vergara, que conversou com o Estado de Minas sobre a situação no Rio.
 
O Rio é o segundo estado com mais notificações do país, atrás de São Paulo. Neste contexto, o lockdown já está sendo implantado em algumas cidades do estado. Niterói, Armação de Búzios, Campos dos Goytacazes e São Gonçalo adotam medidas mais restritivas de isolamento social até o dia 31. Um projeto de lei autorizando o governador Wilson Witzel a decretar o bloqueio total no estado chegou a ser analisado, mas foi derrubado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro na terça-feira. A capital do estado ainda não está em lockdown, mas segue com medidas restritivas para combater o COVID-19. Desde o dia 7, a circulação de pessoas na área comercial de Campo Grande e no Calçadão de Bangu está restrita. Além disso, as restrições nos bairros Grajaú, Santa Cruz e Madureira são mais rígidas, visto o alto índice de aglomeração nesses locais. Para completar, no dia 12, a prefeitura bloqueou a circulação de pessoas em ruas e áreas de 11 bairros.
 
O prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), estendeu as restrições no município por mais sete dias, sendo válidas até segunda-feira. Segundo ele, a curva de casos do novo coronavírus começou a cair e, por isso, as ações devem ser mantidas. A taxa de isolamento social na capital chegou a 80%, no último domingo, conforme a prefeitura.  Ontem, a cidade contabilizava 18.743 casos confirmados de COVID-19 e 2.376  óbitos, conforme dados da administração municipal. A seguir, a entrevista com a infectologista Tania Vergara.

O que provocou o agravamento da situação local? 
O Rio tem uma particularidade, a gente tem as comunidades. São lugares onde as pessoas têm uma moradia muito ruim em questão de isolamento social. Moram muitas dentro de uma mesma casa e não há uma área de ventilação adequada. Essas pessoas, muitas delas, não têm um emprego formal e ficam sem salários. Então, começam a sair para conseguir alguma coisa. Fica difícil, nas comunidades com menor renda, você conseguir que as medidas preventivas sejam tomadas da forma que deveriam. Além disso, o estado foi atingido logo de primeira, pois é a capital é extremamente turística. Uma cidade ensolarada, de praia, que recebe muitos turistas nesta época. Aqui, a pandemia começou no fim de fevereiro, logo depois do carnaval.

Houve demora na adoção de medidas de isolamento? 
No início, acho que houve uma demora. Acho que os locais que tiveram mais sucesso no isolamento social foram os que adotaram um fechamento mais rígido. Nas primeiras semanas, aqui no Rio, as pessoas iam às praias. A população não estava acostumada (a se isolar). Hoje, acho que as pessoas não acreditam no isolamento social. E estão ficando em casa cada vez menos. Tem muita gente chegando ao mesmo tempo nos hospitais para atendimento. Creio que porque a gente teve uma impressão de que as coisas pareciam ter melhorado. Até uns colegas de trabalho da rede pública concordaram. Porém, isso era fruto de quinze dias atrás, quando a gente estava com um isolamento melhor. Agora, a gente está com um nível (de isolamento) muito ruim. Há umas semanas, na área do meu consultório, que fica na Zona Norte da cidade, estava tudo vazio. Esta semana já estava cheio de gente, já tem camelô. As pessoas estão relaxando por várias razões, entre elas, não acreditar, achar que têm que sair para trabalhar pois não têm dinheiro. O auxílio do governo demora e não é todo mundo que está conseguindo receber. Então, as pessoas ficam desestabilizadas. E tem a questão do desconhecimento. A pessoa acha que com ela não vai acontecer nada.
 
Quais as maiores dificuldades que o Rio de Janeiro enfrenta na luta para conter o avanço do vírus?
A gente ainda sofre, assim como os outros estados, com essa indecisão e briga dos governos (estadual e federal), que deixam todo mundo dividido. Uma situação de saúde virou política. Agora é acreditar ou não no isolamento social. Na verdade, o isolamento é uma medida médica, uma recomendação. Há estudos para saber qual é a taxa de isolamento que você tem que ter para conter o vírus.  Não é que as pessoas não vão pegar, elas vão pegar. Mais ou menos 70% da população vai pegar. Algumas pessoas não, pois, por alguma razão, o vírus não as ataca. O problema é todas as pessoas pegarem de uma vez, pois é assim que a rede hospitalar entra em colapso. E as pessoas são mal atendidas nas suas necessidades ou não conseguem o atendimento. Quando chegam ao hospital em situação grave é difícil recuperar. Então são várias contingências que afetam, não só aqui no Rio, mas em qualquer lugar onde tem uma população maior. É muito difícil. Tenho vários amigos médicos que dizem que as pessoas estão com medo de falir. Mas infelizmente, elas vão. O problema é que elas vão falir sem saúde. Pesquisadores, estudiosos não são contra o isolamento social. Porém, aparece um grupo de “grandes cientistas” que nega tudo isso.

 * Especial para o Estado de Minas 
 
Praia de Copacabana, na cidade do Rio: município tem uma taxa de mortalidade pela doença de 12,7%, quase o dobro da média nacional(foto: Nelson Almeida/AFP)
Praia de Copacabana, na cidade do Rio: município tem uma taxa de mortalidade pela doença de 12,7%, quase o dobro da média nacional (foto: Nelson Almeida/AFP)
 

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